Novo filme do cineasta de "Drive" é um delírio estético de imensa beleza e cenas pouco palatáveis, mas agrada espectador que exige cinema mais ativo

Você certamente já viu filmes sobre o universo da moda, como “O Diabo veste Prada”, “Coco Antes de Chanel” e “Zoolander”, mas nenhum deles é remotamente parecido com “Demônio de Neon”, novo filme do aclamado cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn , em estreia nesta quinta-feira (29) em São Paulo.

Elle Fanning brilha em
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Elle Fanning brilha em "Demônio de Neon", que chega nesta quinta-feira (29) aos cinemas

Exibido em Cannes e alvo de uma recepção polarizada por lá, “Demônio de Neon” é antes de qualquer coisa um delírio estético. Uma conjugação milimetricamente calculada de exuberância visual e arrojo sonoro de um diretor iconoclasta. Mas é, também, uma elaborada reflexão sobre esse mundo que funde egos inflados, beleza, pretensão e superficialidade. Reflexão esta nem sempre incipiente, o que pode afastar expectadores menos acostumados com divagações narrativas e existenciais regadas a muito virtuosismo técnico e estilístico.

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Elle Fanning , cada vez mais absoluta e hipnótica, é Jessa, menina de 16 anos que chega a Los Angeles decidida a acontecer como modelo. Ela diz que os pais morreram, mas muito do que Jessa diz é ambíguo. Assim como a própria postura da menina, que em um dado momento anuncia ser “menos indefesa do que parece”. Refn filma o ar angelical e blasé de Fanning com extrema sensualidade. A atriz é linda e imponente, mas a maneira como Refn a observa ajuda a criar essa atmosfera de que ela é o “sol em uma manhã de inverno”, como certa personagem define.  

O filme formula com muita inventividade um duro olhar sobre esse universo fashion de muita competição e frivolidade. Há o estilista obsessivo encantado pela beleza de Jessa e as modelos que se enciúmam da meteórica ascensão da menina. Interpretadas com a falta de vida oportuna por Bella Heathcote e Abbey Lee , elas são responsáveis pela elaboração decisiva de Refn, que assina, ainda, o argumento e o roteiro do filme, sobre a cruel e irrefreável selva fashion. Há, ainda, Jena Malone como uma maquiadora encantada pela autenticidade e expressividade de Jessa. Desumanizada, Malone brilha tanto em uma arrebatadora cena de necrofilia como quando surge inerte banhada em sangue em uma banheira. Ela é responsável pelos momentos mais surrealistas e pulsantes de “Demonio de Neon”.

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O diretor Nicolas Winding Refn e a atriz Elle Fanning brincam nos bastidores de
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O diretor Nicolas Winding Refn e a atriz Elle Fanning brincam nos bastidores de "Demônio de Neon"

Christina Hendricks, compreensivelmente musa do cinema de Refn, surge em uma pequena cena, mas a grande participação especial do filme compete a Keanu Reeves , como o suspeito e irritadiço dono do motel em que Jessa se hospeda. São poucas e curtas as cenas de Reeves, mas ele jamais esteve tão intenso e robusto em um filme.

“Demônio de Neon” é espetacular em suas sugestões, nem todas essencialmente palatáveis, e  sublime na arquitetura cinematográfica proposta. Da estranheza da mise-en-scène às atuações robóticas e desfibriladas, passando pelo som entre a esterilidade e a sensualidade, o mais novo petardo de Nicolas Winding Refn é o tipo de cinema que clama a alcunha de sétima arte.

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