Nova temporada do hit indie da Netflix resgata personagens do 1º ano e apresenta novos e mantém o charme da antologia mais inteligente da TV

Uma das gratas surpresas de 2016, “Easy” voltou para sua segunda temporada na Netflix com a difícil missão de manter o alto grau de sofisticação narrativa verificado nos oito primeiros episódios dessa série de antologia que tem a cidade de Chicago como mote e os relacionamentos e as novas tecnologias como tempero.

Leia também: Com muito sexo e DRs, "Easy" faz retrato sutil das relações amorosas modernas

Cena de
Divulgação
Cena de "Open Marriage", melhor episódio do 2º ano de Easy

A criação de Joe Swanberg é uma das coisas mais inteligentes, articuladas e surpreendentemente sentimentais disponíveis na TV (ou na internet) atualmente. “Easy” encampa temas contemporâneos de maneira convidativa, aberta e essencialmente propositiva. Sexo, relações amorosas, solidão, feminismo, amadurecimento, hipocrisia e casamento são alguns dos temas espinhosos tratados com muita inflexão e ternura no segundo ano.

Leia também: Cinco razões que explicam porque “O Justiceiro” é a melhor série Marvel/Netflix

Assim como no primeiro ano, são oito episódios de meia hora cada. Assiste-se a série de maneira fluída e rápida em um estalo. Muitos dos personagens que conhecemos na temporada anterior voltam com conflitos novos ou com a extensão natural dos conflitos com os quais estavam às voltas quando os conhecemos.

Chase vive uma crise de relacionamento devido ao feminismo de ocasião de sua namorada
Divulgação
Chase vive uma crise de relacionamento devido ao feminismo de ocasião de sua namorada

No melhor episódio do 2º ano, “Open Marriage”, reencontramos o ator teatral Kyle (Michael Chernus) e sua esposa Andi (Elizabeth Reaser), que antes estavam tentando apimentar a tímida rotina sexual do casal. Agora eles estão se preparando para “abrir” a relação. A ideia é dela. Ele está um tanto resistente, mas topa. O episódio acompanha a primeira noite em que Andi sai à caça. Kyle sai para beber com amigos, mas os desígnios da noite podem ser surpreendentes.  O tom é de completa compreensão e carinho com os personagens, que estão em uma posição de total vulnerabilidade.

Esse mesmo cuidado pode ser verificado, por exemplo, em “Lady Cha Cha”, que recupera outro casal que marcou na primeira temporada. A feminista Jo (Jacqueline Toboni) se ressente de quando a namorada Chase (Kiersey Clemons) resolve participar de uma apresentação burlesca. Vale lembrar que no primeiro ano, Chase tentou virar vegetariana para agradar a namorada. Aqui a flagramos muito mais à vontade consigo mesmo. Com seu corpo, com sua sexualidade e com seu feminismo. Uma mulher empoderada. É justamente Jo, na postura possessiva que apresenta, quem identifica uma fissura em seu feminismo. Novamente, o episódio trata com muita verossimilhança e articulação emocional o conflito que lança uma pequena crise na relação do casal.

Abaixo o discurso pronto

O terceiro episódio do novo ano, denominado “Side Hustle” começa com uma conversa sobre uma possibilidade de colaboração e o que a viabiliza é quando a escritora que está sendo entrevistada fala sobre sua fantasia de ser estuprada. Ela, uma garota de programa que escreve textos na internet criticando o vitimismo de facções do feminismo, reclama a autoria de suas próprias fantasias e se queixa da patrulha feminista. O episódio mostra, ainda, um imigrante nigeriano que alterna sua rotina entre ser motorista do Über e shows de stand up. Já em “Prodigal Daughter”, uma menina é forçada pelos pais a ir à igreja todos os domingos depois de ser flagrada fazendo sexo. Ela resolve testar o discurso cristão dos pais doando toda a sua poupança para a faculdade à igreja.

Leia também: Produção da Netflix, "A Babá" diverte com paródia de filmes de terror gore

Marc Maron está de volta como o escritor cheio de inseguranças afetivas e muito vaidoso no episódio
Divulgação
Marc Maron está de volta como o escritor cheio de inseguranças afetivas e muito vaidoso no episódio "Conjugality"

O que mais fascina em “Easy”, que ainda tem episódios sobre a paranoia ensejada pelas facilidades tecnológicas e os impulsos maternais relacionados à carência afetiva, é a maneira engenhosa com que apresenta e desvela seus conflitos. A força criativa da série é seu melhor predicado, mas o comentário sobre o aspecto mais intestinal da humanidade – como em “Conjugality”, em que um bem-sucedido escritor é confrontado com o fracasso de suas relações amorosas, que viraram elogiada literatura – dá verniz a uma das produções mais sagazes e espirituosas da contemporaneidade.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.