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O iG Gente atua no debate promovido pelo filme que está em circuito itinerante pelo Brasil e oferta duas críticas do documentário idealizado a partir do projeto do Think Olga. Uma com a perspectiva masculina, também publicada nesta quarta-feira (16), e essa com o olhar feminino

Em 2014, a cidade de São Paulo viu-se diante de um grave problema nos transportes públicos: os “encoxadores”. Diversos relatos sobre assédio sexual durante os horários de pico começaram a surgir nas redes sociais colocando em evidência, inclusive, um grupo no Facebook onde violadores compartilhavam suas experiências criminosas.

Cena do documentário sobre assédio sexual
Divulgação
Cena do documentário sobre assédio sexual "Chega de Fiu Fiu"

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No ano passado, outro caso veio à tona: o de um homem que havia ejaculado em uma mulher em um ônibus também na mesma cidade na região da Avenida Paulista. Apesar de estes casos de assédio sexual terem chamado atenção da mídia e causado bastante burburinho principalmente nas redes sociais, eles nunca foram e continuam não sendo isolados.

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O problema do direito à cidade  para as mulheres é uma questão que remonta séculos de história de opressão e que acaba se mostrando visível com o assédio nas ruas, tema muito bem trabalhado no documentário “ Chega de Fiu Fiu ”, de Amanda Kamanchek e Fernanda Frazão em parceria com a ONG Think Olga.

O assédio sexual nas telonas

As diretoras Amanda Kamanchek e Fernanda Frazão
Divulgação
As diretoras Amanda Kamanchek e Fernanda Frazão

O filme das duas cineastas foi baseado em dados bastante alarmantes realizado pela jornalista Karin Hueck em 2013 para a organização. 99,6% das mulheres entrevistadas afirmaram já terem sido assediadas no espaço público. Quatro anos passados a divulgação dos resultados, os números ganharam rostos e histórias.

O longa aborda não apenas as vivências de três mulheres de distintos locais do País – Cachoeira Bahia (BA), Gama (GO) e São Paulo (SP) – mas também as mudanças nas políticas públicas através dos tempos e o ponto de vista sociológico a respeito da visão dos corpos das mulheres, especialmente dos corpos negros que, como já diria Elza Soares, se mostram como “a carne mais barata do mercado”.

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As diferentes experimentações do que é ser mulher no espaço público contribuem para um debate sobre violência de maneira intersecional, abordando questões como desigualdade social, racismo e, sobretudo, opressão de gênero.

O problema se mostra universal na medida em que, tanto as narrativas trabalhadas no documentário quanto as imagens ali apresentadas, se mostram de fácil assimilação para uma espectadora.

As cenas do filme captam a falta de iluminação em centros urbanos, caminhos repletos de matagais, ruas majoritariamente compostas por homens e, consequentemente, as nocivas cantadas.

Estes cenários, como expressa a fala das personagens, faz parte de uma lógica arquitetônica de construção de cidades que não são planejadas para as mulheres, demonstrando que o pensamento do confinamento desses corpos ao campo doméstico ainda reverbera.

A obra de Frazão e Kamanchek explora as diferentes formas que o corpo de uma mulher pode estar vulnerável diante do espaço público, mostrando que o assédio sexual é apenas a ponta de um iceberg muito maior de violências.

Apesar de positivas mudanças nos últimos anos – que inclusive foram encabeçadas por mulheres que ocuparam o poder público – o Estado ainda parece não saber lidar com o problema e isto é observado não apenas nas histórias de luta das entrevistadas como também nas frequentes manchetes de jornais que a obra recupera.

“Chega de Fiu Fiu” é mais que um documentário sobre assédio sexual . É um convite para a sociedade repensar como acolher as mulheres nos espaços públicos além de desnaturalizar as chamadas “micro violências” – que nada tem de micro – de forma que as cidades se tornem verdadeiramente democráticas.