O humorista, que teve alta após 110 dias internado, já está reaprendendo a andar e garante que está pronto para voltar ao trabalho

Não fosse pela presença de um aparelho de oxigênio portátil, nada destoaria na ampla sala do apartamento onde o humorista Chico Anysio , 80 anos, vive com a mulher, Malga Di Paula , na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Deitado no sofá, Chico, que já foi comentarista esportivo e é fã de esportes, assiste na TV a prova dos 50 metros livres do terceiro dia de competição de natação pelo Troféu Maria Lenk. Faz um gesto com a mão pedindo um segundo antes de começar a entrevista, apenas o tempo necessário para conferir a vitória de César Cielo .

Ao fim da disputa, senta no sofá com a ajuda de dois auxiliares de enfermagem que o acompanham na rotina diária desde a alta no Hospital Samaritano, no dia 21 de março, onde permaneceu 110 dias internado. O longo período no hospital começou logo após um exame para checar se havia alguma alteração cardíaca. Chico passou mal e, a partir daí, vivenciou o que define como “um pesadelo”. Ele esteve em coma três vezes após uma série de complicações em seu quadro de saúde - dentre elas uma pneumonia e a retirada de uma parte do intestino grosso em decorrência de uma hemorragia digestiva.

Durante sua luta pela vida, Chico teve em Malga sua principal aliada. Ela nunca deixou de acreditar em sua recuperação. “Sempre tive certeza que ia levá-lo para casa. Em nenhum momento desanimei. Claro, às vezes, passava a noite inteira chorando de pena do sofrimento dele, mas nunca desisti. Mesmo quando as pessoas diziam que talvez ele não fosse passar daquela noite”, afirma Malga.

Vestindo calça esportiva, camisa social e calçando pantufas, Chico coloca os óculos e retira a cânula nasal dispensando o auxílio do aparelho para falar. O humorista contou ao iG sobre os momentos mais difíceis desde a internação, disse que está pronto para trabalhar e falou sobre a alegria de estar de volta em casa. “Tinha certeza que ia sair e voltar para casa”. 

Chico Anysio ficou 110 dias internado
Isabela Kassow
Chico Anysio ficou 110 dias internado
iG: Nesses 110 dias em que esteve internado você recebeu muitas demonstrações de carinho de amigos e fãs. O que mais te emocionou?
Chico Anysio: Não existe uma emoção maior. Tudo me emocionou. Foi carinho demais. Muito lindo.

iG: Sendo uma pessoa tão ativa foi muito difícil de repente se ver com as capacidades mais limitadas?
Chico Anysio: Ah foi. Isso é ruim, é desagradável, é chato. Acordar e não ter o que fazer é horrível. Muito ruim. Mas nada pode ser feito. Isso faz parte da vida.

iG: O que já consegue fazer com mais tranquilidade?
Chico Anysio: Eu estou voltando a andar. Fiquei muito tempo na cama, né? É só o que me falta. Não ficou nada de sequela. Só, lógico, que quem fica 110 dias na cama desaprende a andar.

iG: Com 80 anos ter passado por tudo isso e saído do hospital demonstra que você tem uma saúde de ferro. A que atribui isso?
Chico Anysio: Não atribuo a nada em especial.Eu sou guerreiro. Deve ser isso.

iG: Teve algum momento que se revoltou ou teve raiva por estar passando por tudo aquilo?
Chico Anysio: Me revoltar, não. Em nenhum momento.

Chico Anysio:
Isabela Kassow
Chico Anysio: "Não penso no futuro"
iG: Em algum momento pensou em desistir?
Chico Anysio: Não, nunca. Tinha certeza que ia sair e voltar para casa.

iG: O que fazia para passar o tempo no hospital?
Chico Anysio: Nada. Não tinha nada para fazer.

iG: Mas não podia ver TV?
Chico Anysio: Podia, mas eu não queria. Por falta de vontade.

iG: Quando saiu, qual foi a sua maior alegria?
Chico Anysio: Chegar em casa.

iG: Qual a primeira coisa que fez?
Chico Anysio: Tomar um copo d´água.

iG: É verdade que o senhor não podia beber água no hospital?
Chico Anysio: Durante 55 dias. É uma coisa de louco. Quando sentia sede me davam gotas de água, me molhavam a boca. Foi difícil. Foi o mais difícil de tudo.

iG: Tem alguma fé?
Chico Anysio: Tenho alí (aponta para um quadro com a imagem de São Francisco de Assis pintado por Armando Romanelli). Pedi à ele (pela recuperação), sempre. Orar não digo porque não faz parte dos meus hábitos, mas pedir ajuda à ele de vez em quando eu peço.

iG: Como foi receber a notícia da morte de sua irmã, Lupe Gigliotti (a atriz faleceu em decorrência de um câncer no pulmão em 19 de dezembro de 2010)?
Chico Anysio: Foi difícil receber a notícia, mas já vinha esperando por isso. Estava com uma doença difícil de se livrar. Não foi uma surpresa, mas foi chato ter acontecido. É horrível. Por mais preparado que a gente esteja.

Detalhes do apartamento de Chico: uma foto do casamento com Malga e uma da mulher pequena
Isabela Kassow
Detalhes do apartamento de Chico: uma foto do casamento com Malga e uma da mulher pequena
iG: Por falar em família, já assistiu aos programas do seu filho, Bruno Mazzeo, alguma vez?
Chico Anysio:
Assisti o “Cilada” e o “Tudo Junto e Misturado”. Gostei. Me falam que ele é um dos grandes humoristas de hoje.

iG: É um orgulho?
Chico Anysio: Orgulho? Por quê? Teria orgulho se ele fosse o cara que descobriu onde estava o Osama Bin Laden. Orgulho é uma situação muito privilegiada para eu gastar com uma atuação do Bruno numa comédia na televisão. Eu tenho orgulho dele ser honesto, decente, direito, um rapaz esforçado. Disso eu tenho orgulho. No mais não.

iG: O humor do improviso está fazendo muito sucesso atualmente. Por que acha que isso está acontecendo?
Chico Anysio: Sou contra o improviso. Acho que é o caminho mais rápido para o erro. Nunca improvisei na minha vida. Faço tudo pensado, tudo ensaiado, tudo decorado, tudo preparado. Não gosto de improviso. Os de hoje não sei porque não tenho visto. Eu valorizo o autor. 

iG: Como foi voltar ao trabalho gravando como a personagem Salomé?
Chico Anysio: Foi o Maurício Sherman (diretor do “Zorra Total”) que escolheu. Foi ótimo gravar como sempre foi. Não foi igual aos velhos tempos porque eram vários personagens. Gravava às vezes até onze no mesmo dia.

Chico Anysio:
Isabela Kassow
Chico Anysio: "Quando sentia sede me davam gotas de água, me molhavam a boca. Foi difícil. Foi o mais difícil de tudo"
iG: Você gravou a primeira vez em casa e a segunda no Projac. Como foi voltar a gravar na Globo?
Chico Anysio: É bom voltar ao trabalho porque é o alimento da vida. Ficar sem trabalhar é horrível. 

iG: Você criou mais de 200 personagens. Acha que foi isso que te deu tanto fôlego?
Chico Anysio: Não. Aliás, não precisava ter feito tanto. Foi excessivo. Teve ano de eu estrear 14 personagens. Três bastavam. Divertiria as pessoas da mesma maneira. 

iG: Mas de todos você tem um carinho especial pelo professor Raimundo.
Chico Anysio: Sim. Não é que seja o favorito, mas talvez seja o que eu tenha mais a agradecer porque me abriu as portas mais importantes: o rádio e a televisão. Isso faz dele um personagem muito especial. 

iG: Sua relação com a Globo, ao longo desses anos, foi pontuada por altos e baixos . Hoje, como define este momento entre você e a emissora?
Chico Anysio: Eu sou global. A Globo é minha casa. Hoje, agradeço por não ter aceitado nenhum dos convites que me fizeram para sair de lá. A Globo é muito importante na minha vida. E como em toda relação há momentos de carinho e de desagrado. Isso faz parte. Parece até que ela é a minha primeira casa. 

Detalhe da mão do humorista Chico Anysio
Isabela Kassow
Detalhe da mão do humorista Chico Anysio
iG: Quais são seus próximos projetos profissionais?
Chico Anysio: Continuar com a Salomé e fazer o especial de fim de ano da Globo, em julho. Não sei ainda quais são os personagens que vou fazer, mas nenhum personagem será doente. Nenhum estará em hospital. Penso também em voltar aos palcos com o espetáculo “Eu conto e vocês cantam”. Quando for possível. Escrever eu não paro, então também tenho livros prontos para serem lançados. 

iG: O que tem feito em casa?
Chico Anysio : Não posso fazer tudo que quiser porque não posso andar. Isso já é um empecilho grande. Assisto esporte e jornal. 

iG: Assiste novela?
Chico Anysio: Não. Nem quando eu trabalhei. Não é que não goste. Não gosto da televisão em si. Gosto da coisa viva que está no esporte, no jornalismo, por exemplo. Não vejo nem o meu programa. Nunca vi. Não gosto. Vi algumas vezes e sempre achei que poderia ter feito melhor. Então, isso me desagradou sempre.

iG: Nesses 80 anos de vida do que tem mais orgulho?
Chico Anysio: De ter chegado a eles. Pior que ter 80 anos é não chegar a tê-los, né? 

iG: Tem algum arrependimento?
Chico Anysio: Tenho. De ter fumado. É a coisa pior que já fiz na vida. Não importa nem o tanto que fumei. Eu fumei. O resto tudo faria igualzinho, até os erros que cometi, cometeria novamente. 

iG: Tem acompanhado o Vasco? Continua vascaíno doente?
Chico Anysio: Acompanho sempre. Não, doente, não. Sou vascaíno saudável (risos). E, principalmente, palmeirense antes de ser Vasco. Aliás, antes de ser Vasco e Palmeiras sou Ferroviário Atlético Clube. Foi meu primeiro time de criança, desde os 2, 3 anos. Já meu pai era presidente do Ceará Sporting Club. Não dava briga em casa porque o time dele ganhava sempre. 

iG: Você e a Malga estão juntos há 13 anos. O que ela representa para você?
Chico Anysio: Ela é o baluarte da minha vida, a razão. Ela é tudo para mim. Acho que encontrei o grande amor da minha vida. 

Chico tem a ajuda de uma equipe de enfermeiros que o auxilia em casa
Isabela Kassow
Chico tem a ajuda de uma equipe de enfermeiros que o auxilia em casa

iG: Deve ter sido muito difícil para ela  enfrentar tudo isso.
Chico Anysio: Foi. E foi uma grande ajuda para mim nesse episódio. Não foi surpresa. Sempre soube que podia contar com ela. 

iG: Ela tem uma relação boa com seus filhos?
Chico Anysio: Não sei. Também não acho importante que ela tenha. Porque eles têm a vida deles. Não são todos que saíram a mim. 

iG: Qual a maior qualidade que vê na Malga?
Chico Anysio: O maior ponto a favor dela é o amor que tem por mim. O meu amor acho que é até menor do que o que ela sente por mim. É veneração. Ela me tem numa conta muito alta. 

iG: O que vem a sua cabeça quando pensa no futuro?
Chico Anysio: O futuro é hoje. Eu estou nele. Não penso nada a respeito do futuro. O que vier é o que tiver que vir. 

iG: Agora que está quase totalmente recuperado, qual a sua maior alegria?
Chico Anysio: É estar assim. Saber que falta pouco já é bom. Poder realizar o pouco que falta já é melhor.

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