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Festival começa nesta quinta-feira (1º) em Brasília com programação exclusiva voltada ao mercado musical; produtores discutem como a economia e a política influenciaram na cena nos últimos anos

O Móveis Coloniais de Acaju é uma das atrações principais do festival Móveis Convida 2016, que começa nesta quinta-feira (1º) em Brasília
Divulgação
O Móveis Coloniais de Acaju é uma das atrações principais do festival Móveis Convida 2016, que começa nesta quinta-feira (1º) em Brasília

A cidade de Brasília recebe a partir desta quinta-feira (1º) o festival Móveis Convida 2016 , que terá shows de Móveis Coloniais de Acaju, Marcelo Jeneci, francisco, el hombre  e do ex-guitarrista do Sonic Youth Lee Ranaldo.

Apesar da boa programação de shows, a parte mais interessante do Móveis Convida 2016 é o Convida PRO, uma programação paralela voltado ao mercado da música. Com convidados conhecidos no circuito brasileiro e internacional, como os produtores do espanhol Primavera Sound e da paulistana SIM São Paulo, o ciclo de painéis e mesas irá discutir o mercado brasileiro em meio a tudo que aconteceu no País nos últimos anos.

"O que mais nos afeta atualmente é a situação política da cultura no Brasil", resumiu a produtora Fabiana Batistela, diretora da SIM São Paulo, em entrevista ao iG. Um dos nomes do Convida PRO, ela acredita que o novo Ministério da Cultura está dificultando a vida de quem trabalha na área. "O ministério do Juca Ferreira era aberto ao diálogo, escutava de verdade o mercado e estava pronto para fazer mudanças profundas no plano de políticas públicas para a música. Tudo isso se perdeu. Anos de trabalho foram jogados fora", disse.

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A visão de Batistela é corroborada por Fabrício Ofuji, um dos produtores do Móveis Convida. Para ele, a política interfere tanto no mercado da música quanto a economia. "Isso é importante ser pontuado por conta do aumento da intolerância. Em Brasília, vários estabelecimentos adeptos à música ao vivo terem encerrado suas atividades - muitos em razão dessa soma da crise econômica às multas e notificações por causa de uma subjetiva e falha lei do silêncio", explicou.

A banda francisco, el hombre também se apresenta no festival brasiliense
Divulgação/Rodrigo Gianesi
A banda francisco, el hombre também se apresenta no festival brasiliense

O caminho não está nada fácil, mas tanto Batistela quanto Ofuji acreditam que o mercado brasileiro ainda tem muito para se desenvolver. "Acho que festivais de música de verdade estão se solidificando no Brasil, sejam eles gringos ou não. É um sinal de que o mercado da música por aqui ainda tem muito pra crescer, mas está bem", explicou a diretora da SIM São Paulo.

Na entrevista abaixo, Fabiana Batistela e Fabrício Ofuji discutem a situação do mercado musical no Brasil, o auxílio da internet na cena e a aproximação do público brasileiro às bandas locais:

iG: Como o mercado da música absorveu tudo que aconteceu na economia e na política do País nos últimos anos?
Fabiana Batistela:  O mercado da música mundial sofreu sua maior crise na década de 2000. Desde então, ele vem se reinventando, achando novas formas e formatos para sobreviver. Estamos saindo da crise agora. Muitas empresas e profissionais que começaram a trabalhar nesse mercado a partir dos anos 2000 chegam a 2016 treinados a lidar com problemas. O novo mercado da música é uma geração de artistas e empreendedores que sempre nadou contra a maré.  O que mais nos afeta atualmente é a situação política da cultura no Brasil. O ministério do Juca Ferreira era aberto ao diálogo, escutava de verdade o mercado e estava pronto para fazer mudanças profundas no plano de políticas públicas para a música. Tudo isso se perdeu. Anos de trabalho foram jogados fora. E não temos uma previsão de quando conseguiremos voltar a dialogar com um governo de verdade e começar tudo de novo.
Fabrício Ofuji:  Acredito que o impacto tenha ido além do econômico, sobretudo em relação à interferência política. Isso é importante ser pontuado por conta do aumento da intolerância, por exemplo. Ela pode ser ilustrada, no caso de Brasília, em que vários estabelecimentos adeptos à música ao vivo terem encerrado suas atividades - muitos em razão dessa soma da crise econômica às multas e notificações por causa de uma subjetiva e falha lei do silêncio. Como a crise e as limitações são combustíveis à criatividade, algumas manifestações surgem a fim de trazer soluções! E, inclusive, contamos com o apoio do #DulcinaVive a fim de resgatar um amplo espaço cultural no centro de Brasília! O complexo Dulcina, onde acontecem os principais shows do festival Móveis Convida, abrange teatros e galeria de arte, além de uma faculdade. É situado a poucos metros da Esplanada dos Ministérios e ao lado da rodoviária. Estava com atividades restritas e, desde o início do ano, tem recebido muitos eventos interessantes.

Lee Ranaldo, ex-guitarrista do Sonic Youth, é atração internacional do Móveis Convida 2016
Divulgação/Leah Singer
Lee Ranaldo, ex-guitarrista do Sonic Youth, é atração internacional do Móveis Convida 2016

iG: Quais são os desafios de produzir festivais de música voltados para o mercado, como o ConvidaPRO e a SIM São Paulo? Essas iniciativas são abraçadas pelo público?
Fabiana Batistela:  A SIM São Paulo é uma feira de música, ou uma conferência/convention, um evento de negócios para a música. É um espaço de relacionamento, informação, profissionalização, de networking e geração de novas parcerias. São iniciativas mais do que necessárias e o público já entendeu isso. Eventos nesse formato acontecem no exterior há mais de 30 anos, mas são novos no Brasil. A SIM São Paulo dobrou de tamanho entre 2014 e 2015. E deve dobrar de tamanho também entre 2015 e 2016. Muitas iniciativas semelhantes surgiram no Brasil em várias cidades nos últimos 2 anos. É um sinal que funciona e que precisamos de plataformas assim. Esta ano iremos medir, pela primeira vez, o impacto que a SIM São Paulo já gera no mercado nacional e na cidade.
Fabrício Ofuji:  Ainda temos muito a melhorar no que diz respeito a esse tipo de evento. Todos precisamos alinhar melhor as expectativas: produtores, empresários, artistas e o público em geral. Nesses anos de ConvidaPRO (antigamente era chamado de Convida Mercado Musical) tivemos experiências frustrantes e também algumas muito positivas! De trazermos nomes e empresas fundamentais para o contato com artistas e ter uma baixa adesão à negócios realizados (como gravação de videoclipe, campanha de crowdfunding…). O público em geral abraça o evento. Mas isso acontece quando conseguimos estabelecer um bom diálogo prévio! A expectativa é grande para a edição deste ano.

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iG: Há alguns anos o Brasil era um mercado promissor para grandes shows e festivais internacionais. O cenário continua o mesmo?
Fabiana Batistela:  Sim. Tivemos um boom de eventos e festivais. Era um mercado em desenvolvimento, é normal que alguns eventos cresçam, outros desapareçam. Os grandes festivais brasileiros sempre foram eventos de marcas, criados pelo departamento de marketing de uma empresa (FreeJazz/TIM Festival, Planeta Terra, etc...). Quando a empresa vai mal ou muda seu posicionamento de marketing, o festival acaba. Isso não é crise no mercado da música. Acho que festivais de música de verdade estão se solidificando no Brasil, sejam eles gringos ou não (Lolla, Rock in Rio, e todos as grandes iniciativas independentes como Bananada, DoSol, SeRasgum, Contato, Popload, etc). É um sinal de que o mercado da música por aqui ainda tem muito pra crescer, mas está bem.
Fabrício Ofuji:  Ainda acredito que seja um bom mercado porque temos uma boa base de fãs de grandes artistas internacionais… o desafio, na verdade, é viabilizar artistas menores por aqui.

iG: Como a internet tem auxiliado o mercado musical no Brasil?
Fabiana Batistela:  Quebrando barreiras físicas. Unindo pessoas, agilizando processos, trazendo uma nova forma rentável para se distribuir música. Mas a internet não consegue substituir a importância do contato físico - por isso a SIM São Paulo, o Móveis Convida e outras iniciativas de conexão de profissionais dão tanto resultado para quem participa delas.
Fabrício Ofuji:  Embora haja muita dispersão, creio que o grande papel seja, de fato, ser o espaço para a divulgação de novos artistas! Além, claro, de viabilizar projetos interessantes como fizemos com os clipes interativos do Móveis Coloniais de Acaju - das músicas Dois Sorrisos, o tempo e Vejo em teu olhar, por exemplo.

Marcelo Jeneci é atração do Móveis Convida 2016
Divulgação
Marcelo Jeneci é atração do Móveis Convida 2016

iG: O público está mais próximo das cenas musicais locais no Brasil? Como isso pode ser aproveitado pelo mercado?
Fabiana Batistela:  Existem cenas locais incríveis por todo o Brasil. Acho que o público vem descobrindo e valorizando isso cada vez mais. É música inovadora, de qualidade e universal sendo criada em vários cantos, sem perder a personalidade regional. Viajo muito o Brasil todo e venho acompanhando. Vamos tentar trazer algumas amostras disso para a SIM. E os vários festivais e eventos profissionalizantes descentralizados ajudam muito a chamar a atenção do público nacional para outras cidades.
Fabrício Ofuji: Quando há essa proximidade percebo o quão positivo foi (e continua sendo) o trabalho de grandes desbravadores do rock independente brasileiro como o Rodrigo Lariú, Gabriel Thomaz, Paulo André, de pessoas ainda mais próximas do Móveis Convida como o meu xará, Fabrício Nobre, a Fabiana Batistela… os grandes nomes como o Pena Schmidt, Miranda e Dudu Marote. Fora do rock acho sensacional como alguns segmentos do instrumental se organizam (é fundamental o trabalho do Clube do Choro em Brasília, por exemplo)! A saga do Bruno Lancellotti com a música de base jamaicana (recentemente ele levantou as bandas brasileiras de ska em atividade). acho que, se há reconhecimento de cenas, existe um longo trabalho sendo feito! E assim espero que continue em Brasília! Como, dos anos 1990 pra cá, tivemos movimentações que nos trouxeram Raimundos, Little Quail, Os Cabelo Duro, DFC, Câmbio Negro, GOG, shows promovidos pelo selo Protons, o site Alucináticos, as Noites Senhor F. É preciso retomar toda essa produtividade, indo além dos festivais.

Móveis Convida 2016
Quando: de 1º a 10 de setembro
Onde: Arena Convida (Complexo Dulcina: SDS Bloco C Lotes 30/64, Asa Sul – Brasília, DF) e Convida PRO (Espaço Co-Piloto:  SCLS 306 Bloco A loja 33 Sobreloja – Brasília, DF)
Quanto: de R$ 15 a R$ 105
Mais informações no  site oficial do evento

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