Produção estreia nesta quinta (16) nos cinemas e mostra com assombro a gravidade da questão racial na América que agora está sob Donald Trump

“A história do negro nos Estados Unidos é a história dos Estados Unidos e não é uma história bonita”. A frase forte, taxativa e revestida de tristeza e inconformismo incontidos é enunciada pelo narrador de “Eu Não Sou Seu Negro”, documentário indicado ao Oscar 2017 e que estreia nesta quinta-feira (16) nos cinemas brasileiros, minutos antes do fim do longa.

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Cena do filme Eu Não Sou Seu Negro
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Cena do filme Eu Não Sou Seu Negro


Dirigido com eficácia narrativa, espantosa retidão histórica e certa dose de assombramento pelo teor apresentado por Raoul Peck, o documentário parte dos manuscritos inacabados do ensaísta, dramaturgo e crítico social afro-americano James Baldwin que em “Remember This House” se incumbiu de contar a história dos Estados Unidos pelo prisma da vida e dos assassinatos dos ativistas pelos direitos civis Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King.

Todos eles, de alguma maneira, se relacionaram socialmente com Baldwin, que viveu durante muito tempo em Paris sem “sentir falta de coisa alguma na América”.

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James Baldwin em cena do documentário
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James Baldwin em cena do documentário "Eu Não Sou Seu negro"

Samuel L. Jackson, com sua voz grave, solene e frequentemente repreensiva, dá voz às cerca de 30 páginas escritas e confiadas a Peck do livro inacabado de Baldwin. A narração cheia de tons, vírgulas e exclamações de Jackson irriga um robusto acervo de imagens da fervorosa e tumultuada década de 60 dos EUA. Baldwin, mentor intelectual do projeto que é “Eu Não Sou Seu negro” se mostra um personagem cada vez mais apaixonante, tanto do ponto de vista intelectual, como de uma perspectiva mais amarrada, como da jornada do herói, a cada momento que pousamos os olhos sobre ele.

A acuidade de seu raciocínio e o fluxo de suas ideias, que pareciam não encontrar eco em uma sociedade arredia e inflada, impressionam e mesmerizam por, ainda hoje, parecerem à frente de seu tempo. É como se a sociedade não tivesse amadurecido o suficiente para encampar seu raciocínio. “Se um homem branco mira-se em John Wayne, ele é um patriota excêntrico, mas se um homem negro segue o mesmo modelo, ele é um maníaco perigoso”, observa em uma entrevista.

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Malcolm X e Martin Luther King, pelo generoso espelho de filosofias de ativismo que ofertam, também se asseveram como personagens ricos e constantes no filme, mas é especialmente fascinante a maneira como Baldwin e Peck problematizam o famigerado soft Power americano e o cinema, nesse contexto, é uma válvula importante tanto para o entranhamento do preconceito racial, como para sua desconstrução. É esse poder de análise, que vai de John Wayne a Sidney Poitier, de Kennedy a Obama, que torna “Eu Não Sou Seu Negro” um filme tão superlativo.

Científico, na reconstrução dos fatos, propositivo, na reflexão que enseja, e humanista na capitalização dramática do passado com vistas à seguridade do futuro, o documentário é obrigatório não só para quem gosta de cinema, ou tem interesse nas produções que chegam ao Oscar, mas para todos que acham que ainda não chegamos, enquanto sociedade, aonde devemos chegar.

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