Ator mostra maturidade com atuação em “Xingu”, fala ao iG sobre drogas e diz que torce pela recuperação da ex-mulher, Vera Fischer

Felipe Camargo sobre Vera: 'Temos uma relação legal. O tempo é o melhor remédio'
Wesley Andrade / Divulgação
Felipe Camargo sobre Vera: 'Temos uma relação legal. O tempo é o melhor remédio'
Ele já foi galã em “Anos Rebeldes”, Édipo apaixonado pela mãe em “Mandala” e até um Hamlet contemporâneo em “Som & Fúria”. Vários papéis marcantes na carreira de Felipe Camargo. Na vida real, o ator também já foi um pouco de tudo. Errou, experimentou, ousou, se arrependeu e deu a volta por cima.

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Aos 51 anos, casado com Malu Guimarães, com quem teve um filho recentemente, Felipe ainda não se diz feliz por completo. “Tenho muitos conflitos internos que preciso resolver, se é que vou resolver”, diz, entre um cigarro e outro. O ator já foi casado com Vera Fischer, com quem teve Gabriel, hoje com 18 anos.

Sobre Vera, ele fala com carinho, após anos brigando na justiça pela guarda do filho. “Vera é uma pessoa maravilhosa, mãe do meu filho, ótima atriz. Acho que, se ela levar a sério esta recuperação, como acho que está levando, se seguir adiante com o tratamento, vai voltar uma atriz mais incrível ainda”, diz ele, sobre a recente internação de Vera em uma clínica de desintoxicação. É a primeira vez que Felipe fala sobre o estado de saúde de sua ex-mulher.

A entrevista a seguir acontece à beira da piscina de um hotel em Manaus. O ator está na cidade para divulgar o filme “Xingu” , no 8º Amazonas Film Festival. O longa, com direção de Cao Hamburger, retrata a saga de três irmãos que entram na maior briga de suas vidas: fundar o Parque Nacional do Xingu. O ator mostra maturidade na profissão e defende com empenho o papel principal do filme, o sertanista Orlando Villas Boas. Em geral avesso a entrevistas, Felipe aceitou falar com exclusividade ao iG , mostrando-se tranquilo e sem receio de se expor. “Vamos conversar agora? De improviso mesmo, fica mais dinâmico”, sugere.

iG: O que você sabia dos irmãos Villas Boas antes de fazer o filme?
Felipe Camargo: Eu era bastante ignorante em relação aos Villas Boas e fui me surpreendendo com estes personagens durante o processo de pesquisa. Estes caras são os verdadeiros heróis do Brasil, pela quantidade de vidas de índios que salvaram. Orlando era um cara muito comunicativo, contador de histórias e com um lado meio narcisista, meio vaidoso.

iG: Como foi filmar no meio da floresta?
Felipe Camargo: Foram três meses e só três dias de folga, sendo um para ir e outro para voltar. Foi uma experiência bárbara, que fica para sempre. Foi um período que minha mulher estava grávida. Em Xingu só ficamos uma semana, a maior parte das cenas foi feita em São Felix, que fica a três horas de Palmas, no Tocantins. Este contato é riquíssimo, até espiritualmente falando.

iG: Você é religioso?

Felipe Camargo: Não sou praticante, mas tenho simpatia pelo kardecismo . É uma religião apolítica. Não se vê o kardecista no poder, pedindo voto. Gosto dessas ideias do livre arbítrio e da relação causa e consequência dos nossos atos. Não acredito que a gente venha do nada e vá para o nada. Nós temos todos os minerais da Terra dentro de nós. A vida está presente o tempo todo no universo em várias escalas. Acredito que a gente nunca morre nem nunca nasce, mas se transforma o tempo todo. Não acredito em morte, estamos eternamente nos transformando.

Ator protagoniza filme 'Xingu'
Wesley Andrade / Divulgação
Ator protagoniza filme 'Xingu'
iG: Se arrepende das coisas que já fez na vida?

Felipe Camargo: Errar faz parte do processo para chegar até aqui. Mas não quer dizer que não doa. Dia desses vi um DVD de um amigo que me filmou quando eu tinha 18 anos. Ao invés de ser cômico, remeteu à ideia de como eu era frágil, perdido. Posso eu, aos 51 anos, ter as mesmas atitudes de um cara de 18? Não dá. Consegui me transformar em uma pessoa legal, ainda que tenha vários defeitos para corrigir.

iG: Você tem sentimento de culpa?
Felipe Camargo: Minha formação é de família católica. Então tenho culpa. A igreja católica é traumática neste sentido. São valores que você aprende numa idade crucial e, para se livrar disso, não é simples. Se conseguir se livrar!

iG: O que te incomoda do seu passado?
Felipe Camargo: Aos 18 eu era completamente perdido. Era um peladeiro de curtição, passava o dia pegando onda e jogando bola. Virei ator por causa de uma contusão grave no joelho, o que comprometeu minha carreira futebolística (risos). Tive a contusão e fiquei parado, o que me causou uma depressão que me fez pensar no que deveria fazer da vida.

iG: Como assim?
Felipe Camargo: Estava entrando no vestibular. Fiz Economia por um ano e meio, estagiei em Furnas. Trabalhava de 8h às 17h dentro de um escritório. Era tudo que eu não gostava. Aí comecei a fazer curso de teatro. A primeira vez que entrei em cena, com a peça “Capitães da Areia”, foi como se tivesse tomado uma droga. Ali eu vi que posso tudo.

iG: Recentemente o canal Viva reprisou “Anos Dourados” , de 1986. Também te incomoda se ver aos 26 anos?
Felipe Camargo: Se eu te disser que não vi um capítulo, você acredita? Me desligo de tudo. Tenho em casa DVD de tudo que já fiz. Mas nunca vi um capítulo ao menos. Nem quando estou no ar. Não gosto de me ver, prefiro fazer.

Não acredito que a gente venha do nada e vá para o nada. Temos todos os minerais da Terra dentro de nós.”

iG: Depois de experimentar de tudo, pode-se falar que você, assim como sua geração, encaretou?
Felipe Camargo: Não, pode até ser que estejamos acomodados. Não sou uma pessoa politizada, porque me decepcionei em várias áreas da política. Até dentro do meu time, o Flamengo , com coisas que já vi. Preferi assumir a postura de torcedor ignorante, é melhor assim. Já me meti com sindicato dos artistas, conquistando benefícios incríveis e hoje em dia o sindicato dos artistas é um nada. A classe artística não existe. É um individualismo do tipo cada um por si.

iG: Por quê?
Felipe Camargo: A nova geração não está interessada em nada disso. As pessoas estão mais preocupadas em ser famosas do que em serem atores, ainda que fosse injusto generalizar. Mas é claro que tem muita gente que só quer aproveitar a fama para ganhar dinheiro.

iG: É a favor da liberação da maconha ?
Felipe Camargo: Sou a favor de não se prender um cara só porque estava fumando. Não se deve prender consumidor. Mas liberar tudo só se passar por um acordo internacional, para que o Brasil não vire um produtor de substância ilegal de outros países, se não o tráfico internacional se instala aqui dentro.

iG: A maconha não é nociva à saúde?
Felipe Camargo: É uma droga que, consumida, é menos agressiva do que o álcool. Com certeza o que leva às outras drogas é o uso do álcool, não a maconha. Álcool você consome em casa, em família, basta abrir a geladeira. E álcool é droga, muda seu estado normal. Você pode morrer se consumir uma grande quantidade de álcool, maconha não, maconha não mata. Fernando Gabeira diz que só se morre com maconha se você estiver andando na rua e cair uma tonelada na sua cabeça (risos).

Você pode morrer se consumir uma grande quantidade de álcool, maconha não, maconha não mata
Wesley Andrade / Divulgação
Você pode morrer se consumir uma grande quantidade de álcool, maconha não, maconha não mata
iG: Você fala sobre isso com seu filho?
Felipe Camargo: Com o Gabriel converso bastante. É um tipo de assunto que tem que ser debatido. A ignorância, em todos os aspectos, precisa ser combatida com o diálogo.

iG: Está preparado para caso ele chegue em casa contando que experimentou alguma droga?
Felipe Camargo: Estou preparado, isto pode acontecer. Espero que, se ele fizer, não seja uma coisa que crie danos na vida dele. Se ele vier a gostar de fumar, que fume de maneira parcimoniosa. Da mesma maneira com a ingestão de bebidas. Sei na carne o estrago que a bebida faz na vida de uma pessoa. Maconha foi fácil parar de fumar. O difícil foi largar o álcool . Nossa mãe, muito difícil! É uma substância que, ingerida, dá um conforto muito maior do que a maconha.

Posso eu, aos 51 anos, ter as mesmas atitudes de um cara de 18? Não dá.”

iG: E a cocaína?
Felipe Camargo: Cocaína é uma droga ligada a toda a parte psicológica... Acredito que o álcool seja droga ligada à parte física, o que torna o desafio maior. O cigarro é ainda mais difícil de largar. Ainda hoje fumo um maço por dia. Já tentei parar, mas não consigo.

iG: Você ainda hoje faz análise?
Felipe Camargo: Já fiz bastante. De vez em quando entro num intenso de quatro horas por semana, quando o bicho pega demais. Infelizmente, quando estou com pouco tempo, a terapia é a primeira coisa que abro mão. O trabalho de ator se desenvolve junto com o autoconhecimento.

iG: Gabriel, seu filho, quer seguir carreira artística?
Felipe Camargo: Ele vai fazer cinema, vai mais a cinema do que eu, produz vários vídeos. É claro que, por ter crescido numa casa onde só se falava disso, influencia de alguma maneira. Falo para ele que começar é fácil, difícil é se manter. É como casamento , manter a conquista quase que diária.

iG: Como assim? Acha difícil manter um casamento?
Felipe Camargo: Não. Estou agora feliz, bem casado, com um filho lindo, um outro que é meu companheiraço... Conquista é necessária sempre, não no sentido do flerte, mas na compreensão do respeito e da liberdade de cada um. Ah, e tesão! Isso que faz um casamento .

iG: E como fica a relação quando o casamento acaba? É possível ser amigo de ex?
Felipe Camargo: Fiquei oito anos brigando na justiça (pela guarda do seu filho) com a Vera, né... Mas hoje temos uma relação legal. O tempo é o melhor remédio. Os ditados estão aí para isso.

Se a Vera levar a sério esta recuperação, voltará uma atriz mais incrível ainda.”

iG: Como ela está de saúde?
Felipe Camargo: Ela está bem. Não quis falar sobre isso, porque é a vida dela.

iG: Você a tem ajudado a se reerguer?
Felipe Camargo: Se um dia ela me procurar e falar ‘Felipe, vamos conversar sobre isso?’, beleza. Na hora que ela quiser. Mas não serei eu que vou falar ‘vem cá, vamos falar sobre isso’. É a experiência e a transformação dela, coisas que ela está vivendo.

iG: Acredita em sua recuperação plena?
Felipe Camargo: Torço bastante pela sua recuperação. Vera é uma pessoa maravilhosa, mãe do meu filho, ótima atriz. O público sente saudade dela. Acho que, se ela levar a sério esta recuperação, como acho que está levando, se seguir adiante com o tratamento, vai voltar uma atriz mais incrível ainda.

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