"Nua e cruamente, é como não sentir falta daquilo que você não teve", o músico diz sobre a mãe, que morreu quando ele tinha 6 anos

Aos 35 anos, com sete CDs lançados, Pedro Mariano promete lotar a casa de show paulistana Tom Jazz, nos dias 21 e 22 de janeiro, quando apresenta uma nova versão do show "Pedro Mariano Incondicional", agora intitulado "Acústico 2011". O show faz parte do Projeto Sons da Nova, da rádio Nova Brasil FM. Em entrevista ao iG , o músico revela que pretende lançar um CD e DVD ao vivo este ano, descreve a relação com a filha Rafaela , de apenas quatro anos, e explica como é viver sem a mãe, Elis Regina , há 29 anos.

Pedro Mariano:
Divulgação
Pedro Mariano: "Por preferência, paro para ouvir canções de compositores novos, porque a fila tem sempre que andar"
iG: O novo show, "Acústico 2011", tem estreia no Tom Jazz ou você já mostrou a novidade ao público neste início de ano?

Pedro Mariano: Na verdade, eu não conseguiria chamar de um show totalmente novo. É a versão 2.0 do show do ano passado (risos). Eu já o fiz algumas vezes no Tom Jazz, ele estava há quase dois anos sem mudar o set-list e até por uma necessidade minha de inovar e experimentar coisas novas, eu inseri músicas inéditas e trouxe de volta outras que há algum tempo não tocava no meu repertório. Não é um novo show, pois tem a formação que as pessoas já conhecem, mas tem repertório um pouco diferenciado.

iG: É início de ano e você está em estúdio. Está preparando um novo trabalho?

Pedro Mariano: Tenho a previsão de gravar um CD e DVD este ano, se o projeto der certo. Eu estou querendo aproveitar este show para testar algumas coisas e começar a dirigir o repertório para algum lugar. O que eu achar que vale a pena ser experimentado ao vivo, eu levo para o show. Dependendo da reação do público no show, ela fica no set.

iG: No novo show, você promete apresentar canções inéditas de novos compositores, o que é comum você fazer. Sua intenção é a de ajudar estes profissionais ou adere à música independente de quem a escreveu?

Pedro Mariano: Na verdade, eu nunca escolhi uma música por compaixão. Eu gravo porque ela é boa, porque eu gosto, me identifico e não me preocupo muito com quem escreveu. Não quero a música por ela ser de um grande compositor. Eu tenho, por preferência, vontade de parar para ouvir canções inéditas, de compositores novos, porque a fila tem sempre que andar, que renovar. A fila só vai evoluir com gente que tenha oportunidade. Compositor novo às vezes não teve chance, mas tem material de qualidade. Então, eu os ouço não com o intuito de dar força, mas de renovação acima de tudo.

iG: Qual será o ponto alto do show?

Pedro Mariano: Não faço a menor ideia (risos). Sempre me perguntam qual é o momento chave, o que as pessoas esperam ouvir, e meus shows não têm isso. O perfil do meu público é de ouvir o CD todo e não de acompanhar apenas um sucesso ou outro. Eu fico à vontade de montar o set que eu quiser, porque o pessoal vai conhecer. Do lado da plateia, o ponto alto para eles é que eu sou cara de pau, gosto de palco, de fazer show, muito mais do que fazer disco. As pessoas percebem isso. O fato deste show ser intimista e de eu conversar bastante com a plateia, brincar, essa troca de energia, acho que é o grande barato deste show.

Pedro Mariano, sobre os irmãos:
Francisco Cepeda/AgNews
Pedro Mariano, sobre os irmãos: "Nos tratamos como profissionais... Cada um vive sua vida"
iG: Em 2004, quando você foi para a Trama - gravadora do seu irmão, João Marcello Bôscoli -, deixou de ser exclusivamente cantor para atuar também como produtor e arranjador musical dos shows. Hoje em dia, o quanto você se envolve com a produção das suas apresentações e qual é a sua relação com a banda?

Pedro Mariano: Eu participo 110%, porque não há nada que aconteça no palco, na produção do show, que eu não esteja a par. Não que eu seja fominha, mas porque é uma característica minha. Deixo as pessoas trabalharem, mas gosto sempre de orientar para a minha cara estar impressa no trabalho. E em relação à minha banda, eu sou mais um integrante. Quando a luz acende, por acaso, a luz está na minha cabeça, porque eu trabalho com eles de igual para igual. Eu quero entender as dificuldades e preferências de cada um. Já mudei a ordem das músicas do show para facilitar a troca do instrumento de um integrante para ele se envolver com a música. Para ele trocar apenas três vezes de instrumento. Isso é mais um ingrediente gostoso. Você saber trabalhar, equalizar junto com todo mundo para que o show crie uma unidade e cinco músicos se divirtam no palco. Quando a luz acende, é curtição. Estamos concentrados no que estamos fazendo, mas acima de tudo, nos divertimos.

iG: E como é, atualmente, a sua relação com ele, o irmão João Marcelo Bôscoli? Aliás, com a sua família, já que em 2003 você gravou o CD "Piano e Voz" com seu pai, César Camargo Mariano, na direção do irmão Marcelo Mariano, mas ainda não subiu ao palco com a Maria Rita.

Pedro Mariano: Somos como toda família. Na dinâmica familiar, cada banda toca de um jeito diferente. Nós temos uma relação de muito respeito e respeitamos a individualidade do próximo. Se a gente tiver interesse, a gente senta e trabalha junto. Se não há, não existe cobranca. "Você poderia ter me chamado para este trabalho", não existe. A gente se respeita. O trabalho com um durou dois anos, três anos, não existe problema, porque você pode ter uma empatia com um e não ter com outro na hora de trabalhar. Pode não ter química ou ter. Eventualmente, trabalho com o Marcelo até hoje. É algo que acontece de forma muito natural. "Alguém deve, tem o direito, o desejo...", não existe, assim como eu não espero o telefone tocar. Não penso assim, porque não é assim que a banda toca. Nos tratamos como profissionais, neste sentido. Stevie Wonder , que eu admiro, não me ligou para fazermos juntos uma canção (risos). Encaro de forma profissional. É algo muito bem explicado entre nós. Cada um vive sua vida.

iG E no "Acústico 2011", podemos esperar canções de Elis Regina, como já aconteceu em shows anteriores?

Pedro Mariano: Neste show, por enquanto não tem nenhuma música da minha mãe, mas nunca se sabe, até porque este show não está absolutamente fechado e até o fim do ano [quando Pedro Mariano pretende gravar um CD e DVD ao vivo] muita coisa pode acontecer. Já faz algum tempo que não tenho sentido necessidade de colocar. Tudo o que fiz por ela foi muito intenso e bem feito. Se o fizer, será de forma desencanada.

iG: Você dedicou o disco Pedro Mariano 2007 à sua filha, Rafaela, e recebeu indicação ao prêmio Grammy Latino na categoria Melhor Álbum Pop Contemporâneo Brasileiro. O que mais a Rafaela trouxe de bom para a sua vida?

Pedro Mariano e a filha Rafaela:
Reprodução/Fotolog Pedro Mariano, A Voz
Pedro Mariano e a filha Rafaela: "Não planejo vida artística para ela. Bailarina ou bióloga, quero que ela seja feliz"
Pedro Mariano: A paternidade traz uma objetividade à sua vida. Em nada antes dela eu consigo ver essa objetividade, que é taqmbém profissional. Não é uma coisa de inspiração. Eu me sinto mais focado. Eu me sinto mais responsável pelos resultados que o meu trabalho devem fazer. Isso é muito produtivo também. Antes da Rafaela, eu não me preocupava tanto com as nuances que o meu trabalho pudesse ter. Eu era jovem, podia errar. Agora, tudo o que eu faço, eu penso nela. O que ela vai achar disso daqui a um tempo? Tudo o que eu deixar de legado daqui um tempo será responsabilidade dela, assim como eu sou pelo legado que meus pais deixaram: a admiração, o cuidado. É diferente. O que me move é completamente diferente. A paixão pelo trabalho é dividida pelo que eu sinto por ela. A dinâmica muda. É impressionante.

iG: A pequena Rafaela vai dar continuidade à saga da família e trabalhar com música? Aos quatro anos, ela já demonstra talento para a coisa?

Pedro Mariano: Acho que toda criança gosta de música. Por ela ser exposta à música, ela mostra uma curiosidade e integração menos tímida do que as outras crianças. Não fico aqui torcendo para que ela seja musicista, cantora, artista. Torço para que ela seja feliz, seja lá o que ela escolher fazer, que ela sinta amor, como eu sinto, e orgulho. Se ela resolver seguir o mesmo caminho e seguir a geração, vou me divertir pra caramba e achar o maior barato. Bailarina ou bióloga, eu quero que ela seja feliz. Se eu pudesse dar um conselho, diria: "Filha, procure ser a melhor, top de linha, tudo o que alguém não foi. É difícil, você tem que matar um leão por dia, mas não seja mais uma. Seja a melhor no que você se propor a fazer". Ainda mais ela, sendo filha de um grande artista e neto de um ícone, teria que provar seu talento duas vezes. Por isso que eu não planejo vida artística para ela, e sim uma vida saudável. Eu e a Patrícia, minha esposa, vamos dar suporte para ela fazer o que quiser.

iG: Você está casado com Patrícia Fano há 10 anos. Juntos, pretendem ter mais filhos?

Pedro Mariano: Por enquanto, não. A Rafaela supriu absolutamente todas as nossas expectativas e necessidades. Se aparecer um rebento futuramente, será muito bem recebido, mas não faz parte dos nossos planos. Ela pede um irmãozinho, mas ofereci uma bicicleta e ela topou a troca (risos).

Pedro Mariano e a mulher, Patrícia Fano:
Tiago Archanjo/AgNews
Pedro Mariano e a mulher, Patrícia Fano: "Ela gosta de ficar perto, de beijo, de abraço. Isso eu nunca tive na minha vida, só depois que ela chegou"

iG: No show do Citibank Hall, em maio de 2010, você dedicou uma canção a sua esposa, sem medo de jurar amor eterno. Você realmente pode sentir que ela é a mulher da sua vida?

Pedro Mariano: A gente tem algumas músicas em que compartilhamos histórias que são nossas. Mas na ocasião eu cantava "O Acaso" com Marcelo Elias, no piano e voz. Eu não gravei por causa dela, mas depois que a gente a conheceu, criamos uma história e eu quis dedicar a ela, porque o show foi no dia se seu aniversário, no dia 29 de maio. Ela é minha "personal manager" (risos), cuida da minha casa, da minha filha, a cumplicidade que existe entre nós é muito forte e tentamos alimentar isso de uma forma muito saudável. O que eu tenho por ela é uma gratidão muito forte. Ela lida com artista e artista é cheio de manias, é meio xarope, e ela lida com isso muito bem. Ela me dá o suporte que eu preciso. Minha dinâmica de trabalho é bastante atribulada e quero que minha vida não seja assim. Quero que a minha filha tenha uma vida normal. O pai dela é músico por acaso, mas ele sai para trabalhar como qualquer pai. E esse porto-seguro e neutralidade é a minha esposa quem traz para a minha vida. Senão, eu seria mais um boêmio, vida que muitos artistas seguem. E eu não gosto disso. A Patrícia está perto, ela gosta de ficar perto, de beijo, de abraço. Isso eu nunca tive na minha vida, só depois que ela chegou. Isso é um bem muito precioso. Você descobre o quanto é importante quando você tem. Ela equilibra meu lado emocional e ajuda o lado racional a trabalhar melhor. Ela faz eu viver bem e ter uma vida coesa. Se ela não estivesse na minha vida, eu não teria encontrado estes valores na minha vida, que para mim são muito raros.

Elis Regina com Maria Rita no colo, e Pedro Mariano:
Reprodução
Elis Regina com Maria Rita no colo, e Pedro Mariano: "Não tive a referência do lado maternal dela"
iG: No dia 19 de janeiro, o Brasil completou 29 anos sem Elis Regina. Do que sente mais falta dela?

Pedro Mariano: A falta que ela fez para mim, enquanto filho, é irreparável e ao mesmo tempo difícil de mensurar. Eu era muito pequeno, pequenininho mesmo - seis anos - e não tive a referência do lado maternal dela. Então, nua e cruamente, é como não sentir falta daquilo que você não teve, mas tenho noção, consigo mensurar o quão importante ela é, o vazio, o buraco que fica. Para mim, não tem o que dizer, é algo que não vai se reparar nunca. Eu sou obrigado a viver com isso e procuro viver isso em casa de maneira saudável. Exponho o lado ser humano dela para a minha filha. Minha filha gosta de ver fotos, vídeos e acho isso importante e saudável. Como músico, é algo irreparável. São 29 anos da ausência dela e se você peguntar para alguém: "Você lembra o que estava fazendo quando Elis morreu?", todos sabem dizer. E falar da artista que entrou na vida das pessoas com essa força, com essa personalidade, poxa... Mas uma coisa que eu gosto bastante é de imaginar o que ela estaria fazendo, com quem ela estaria gravando. Será que ela estaria no Brasil? Ela não passou em branco. Um legado que 29 anos depois você consegue ver o tamanho dessa artista... Você não vai achar muitos artistas da história da música tão importantes para o seu país como a Elis Regina foi para o Brasil.

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