Felipe Sholl estreia na direção com sutileza narrativa, evitando respostas fáceis, aos mesmo tempo que não foge de questões difíceis

Um rapaz ouve uma mulher aflita do outro lado da linha enquanto se masturba. É uma cena tão poderosa quanto inusitada e que dá a pista de que a estreia na direção de Felipe Sholl é consagradora. Como roteirista, Sholl já havia demonstrado talento nos textos dos filmes “Campo grande” (2015), “Hoje” (2013) e “Histórias que só Existem Quando Lembradas” (2011). “Fala Comigo” é um filme que resguarda a veia autoral desses filmes, mas vai além no diálogo que propõe com o público.

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Karine Telles e Tom Karabachian em cena de
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Karine Telles e Tom Karabachian em cena de "Fala Comigo". Filme estreia nessa quinta-feira (13)

Na trama, o adolescente Diogo (o sensacional Tom Karabachian) se aproxima de Ângela ( Karine Telles ), uma quarentona que foi abandonada pelo marido e vive um ciclo depressivo. Ela é paciente de sua mãe, a psicoterapeuta Clarice ( Denise Fraga ). Do voyeurismo à descoberta da sexualidade por Diogo, “ Fala Comigo ” é um filme diferente pelo prisma de cada personagem. Uma sutileza narrativa adensada pela direção minuciosa de Sholl que evita respostas fáceis, mas não se avexa em disparar perguntas difíceis.

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Poster de
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Poster de "Fala Comigo"

Temática delicada

Este é um filme delicado na proposta e imaginativo na construção dos conflitos. Atente, por exemplo, na relação de Diogo com seu amigo de escola e de como essa relação interfere na relação dele com Ângela. Esse pormenor passa longe de ser alvo primário de Sholl e do roteiro, mas é uma demonstração de um filme coeso e com arestas bem aparadas. As reminiscências estão todas lá para dizer algo e acrescer ao saldo final, cujo teor depende, ainda, da contribuição do espectador.

Não é um filme fechado, no sentido de início, meio e fim. Até porque o espectador leva um tempo para se inteirar de todos os conflitos em voga – e o desejo de pertencimento, a renúncia à solidão é um que irmana todos os personagens. Da mesma forma, o filme persiste após a subida dos créditos. Os conflitos ali ensejados permanecem com a audiência. Sob muitos aspectos, é um triunfo de realização e narrativa.

Existe o drama de Clarice, que vê seu filho se envolver com uma quarentona depressiva no mesmo compasso em que precisa admitir que falhou como terapeuta daquela mulher. Há Diogo, que descobre sua sexualidade de maneira intensa e irrefreável e descobre um poço de afeto onde buscava mera excitação e há Ângela, que flertava com o suicídio e redescobriu o carinho de maneira improvável e decidiu viver o imponderável de um amor socialmente questionável.

A maneira como “ Fala Comigo ” dá vazão a todos esses dramas, agregando e não confrontando pontos de vista, deixando essa tarefa para o público, é primorosa. Todos os personagens têm voz e a prevalência da humanidade, receios e desejos, dá o tom em um filme que se resolve como muitas coisas, mas fundamentalmente sobre a necessidade de conexão.

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