Depois de causar sensação no festival de Cannes, “Aquarius” chega ao Brasil envolvido em polêmicas e devolve grandeza de Sonia Braga como intérprete

Imerso em polêmicas que surpreendentemente aumentam seu impacto, “Aquarius” estreia sob o signo do partidarismo e envolvido por um debate político  que não exatamente empobrece o filme, mas se encampado por incautos, tergiversa potencialmente sentido e significado da obra.

Sonia Braga em Aquarius
Victor Juca / Divulgação
Sonia Braga em Aquarius


Centrado em uma das protagonistas mais fortes que o cinema brasileiro recente ofertou, “ Aquarius ” é um filme que se enamora de sua atriz com uma proeminência que não se verifica no cinema atual. Sonia Braga , que não protagonizava um filme desde “Tieta do Agreste” (1996), é filmada com desejo, compaixão e carinho. Sua personagem, Clara, é uma jornalista aposentada que se recusa a vender seu apartamento no edifício Aquarius para uma construtora que objetiva derrubar o prédio para construir um mais moderno.

+ “Star Trek: Sem Fronteiras” aposta no humor e em grandes cenas de ação

Dividido em três tomos (“O Cabelo de Clara”, “O Amor de Clara” e “O Câncer de Clara”), o filme desconstrói sua protagonista para recompô­la logo adiante como a força da natureza que intuímos que ela seja. Clara é inteligente, bem resolvida e afetuosa. Características que destila no seu dia a dia como um ritual de afirmação. É uma afirmação, também, sua vontade de permanecer no apartamento que dividiu com o marido, que foi seu escudeiro durante a batalha contra um câncer – que nunca presenciamos, mas testemunhamos a força de sua memória ­, e onde criou seus filhos.

Sonia Braga brilha no filme
Victor Juca / Divulgação
Sonia Braga brilha no filme

A relação de Clara com os emissários da construtora se torna cada vez mais grave, atribulada e tumultuada à medida que o tempo passa e ela se mostra inflexível em sua convicção de permanecer naquele “prédio fantasma”, como lhe atenta a filha ( Maeve Jinkings , excelente), em um dado momento. É neste momento que o filme de Kleber Mendonça Filho cresce de tamanho como monumento à resistência e ganha estofo para a metaforização que grupos políticos diversos emprestam da trama.

Antes disso, porém, “Aquarius” é um elogio da memória. Da necessidade de preservamos aquilo que nos define e nos identifica. Do apreço de Clara pelo vinil a sua insistência em morar no Aquarius, mas passando por cenas muito sutis como a memória provocada por uma cômoda que vemos de lampejo entre uma cena e outra, “Aquarius” se articula como um defensor da memória como janela da alma.

Desnecessário dizer que a gramática cinematográfica de Kleber Mendonça Filho se faz notar. Dos enquadramentos criativos ao arranjo das cenas, passando pela intensidade dos diálogos, “Aquarius” é um filme de um cineasta seguro de si e de sua obra e com algo a dizer. Se havia uma crítica a ser feita sobre “O Som ao Redor” era que naquele filme a preocupação premente do cineasta, que já fora crítico de cinema, era apresentar um filme à prova de críticos. Esse rigor acadêmico não prevalece aqui; ainda que haja academicismo, ele jamais incomoda. “Aquarius” é um filme absoluto e que recebe seus simbolismos com a honestidade que eventualmente faltava ao primeiro longa de ficção do diretor.

O elenco de Aquarius
Victor Juca / Divulgação
O elenco de Aquarius


Sonia Braga certamente merece um parágrafo só para ela. Desprovida de qualquer vaidade e comprometida com uma personagem predominantemente solar, mas ocasionalmente obscura, a atriz recebe o olhar da câmera – totalmente enamorada por ela – com generosidade. Sonia levita nas cenas de sexo, se entrega às cenas dramáticas, se avalenta nas cenas mais tensas e afere leveza sempre que o meio termo se faz necessário. É uma atriz em comunhão com seu diretor e é justamente essa simbiose que faz de “Aquarius” algo tão sensorial, intenso e plenamente recomendável.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.