De um lado, o folk dos cenários gélidos e sinuosos do Alaska. Do outro, o tropicalismo com toda suas vívidas cores, cordas e tambores comuns da América Latina . Apesar de antagônicos, Kevin Johansen consegue unir o melhor dos dois mundos em seu trabalho com a banda The Nada trazendo ao palco uma experiência multicultural e poliglota. Filho de pai estadunidense e mãe argentina, o músico já tem mais de trinta anos na estrada com diversas passagens pelo Brasil, o que ele classifica como um “maravilhoso milagre”.

Kevin Johansen + The Nada é um dos artistas a se apresentar no Mucho Festival em São Paulo
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Kevin Johansen + The Nada é um dos artistas a se apresentar no Mucho Festival em São Paulo


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“Fui uma criança com uma mãe muito intelectual e latino-americana. Então nesse sentido, tive muita influência da música latina, em especial do sul da América”, revelou o cantor em entrevista concedida ao iG . Nascido em Fairbanks, Kevin Johansen dividiu a sua vida entre os dois países, tendo escolhido agora Buenos Aires como sua residência. Entretanto, sua relação com o continente não é delimitada pelas fronteiras de sua nacionalidade: Johansen também já estreitou os laços com o Uruguai e com o Brasil com o seu projeto “Mercosurf”.

Ao lado de Paulinho Moskas e do uruguaio Jorge Drexler, Johansen embarcou em uma experimentação do som sul americano. “Somos tropicalistas. Creio que foi uma necessidade de encontrar pontes, pontos em comum, entre os três países que estão mais unidos que pensamos, por música, por ressonâncias”, explica o cantor. “Há laços em comum muito fortes e o subtropicalismo é um projeto constante que temos que cultivar e estreitar as relações com os artistas dos países. O ultimo disco, por exemplo, busquei ter uma colaboração do Arnaldo Antunes”, completa o argentino em referência à canção Torcer a Favor , do álbum “Mis Americas”, lançado no ano passado. O cantor já expandiu os seus ritmos até para o axé, tendo nomes como Daniela Mercury fazendo parte do seu histórico.

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Transcendendo barreiras

Quando o assunto é a produção musical da América Latina no Brasil, Kevin Johansen desabafa: “Vamos sempre ao Brasil com muita alegria, porque é um grande imperialista musical então para outro músico latino americano entrar no país é um milagre, é um maravilhoso milagre”, brinca em inglês o cantor. Kevin reconhece que a produção cultural de países com os Estados Unidos tem uma facilidade maior de chegar ao país e que o mesmo acontece na Argentina, mas com um olhar voltado para Paris, ainda que o país seja mais aberto ao seu vizinho.

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“Eu tenho a teoria que a América Latina abraça o Brasil”, reflete.  “Às vezes encontro jornalistas que querem falar em inglês e eu não compreendo. Acredito que existe um imperialismo cultural que tem a ver com o poder econômico. O inglês é um idioma maravilhoso e culturalmente também tem coisas maravilhosas, não temos problemas com a cultura, mas sim com a falta de interconexão entre países da América Latina”, completa o cantor, que pediu para que a entrevista fosse realizada em “portunhol”, porque prefere se arriscar na brincadeira de falar e compreender ambos idiomas.

Músicas de poder

Entre uma canção e outra em que a miscelânea das Américas vão ganhando força, o humor também aparece como recurso estilístico do músico. “A música contém tudo. Assim como o teatro tem a máscara do riso e a do drama, a música também tem isso. O drama e a comédia estão dentro dela”, explica o cantor. “A ideia é sempre dizer a verdade”, completa.

Em um continente marcado por uma história de diversas ditaduras, a arte sempre se apresentou como uma alternativa para romper as barreiras e incitar mudanças em busca da liberdade. “Nós somos filhos de artistas que ao escrever uma canção poderiam ser assassinados, como é o caso de Victor Jara. Hoje nós temos uma situação diferente, mas também de muitas responsabilidades”, reflete.  

“Eu me dei conta que agora temos uma geração que canta por novas liberdades”, comentou o artista ao relembrar do momento em que foi convidado para cantar em frente ao Congresso Nacional da Argentina pelo matrimônio igualitário. “Nós não cantamos como cantávamos, como Caetano, porque se não seriamos demagogos. Eu tenho que cantar sobre novas liberdades e graças a essas gerações anteriores nós podemos. Ser livre criativamente é também fazer política”, completa.

Kevin Johansen + The Nada é um dos grupos latino americanos que participará do Mucho Festival no próximo domingo (07). O evento também contará com a banda uruguaia No Te Va A Gustar, a guatemalteca Gaby Moreno, os brasileiros do Francisco El Hombre e os colombianos do Romperayo na Audio Club a partir das 15h30.

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