Personagens carismáticos não garantem coesão de filme que não se decide entre o tom mais sombrio e o cômico. Boas ideias são desperdiçadas

Sob muitos aspectos, “Esquadrão Suicida” é decepcionante. O que se vê na tela é um filme remendado pelo estúdio para se ajustar a uma ideia de como um filme baseado em HQ deve ser. Em outra extremidade, “Esquadrão Suicida” é o melhor filme com personagens da DC Comics fora do contexto da trilogia do homem-morcego assinada por Christopher Nolan .

O grupo de vilões que forma o Esquadrão Suicida que chega aos cinemas nesta quinta-feira (4)
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O grupo de vilões que forma o Esquadrão Suicida que chega aos cinemas nesta quinta-feira (4)

Essa dicotomia existe porque nenhum outro filme em 2016 chegou tão pressionado  quanto “Esquadrão Suicida” aporta nos cinemas neste fim de semana. O humor muitas vezes destoa do restante do tom do filme e isso é um reflexo direto desse filho de dois pais. De dois filmes – um do estúdio e um do diretor – brigando para existir.

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Jared Leto disse que muito de sua participação como o Coringa no filme foi cortada e é justamente essa a percepção que se tem ao assistir “Esquadrão Suicida”. O personagem parece um apêndice cujo único objetivo é agradar aos fãs. Desnecessário dizer que qualquer comparação com a composição de Heath Ledger em “O Cavaleiro das Trevas” é desfavorável a Leto. O ator, porém, ainda que com pouco tempo em cena, apresenta uma versão oxigenada do palhaço do crime. Seu Coringa gangster é uma força da natureza e ganha um relevo interessante justamente por causa da relação com a Arlequina ( Margot Robbie ), o que nos leva ao grande trunfo da fita.

O grande trunfo do filme é a relação disfuncional entre o Coringa e Arlequina
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O grande trunfo do filme é a relação disfuncional entre o Coringa e Arlequina

Arlequina, principal alívio cômico de um filme que perdeu muitas de suas camadas sombrias nas refilmagens, é a grande atração de “Esquadrão Suicida”. As cenas de seu amor louco pelo Coringa, ilustração de uma relação abusiva que merecia mais atenção da realização, respondem pelos momentos mais inspirados do filme. Robbie domina sua personagem com tanto esmero que nos faz crer que nasceu para ser Arlequina. Da sexualidade expansiva à loucura incontida da personagem, a australiana abraça todas essas imperfeições e faz Arlequina vibrar em carisma e sedução.

A grande personagem feminina do filme, no entanto, é Amanda Waller, defendida com fúria sutil por Viola Davis . Em meio a tantos vilões, uns bem resolvidos com suas circunstâncias, outros nem tanto, ela é o mal institucionalizado. Sob a guarita da segurança nacional, defende o indefensável e age conforme. Davis apresenta uma personagem tão hostil e tão vigorosa que convence o público que somente aquela mulher poderia ter a ideia de fazer uma equipe de elite paramilitar só com vilões.

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Como pode se observar, “Esquadrão Suicida” é um filme de grandes personagens. Mas não é um grande filme. Disforme, a produção sofre justamente do excesso de expectativas. Do estúdio ao público, todos queriam que “Esquadrão Suicida” fosse o filme certo, na hora certa.

Arlequina é a grande atração de
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Arlequina é a grande atração de "Esquadrão Suicida"

Talvez ainda vejamos a versão original de David Ayer para “Esquadrão Suicida”. Talvez esta versão não seja necessariamente melhor do que a que ganha os cinemas nesta quinta-feira (4). Mas certamente seria uma versão mais honesta. Porque apesar de divertido e com algumas boas ideias, ainda que mais soltas do que o desejável, o grande problema de “Esquadrão Suicida” é sua falta de honestidade. A vilã que o esquadrão enfrenta é areia demais para o caminhão da equipe. Esse tipo de poder não parece do tipo que um grupo indisciplinado e com mais humanos do que meta-humanos seja capaz de suprimir. Vilões com pecha de heróis – sim, estamos falando do Pistoleiro de Will Smith – e  a hesitação entre o tom sombrio e o tom cômico diluem o pouco de honestidade que o filme tem a oferecer. Em meio a tanta fumaça, o amor doentio de Arlequina e Coringa é a faísca do que “Esquadrão Suicida” poderia ter sido.

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