Novo filme de Ken Loach, em estreia no Brasil nesta quinta (5), é poderoso elogio do espírito humano na mesma medida em que ataca Estado parasita

Cena do poderoso Eu, Daniel Blake que estreia nesta quinta-feira (5) nos cinemas brasileiros
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Cena do poderoso Eu, Daniel Blake que estreia nesta quinta-feira (5) nos cinemas brasileiros

Habitualmente destacado como um cineasta de esquerda, o britânico Ken Loach especializou-se em um cinema essencialmente social, lapidado sobre a força do espírito humano em oposição aos desmandos do establishment. Esse vigor narrativo pode ser percebido na comédia “A Parte dos Anjos” (2012) ou no drama de guerra “Ventos da Liberdade” (2006), mas ganha contornos mais febris em “Eu, Daniel Blake” (Inglaterra 2016), vencedor da Palma de Ouro no último festival de Cannes e que estreia nesta quinta-feira (5) nos cinemas brasileiros.

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Dogmático, o filme reverbera de forma positiva a filmografia do cineasta e, ao mostrar a trajetória de um homem que tenta insistentemente conseguir o benefício social que tem direito após um ataque cardíaco, torna compreensível o triunfo em Cannes em meio ao avanço da direita na Europa e no mundo. O protagonista de “Eu, Daniel Blake” , defendido com generosidade e sutileza por Dave Johns , é do tipo afável que nos cativa de imediato.

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Cena de Eu, Daniel Blake: vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2016, filme estreia nesta quinta-feira (5)
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Cena de Eu, Daniel Blake: vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2016, filme estreia nesta quinta-feira (5)

Daniel é um serralheiro que teve que se afastar de seu emprego após um ataque cardíaco. Sua médica identifica a necessidade de prolongar o tratamento e o mantém afastado do trabalho. O problema é que na hora de renovar o auxílio social para licenciados por motivo de saúde, Daniel esbarra na força burocratizante do Estado. Loach, é verdade, pesa a mão aqui e ali, mas é impossível não comungar do descontentamento em livre fluxo de desespero de Daniel morando em um país como o Brasil.

A tragédia de Daniel é a tragédia de todos nós, pagadores de impostos e cidadãos de bem tratados com escárnio e desrespeito por um Estado viciado e despreocupado com o bem-estar social.

O antagonismo entre o calor do espírito humano e a frieza do Estado é elaborada de maneira bela e engenhosa por Loach na aproximação entre Daniel e uma mãe solteira e desempregada. O carinho algo paternal de Daniel por ela, mas também fruto de seu inconformismo, transformam “Eu, Daniel Blake” em um filme ainda mais impactante. Outro recorte possível nesse contexto é o da relação de Daniel com seu vizinho, um jovem que tenta explorar outras vias de ganhar dinheiro e deixar de ser refém das imposições de um mercado de trabalho opressor.

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Trágico de uma maneira estranhamente contemporânea, “Eu, Daniel Blake” não só reafirma o valor sócio-político do cinema de Blake, como o embrenha na vanguarda de uma nova onda de filmes que problematizarão a relação da Europa com os europeus.

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