A geração lacre da música contemporânea brasileira se reuniu no Vento Festival, em Ilhabela, e eu fui lá conferir

O Vento bateu e foi forte, mas nem a baixa temperatura esfriou o coração de quem esteve em Ilhabela, entre os dias 9 e 12 de junho, para abençoar o Vento Festival . Com um line-up talentoso e dominantemente engajado, o Vento foi marcado por gritos de "Fora Temer" e representatividade social. Entre um show e outro, a gente foi abrindo o peito, a cabeça, os ouvidos e tirando as camadas de blusa que protegiam dos poucos mais de 8º graus. 

Bike das empadinhas compondo a vibe Vento Festival
Divulgação - Vento Festival
Bike das empadinhas compondo a vibe Vento Festival


Vento Festival - Dia 1

Longe da correria de São Paulo - e entre ficar mordida com Liniker e riquissíma com Rico Dalassam - , o Vento começou com Samuca e a Selva, baita revelação do festival, que colocou para dançar quem ainda estava com frio nas canelas. Toques de afrobeat, música latina e uma pegada performática estilo Sidney Magal do vocalista Samuel Samuca iluminaram o começo da noite. Fiquei sabendo que vem disco de estréia por aí, aguardemos.

Samuca (dançante) e a Selva
Divulgação - Vento Festival
Samuca (dançante) e a Selva


Seguimos com Mahmundi e sua blusa estampada de Mickey, que lacrou o bonde mais oitentista de 2016. Encantadora com deve ser. Russo Passapusso não foi nada menos do que eu esperava, abraçando com propriedade os "rumores" de ser um dos expoentes da nova geração da MPB.

Mahmundi
Divulgação - Vento Festival
Mahmundi













Dia 2

Aldo, The Band, abriu o segundo dia. Que homens, que som, que energia! Nem o frio pôde detê-los. Eu ainda não tinha curtido o som dos caras, mas, depois dessa, já fazem parte das minhas playlists. Eles "botaram pra fudê". 

Aldo, The Band
Divulgação - Vento Festival
Aldo, The Band


Já o Bonde do Rolê soltou o frango, caiu no meio da galera e confirmou aquele estilo meio ambíguo que a gente não sabe se ama ou odeia. Em entrevista à "Rolling Stone Brasil", o trio falou sobre "uma falta de qualidade no funk" e motivou discussões em torno da apropriação cultural do funk da favela, depois de tocar Mc Carol e MC Rodolfinho. E talvez não dê para discordar, mesmo.

Longe do politicamente incorreto, o segundo dia também plantou amor no coração com o projeto Salada de Frutas (Liniker, As Bahias e a Cozinha Mineira e o convidado Rico Dalasam), causando estouros no meu coração. Além da representatividade "bicha e preta", a Salada de Frutas é a cereja do bolo da lacração nacional. Se você ainda não curtiu, por favor, receba essa benção do lacre. Eles estão saindo em turnê, aproveite! 

Assucena Assucena, As Bahias e a Cozinha Mineira
Divulgação - Vento Festival
Assucena Assucena, As Bahias e a Cozinha Mineira



Jaloo, que se aprensentou para uma platéia enlouquecida e  já é figurinha carimbada no meu coração, me deixou feliz por curtir, no meio da galera, os demais músicos do festival. Fiquei cheia de alegria. E reafirmo: é dele, sim, o melhor álbum de 2015. 

Jaloo e a galera
Divulgação - Vento Festival
Jaloo e a galera


O dia fechou com o Free Beats e show "surpresa" da Mc Linn da Quebrada na Oca, palco alternativo do rolê. Sem palavras, porque eu tava quebrando até o chão. 

Mc Linn da Quebrada
Divulgação - Vento Festival
Mc Linn da Quebrada


Dia 3

Filipe Catto entrou no palco mandando uma reinterpretação de "Bom Conselho", de Chico Buarque, o que só nos fez acreditar que cada dia mais amamos o Filipe, rigorosamente. Sereno, certo e versátil. Até encontrei uma fã enlouquecida para beijá-lo na boca na porta do backstage, após o show. Merecido! 

Depois de Filipe passou um furação pelo palco do Vento. O calor de um show que anestesia a alma, mostrou os seios de Karina Buhr em uma belíssima transparência, autenticando toda a liberdade da sua presença e do seu discurso de rebaixamento e servidão feminina. Um dos melhores show da noite? Tenho quase certeza que sim, mas essa é uma decisão difícil. Foi visceral. 

Karina Buhr
Divulgação - Vento Festival
Karina Buhr




Depois de Aláfia e Johnny Hooker, quem fechou o rolê do dia foi a rapper LAY, estreiante em festivais de música, mas não nas minhas playlists. Que mulher! Girl Power, feminismo, auto confiança e um novo álbum que começa com a frase "Saudações a todas as bucetas". Não tem como ser melhor. LAY é ghetto woman. Baita apresentação. 

Rapper LAY
Divulgação - Vento Festival
Rapper LAY


Dia 4

Depois de tanta energia, amor, disposição, conversas e inspiração, meu eu reclamou e tive que dar um tempinho na bagunça e recuperar o equilíbrio do corpo. Mas não me faltou o desejo de acompanhar as piscodelias do Dom Pescoço, nem a militância resistente do Grande Grupo Viajante. Sem falar, é claro, do beijaço sugerido pelo maravilhoso, Bruno Morais. E se eu posso lhe dar uma dica é: pare tudo e vá lá ouvir o single "Há De Ventar", do Bruno. É de aquecer a alma! ❤  

Bruno Morais no encerramento do Vento Festival
Bruno Morais
Bruno Morais no encerramento do Vento Festival









O Vento Festival

Não sou uma grande adepta dos festivais de música, mas o Vento trouxe meu amor de volta em 3 dias. Liberdade e diversidade sambaram o tempo todo por lá, em um festival democrático e acessível. Música independente, economia criativa, compartilhamento, natureza, diálogo e empoderamento social uniram pessoas de energia suave que mexeram com as nossas associações de grandeza. Original, brilhante e honesto, o Vento Festival é o tipo de momento que deve estar incluso na sua agenda do ano que vem. Inevitável não sair de lá com um mínimo de vontade de viver a vida. Aguadando ansiosamente a próxima edição. 

Ilhabela

A ilha foi a outra cereja do bolo, e o Vento não merecia um lugar menos maravilhoso. Praia, área de preservação ambiental, mais de 200 cachoeiras, lendas de piratas, naufrágios e toda a vibe mistica faz você ter plena certeza que não quer mais voltar para casa, ainda mais se ela ficar em São Paulo. Ah, sem falar da comunidade incrível, receptiva e amável do lugar. Foi um lar. Que bons ventos nos tragam de volta. 

Ilhabela e a arte de Luan Sabino
Divulgação - Vento Festival
Ilhabela e a arte de Luan Sabino


E como música não se traduz, se sente, eu vou deixar aqui minha playlist das bandas que fizeram o Vento Festival uma experiência única. Aprecie com amor: 


*Jornalista viajou a convite do Vento Festival 

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