Antigamente o cenário das drag queens estava em decadência, mas hoje ressurge com força total com personalidades prontas para conquistar seu espaço, lutando contra estereótipos de gênero e preconceitos sociais

O conceito do que é drag queen não é atual, na verdade, os primeiros usos do termo remontam ao início do século 20, mas nos últimos anos houve uma explosão dessa expressão artística que agora está conquistando seu espaço na mídia. Confrontando estereótipos de gênero com sua performance chocante e afrontosa, chegaram para ficar e estão invadindo espaços onde jamais estiveram no passado. Na música, internet e televisão as drags estão desbravando um novo território que até então lhes era negado e hoje lutam por mais respeito e visibilidade.

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Pabllo Vittar é exemplo na comunidade de drag queens e está redefinindo as fronteiras dessa expressão no Brasil
Reprodução/Youtube
Pabllo Vittar é exemplo na comunidade de drag queens e está redefinindo as fronteiras dessa expressão no Brasil


Ru Paul, a mãe de todas

O movimento drag ficou muitos anos nas sombras até que ganhou nova força com o reality show “RuPaul’s Drag Race”. Lançado em 2009 nos Estados Unidos, o programa logo foi exportado e tornou-se um sucesso mundial inigualável que revolucionou essa arte, cativando um novo público que passou a se inspirar diretamente nas drag queens . Danilo é mais conhecido pelo público pela sua personagem Lorelay Fox , que ficou famosa em seu canal no Youtube “Para Tudo”, já se monta há mais de uma década e afirma que na sua visão RuPaul foi um divisor de águas nesse universo.

RuPaul foi a divisor de águas na cultura das drag queens e revolucionou esse segmento com seu reality show
Divulgação
RuPaul foi a divisor de águas na cultura das drag queens e revolucionou esse segmento com seu reality show

“O fenômeno drag estava muito em decadência antes. Dentro do próprio meio [LGBT] as pessoas não aceitavam e tinham um preconceito muito maior [...] ninguém queria ser drag”, comenta. Uma das estrelas mais recente do mercado cultural brasileiro, inclusive, só começou a se montar depois de ver as drag queens do reality. Pabllo Vittar confirma que se não fosse por isso, talvez jamais fosse o que é hoje. “Via elas lindas e queria ser igual (sic)”, contou a cantora.

Paradigmas de gênero

Ao redor de todo o mundo a sociedade está revendo paradigmas, questionando estereótipos e, sobretudo, abrindo espaço para que as minorias ganhem voz e é nesse contexto de luta que surgem as drag queens. Principalmente no que diz respeito à identidade e papéis de gênero, as drags estão na vanguarda dessa discussão, escancarando conceitos antiquados que hoje estão sendo revistos e desmantelados aos poucos.

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Danilo explica que por ser tão fora dos padrões esperados pela sociedade, a drag automaticamente já abre pautas de discussão sobre machismo e diversos preconceitos, colocando-as em xeque a partir de sua performance. Por isso ele enxerga nas drag queens uma expressão de luta e resistência contra o arcaísmo da mentalidade das pessoas. “A arte em si tem esse poder de contestar as feridas da sociedade”, conclui.

Pluralidade

Com a personagem Lorelay Fox, Danilo se tornou uma referência quando o assunto são drag queens a internet
Reprodução/Instagram
Com a personagem Lorelay Fox, Danilo se tornou uma referência quando o assunto são drag queens a internet

Se hoje a presença das drag queens é notável, não foi sempre assim. Com baixa presença nos meios de comunicação, a maioria das personagens drag que se destacavam na mídia eram todas voltadas para a comédia e não representavam de fato o real cenário do movimento artístico, que trabalha com questões mais profundas do que serem meros estereótipos cômicos. “Não é exatamente arte drag aquilo que a gente vê na TV”, comenta o youtuber.

Essa carência na mídia mainstream preparou o terreno para que as drags despontassem em outros formatos. As plataformas digitais, que dialogam principalmente com as gerações mais novas, foi a saída que esses artistas viram para ecoar suas vozes. A personagem Lorelay Fox, por exemplo, virou uma verdadeira embaixadora do movimento das drag queens e das causas LGBT.

“Sinto muito medo de representar isso de uma maneira negativa, de dar um ‘close errado’”, diz Danilo, porém continua “mas eu me sinto muito feliz porque essas pessoas precisam ser representadas”. A visibilidade pública é um ciclo perpétuo: quanto mais se fala em diversidade, mais pessoas se sentirão confortáveis e acolhidas para compartilharem suas vivências, gerando assim um espaço cada vez mais inclusivo. Não é à toa que a medida que esses assuntos vem sendo tratados aos poucos com mais naturalidade nos debates públicos.

Com uma base imensa de fãs, Pabllo Vittar é promessa do pop  e inspira novas drag queens
Reprodução/Instagram
Com uma base imensa de fãs, Pabllo Vittar é promessa do pop e inspira novas drag queens

Pabllo Vittar é um modelo nesse aspecto. Seu sucesso começou despretensiosamente com covers no Youtube e agora depois de abalar o mercado de entretenimento com sua parceria com Anitta e Major Lazer, a cantora é a mais nova contratação da Sony Music e uma das grande promessas do pop nacional. Com mais seguidores que o próprio RuPaul, Pabllo abriu as portas de um universo no qual ser drag queen e homossexual era um tabu. “Quanto mais as pessoas conhecerem o mundo drag, mais aceitação terão e é isso que estou fazendo”, disse ela.

Territórios a serem conquistados

Apesar do recente fenômeno acerca desse “boom” das drag queens na cultura pop , a situação ainda não é a ideal. Mesmo que tenhamos personalidades de destaque, como a própria Pabllo, o número ainda é escasso: além dela, quantas drags estão sendo ouvidas e tendo suas visões respeitadas? Sendo um grupo historicamente marginalizado, não é do dia para a noite que a situação se tornará ótima – o processo de revisão e desconstrução de conceitos que negam essa forma de expressão é algo necessário.

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O objetivo de quem está engajado na causa é de que isso deixa de ser algo tão transgressivo e provocante, mas passe por uma transformação e alcance um status normalizado. Ou seja, as drag queens não deverão mais chocar por sua performance, mas serem respeitadas enquanto classe artística. Ampliar o espaço no qual têm visibilidade é um desafio a ser vencido, ultrapassando os limites que lhes foi imposto ao longo de anos esquecidas. Otimista, Danilo, ou Lorelay Fox, como preferirem, afirma em tom descontraído “Vai ser uma dominação, vocês vão ver. Espaço [para as drags] nunca falta. Isso vai crescer muito mais e ficar melhor para todo mundo”.   

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