Malga Di Paula conta sobre tudo que assistiu nos 110 dias de internação do humorista e fala sobre a alegria de vê-lo em casa

O carinho de Malga Di Paula com o marido, Chico Anysio, no apartamento dos dois, no Rio
Arquivo Pessoal
O carinho de Malga Di Paula com o marido, Chico Anysio, no apartamento dos dois, no Rio
Para enfrentar os quase quatro meses de altos e baixos da saúde do marido Chico Anysio , 80 anos, durante sua internação no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, Malga Di Paula precisou juntar forças. Casada há 13 anos com o humorista, a empresária se apegou a fé em São Jorge e criou, como válvula de escape e forma de comunicação com os muitos amigos que queriam notícias de Chico, uma conta no Twitter que hoje reúne 5 mil seguidores.

O microblog, aos poucos, se tornou uma das maiores fontes de conforto para Malga que, a cada boa notícia, compartilhava a novidade com as pessoas que não paravam de lhe enviar mensagens de apoio.

“Fui criticada por algumas pessoas próximas. Achavam que estava querendo me promover. Mas nunca recebi um post que fosse agressivo, ou contra. Realmente essas 5 mil pessoas que nos seguiram estavam do nosso lado”, diz ela.

Nesta entrevista, Malga relata ao iG todas as dificuldades que passou enquanto esteve ao lado de Chico no hospital, “Quando acordou mesmo, no CTI, ele não falava, não comia, não respirava sozinho”. Ela diz que nunca deixou de acreditar que o levaria para casa e explica a relação de amor incondicional dos dois. “É uma relação nevrálgica. Falo que hoje ele não é meu marido apenas, é um pedaço de mim. Um é órgão do outro. Ele é um órgão fundamental para me manter viva”.

Internação

“Foi horrível para mim. Sei que o Chico tem um enfisema, mas ele tinha ido só fazer um exame cardíaco. À princípio era uma coisa de coração. Não estava preparada para ele entrar numa sala para fazer um exame e, de repente, ficar quatro meses com ele internado. Isso me pegou. Foi um choque. Parei de trabalhar, larguei tudo e fiquei com ele sofrendo”.

Dor

“O pior de tudo é que eu achava que ele não merecia sofrer daquele jeito. Ele não lembra pois estava meio sedado, meio acordado, mas eu estava ali todo dia. Via o quanto estava sofrendo e não aceitava o sofrimento dele. Ele é incrível. Quando acordou mesmo, no CTI, ele não falava, não comia, não respirava sozinho. Estava conectado ao respirador, não podia comer nem falar porque estava com uma traqueostomia. Então era para ele estar muito mais triste com essa situação, mas não. Ele tocou a vida para a frente”.

Coma

“Foram três comas. Horrível. Muitas vezes me disseram que eu não tivesse muita esperança. É tanto sofrimento que você acha que nunca mais vai voltar a sorrir. E a responsabilidade das decisões era minha. Porque eu sou a representante legal do Chico. Quando o médico dizia que 'todo mundo' concordou em tomar tal decisão, na verdade quem tinha que assinar e decidir era eu. Confesso que passei maus bocados. Não podia ficar com ele no CTI. Ficava duas horas e, quando tinha que ir embora, ele sofria. Recebi apoio de alguns dos filhos dele. Mas é uma coisa que não quero falar. Tive apoio incondicional do Nizo Neto e da família dele, do Bruno Mazzeo, da Zélia Cardoso e dos filhos dela, Rodrigo e Vitória, então, acabou sendo a maioria”.

Twitter

“Fui criticada por algumas pessoas próximas. Achavam que estava querendo me promover. Mas nunca recebi um post que fosse agressivo, ou contra. Realmente essas 5 mil pessoas que nos seguiram estavam do nosso lado. Se eu quisesse me promover tinha dado todas as entrevistas para televisão quando todo mundo me procurou. Criei um Twitter e avisei aos amigos mais próximos que acompanhassem através do microblog porque eu não conseguia falar com todo mundo. Aos poucos a coisa foi crescendo e eu me sentia muito confortada. Para mim, 5 mil pessoas que ficaram do meu lado, me apoiaram e estiveram com a gente é um número muito expressivo. Agora vou desativar essa conta do Twitter aos poucos e fica sendo um só oficial dele”.

“Sou agnóstica, mas tenho São Jorge como meu grande amigo e companheiro. Só agora fui entender como é importante você ter fé em alguma coisa independente do que seja. A minha ligação com São Jorge é tão grande que o Chico voltou à televisão no dia de São Jorge. A primeira vez que foi ao ar quando fez a Salomé foi dia 23 de abril. Colocava de um lado do travesseiro dele um São Francisco de Assis e, do outro, um São Jorge. Ele adora São Francisco. Me apegava ao São Jorge e pedia também para o São Francisco cuidar dele”.

Superação

“Os fonoaudiólogos iam lá e explicavam que ele precisava fazer vários exercícios para poder voltar a falar e a comer. Ele fazia tudo com a maior boa vontade. Teve uma força de vontade enorme para voltar à vida. Me coloco no lugar dele, de um dia acordar e se encontrar numa situação onde você não respira, não fala, não come e não caminha. Aí chega um monte de gente te falando que você precisa fazer mil coisas”.

Casa

“Ele falava muito que queria vir para casa. Eu perguntava o que ele queria fazer em casa e ele dizia: 'Quero viver. Passar horas na nossa varanda´. Ele falava de coisas simples. Falava muito de comida porque, apesar de estar sendo alimentado com soro, tinha vontade de comer. Queria muito tomar sorvete, mas eu não podia dar. Quando teve o primeiro coma, da primeira vez que acordou, me disse: ´Avisa a Globo que não pude ir trabalhar porque estou doente´. Aquele sentimento de responsabilidade, sabe? Eu falava para ele se acalmar que todo mundo já sabia, mas ele tinha uma preocupação enorme que a Globo não soubesse que ele estava lá”.

Confiança

“Sempre tive certeza de que ia levar ele para casa. Em nenhum momento desanimei. Claro, às vezes passava a noite inteira chorando de pena do sofrimento dele. Mas nunca desisti mesmo que às vezes as pessoas dissessem que talvez ele não fosse passar daquela noite. Eu entrava em desespero, chorava, mas alguma coisa dentro de mim dizia 'não, ele vai voltar para casa, continua firme'. Então fiquei firme e forte durante todo o tempo”.

União

“A nossa relação é nevrálgica. Hoje eu sinto a dor que o Chico sente, ele sente a dor que eu sinto. Temos uma conexão muito grande em todos os sentidos. Hoje ele não é meu marido apenas, é um pedaço de mim. Um é órgão do outro. O que sinto dele é isso. Que ele é um órgão fundamental para me manter viva, feliz”.

Recuperação

“Para mim é uma vitória. Comparado a como ele estava há uns meses é um milagre. É bom poder compartilhar isso com as pessoas. Ele realmente está voltando a caminhar. Qualquer pessoa, até um atleta, se fica quatro meses sem caminhar, quando volta precisa reaprender. Isso é normal. A perna dele não tinha mais músculo por ele ter ficado muito tempo parado. Mas ele está ótimo. Enquanto não cria musculatura suficiente, ainda precisa do oxigênio. Porque quem dá suporte para a circulação sanguínea é a musculatura. Mas a cada dia precisa menos do oxigênio. Só que ele tem um enfisema sério. Todo mundo sabe que o problema dele é pulmonar e isso nunca foi escondido”.

Emoção

“A volta para casa foi o momento mais emocionante. Ele veio de ambulância. Vim junto, mas sentada na frente. Quando abriu a porta da ambulância eu estava alí, tinha as minhas amigas que tinham vindo nos receber, além de todos os nossos empregados, mais os funcionários do prédio. Então, quando abriu a porta, todo mundo gritou e aplaudiu, disse 'bem-vindo de volta para casa'. Ele não estava esperando. Aí me olhou e falou: 'Você cumpriu com a sua promessa'. Na hora não entendi direito e falei: 'O quê?'. Aí ele falou: 'Você me trouxe para casa'. Mesmo quando ele estava em coma, todos os dias eu dizia no ouvido dele que ia levá-lo para casa. Não sei por que ele lembrou disso. Deve ter sido o inconsciente”.

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