Mistura de alta tecnologia e passionalidade humana dá tom a longa estrelado por Helen Mirren e Alan Rickman

Reuters

Isso porque o ataque à casa, numa região com outras casas e alguma circulação, certamente terá efeitos colaterais – leia-se, vítimas fatais que não têm nada a ver com os terroristas. Assim, com o tempo cada vez mais apertado, a coronel espera uma decisão – e cogita tomá-la por conta própria – para explodir a casa.

Helen Mirren em
Divulgação
Helen Mirren em "Decisão de Risco"

A contraposição feita por “Decisão de Risco” é exatamente entre a precisão dos equipamentos modernos – o drone pode jogar o explosivo num ponto exato escolhido – e o fator humano, passível de erro ou decisões pouco racionais, pautadas pela emoção.

Helen Mirren, numa de suas melhores performances, é controladora, numa personagem repleta de poder, mas, nem por isso, destituída de uma dose de humanismo, o que não a torna uma pessoa agradável. Seu pragmatismo não é de todo incompreensível, embora nem sempre se concorde com ele.

Rickman – mostrando porque fará tanta falta –, por outro lado, é mais humano e tenta entender tanto os argumentos dela quanto os das outras pessoas à sua volta.

No início dos anos de 1990 – ainda no calor dos acontecimentos –, o filósofo francês Jean Baudrillard escreveu um texto chamado “A Guerra do Golfo não Aconteceu”.

Seu argumento envolve, entre outras coisas, não apenas o mundo pós-Guerra Fria, como também as tecnologias que possibilitam a virtualização do real (um tema caro ao seu pensamento). A questão que aproxima seu artigo de “Decisão de Risco” é exatamente a de que os conflitos contemporâneos podem ser lutados à distância.

Aqui, militares ingleses e norte-americanos (agindo confortavelmente sentados em cadeiras em seus próprios países) determinam todos os passos de um conflito num terceiro continente. O único a correr um risco real é um personagem interpretado pelo ótimo ator somali Barkhad Abdi (“Capitão Phillips”) que está num mercado em frente à casa, controlando o besouro mecânico com um aparelho.

Mais de duas décadas atrás, Baudrillard disse que “ao contrário das guerras anteriores, nas quais os objetivos políticos eram conquistar ou dominar, o que está em jogo nessa guerra é a própria guerra: seu status, seu significado, seu futuro”.

“Decisão de Risco” mostra o quão premonitório foi o texto do filósofo, evidenciando como uma cadeia burocrática – de países ricos – toma medidas, faz escolhas sobre ataques em sua maior parte nos países pobres. Não poderia haver um filme mais alarmante, mas também, mais revelador de nosso presente.


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