Diretor Kleber Mendonça Filho se posicionou contra impedimento de Dilma Rousseff e filme estreia envolvido em nova porção de polêmicas

Estamos em 2013. O diretor Kleber Mendonça Filho lança “O Som ao Redor” nos cinemas e, em entrevista ao jornal “Folha de São Paulo, critica severamente o sistema de distribuição de filmes brasileiros no País. "São filmes feitos com muita grana e lançados com muita grana. Minha tese é a seguinte: se meu vizinho lançar o vídeo do churrasco dele no esquema da Globo Filmes, ele fará 200 mil espectadores no primeiro final de semana", ironizou. O diretor de distribuição da Globo Filmes à época, Cadu Rodrigues, partiu para o embate: "Desafio o cineasta Kleber Mendonça Filho a produzir e dirigir um filme e fazer 200 mil espectadores com todo o apoio da Globo Filmes! Se fizer, nada do nosso trabalho será cobrado do filme dele. Se não fizer os 200 mil, assume publicamente, que, como diretor, ele talvez seja um bom crítico".

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Corta para 2016. “Aquarius”, que debutou no festival de Cinema de Cannes e chamou atenção no Brasil e no mundo pelo protesto contra o governo interino e à deposição, então temporária, de Dilma Rousseff, chega aos cinemas com o apoio logístico e financeiro da Globo Filmes. Muitas farpas foram trocadas e destrocadas durante a carreira de “O Som ao Redor” nos cinemas e Kleber Mendonça Filho se flagrou em uma nova polêmica às vésperas do lançamento de seu novo filme.

O cineasta Kleber Mendonça Filho, à esquerda, no set de
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O cineasta Kleber Mendonça Filho, à esquerda, no set de "Aquarius"

 Se aquela produção não beijou os 100 mil espectadores no cinema, ainda que tenha sido o escolhido brasileiro para tentar uma vaga no Oscar e recebido prêmios e elogios mundo afora, “Aquarius” tem grandes chances de fazer um público superior a 200 mil espectadores. Mesmo com a classificação indicativa para maiores de 18 anos. “Esperar fazer 18 anos pra ver Aquarius é muito fácil. Difícil é ter que esperar 16 anos para tentar vencer uma eleição nas urnas”, reagiu o cineasta em seu Twitter tão logo a classificação do filme foi confirmada pelo Ministério da Justiça – órgão responsável pela classificação de filmes no Brasil.


A Vitrine Filmes, que distribui o filme no Brasil, recebeu com surpresa a decisão da censura 18 anos. “Estamos surpresos com a censura "18 anos" dada a 'Aquarius' pelo Ministério da Justiça. Entramos com um recurso para que isso fosse revisto, levando em conta que outros filmes com conteúdos semelhantes receberam uma classificação indicativa mais branda. O recurso foi negado. Respeitamos a decisão do Ministério, mas discordamos dela. De qualquer forma, temos imenso orgulho em distribuir um filme da importância e qualidade de 'Aquarius' e estamos ansiosos pelo seu lançamento no dia 1 de setembro”.


Retaliação Política

O crítico de cinema que virou cineasta e toda a equipe de “Aquarius” veem na classificação uma represália ao posicionamento político da equipe em Cannes. Paralelo a isso, o cineasta vê cerceamento também na comissão que define o filme escolhido para representar o Brasil no Oscar. A nomeação do crítico Marcos Petruccelli , notório opositor a Kleber, foi percebida pelo cineasta como uma forma de minar as chances do filme ser escolhido pela comissão. Ele chegou a publicar uma carta aberta condenando a escolha de Petruccelli para integrar a comissão. O juízo feito pelo pernambucano encontrou respaldo em outros expoentes do meio cinematográfico, inclusive os diretores Gabriel Mascaro e Anna Muylaert que resolveram retirar a candidatura de seus filmes, “Boi neon” e “Mãe Só Há Uma” respectivamente, da disputa pela vaga brasileira na corrida pelo Oscar.

Cineclube: Confira making of de "Aquarius"

Sonia Braga em cena de
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Sonia Braga em cena de "Aquarius"

Tanto o Ministério da Cultura como Petrucelli trataram de minimizar a questão. Em nota, o Ministério da Cultura reiterou a “confiança na comissão de seleção e na isenção do processo de escolha”. Já Petrucelli disse “não ter nada contra o filme”, mas contra as posições políticas do diretor.

A imprensa paulistana assistiu “Aquarius” na segunda-feira 29 de agosto de 2016. Uma data simbólica em face de toda a narrativa que se constrói em relação ao filme, já que foi a data em que a presidente afastada foi ouvida no Senado. O filme, uma voraz defesa do valor da memória, é, também, um monumento à resistência - o que o liga tão poeticamente ao discurso proferido por Dilma, sua base e seus militantes. Essa ligação acidentalmente umbilical reforça a beleza do cinema e da arte como instrumento de inquietação intelectual. Independentemente da postura que se possa ter diante de “Aquarius” e da posição que se tem em relação à Dilma e ao impeachment é algo muito positivo para se ostentar no momento cultural que o Brasil atravessa.

Metáfora política

Em “Aquarius”, Sônia Braga  vive Clara, jornalista e crítica musical aposentada. Ela resiste às investidas cada vez mais agressivas de uma construtora que deseja comprar seu apartamento, o último ainda não adquirido, para derrubar o prédio – o Aquarius do título - e construir um novo empreendimento. Ela não está pronta para se desligar do edifício, uma memória afetiva de concreto, e surge como uma figura incompreendida em frentes diversas. Mas a personagem é corajosa e não recua em suas convicções.

Quando o educado e ambicioso arquiteto responsável pelo projeto lhe surpreende com uma suruba no apartamento em cima do seu, ela reage chamando um garoto de programa para “comê-la” à noite. É um manifesto político e social. Clara se nega a demonstrar escândalo e se nega, também, a sentir-se vulnerável naquele momento. A cena é de uma intensidade raríssima no cinema brasileiro contemporâneo e dá a exata dimensão dessa resistência condoída perpetrada pela personagem.

Irandhir Santos e Sonia Braga em
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Irandhir Santos e Sonia Braga em "Aquarius": a beleza da resistência

Esse espírito aguerrido, de uma mulher contra um Golias, é algo que une o filme ao discurso propagado pela defesa de Dilma Rousseff durante todo o processo de impedimento e que ganha nova luz em face de todo o imbróglio em que “Aquarius” se vê inserido. Como se o filme não bastasse por si – e a crítica do filme de Kleber Mendonça Filho será publicada pelo iG na próxima quinta-feira (1) – essa é uma discussão que todo brasileiro merece, e talvez precise, participar.

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