Apesar do triunfo de drama jornalístico, "O Regresso" e "Mad Max" tiveram desempenhos mais consistentes na noite que transcorreu sob forte clima de constrangimento

 “Bem-vindos ao White Choice Awards”, saudou o mestre de cerimônias Chris Rock logo no início de seu monólogo de abertura. A falta de diversidade na lista dos concorrentes ao Oscar 2016 foi uma grande sombra, muito bem projetada pelo humorista, durante toda a cerimônia de premiação.  

Leonardo DiCaprio ganhou o Oscar de melhor ator por
CHRIS PIZZELLO/ASSOCIATED PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Leonardo DiCaprio ganhou o Oscar de melhor ator por "O Regresso"

A academia abraçou a controvérsia e soube rir de si mesma. Mas também soube falar sério. A presidente da instituição, Cheryl Boone Isaacs , foi ao palco dar um puxão de orelha em todo mundo em plena televisão. “Todo mundo na academia tem um papel a cumprir para precipitar as mudanças que todos nós queremos ver”, disse. “Cada um de vocês é um embaixador da boa vontade. Martin Luther King disse certa vez que o que mede um homem não é como ele se posiciona em momentos de comunhão e paz, mas como ele se posiciona em tempos de controvérsia”.

Controvérsia, aliás, parece ser a palavra-chave do Oscar 2016. O filme mais premiado da noite foi “Mad Max: Estrada da Fúria”, que conquistou seis estatuetas. Todas elas técnicas. O segundo filme mais premiado da noite, e em categorias nobres, foi “O Regresso”. Mas o de melhor filme não estava entre as estatuetas amealhadas pelo filme que concorria a 12 Oscars.

O melhor filme do ano, “Spotlight –Segredos Revelados”, conquistou o primeiro e o último Oscars da noite. E foi isso. O filme de Tom McCarthy ganhou apenas dois Oscars. A fita concorria a seis. É a primeira vez desde 1953 que o vencedor de melhor filme conquista apenas duas estatuetas. Na ocasião, “O Maior Espetáculo da Terra” de Cecil B.DeMille também só ganhou os Oscars de roteiro e filme. 

Mais do que qualquer coisa, o Oscar 2016 reforçou o poder dos sindicatos. “Spotlight” havia vencido o prêmio do sindicato dos atores. São justamente os atores que compõem o maior colegiado dos votantes do Oscar e a vitória do filme comprova a influência deste sindicato em particular no resultado final do Oscar. Raciocínio semelhante pode ser aplicado à vitória de Mark Rylance , por “Ponte dos Espiões”, entre os coadjuvantes. Apesar de todo o hype em torno de Sylvester Stallone , o intérprete de Rocky Balboa não figurava na lista do SAG. Rylance sim. Mesmo sem ter vencido no SAG, que premiou Idris Elba , Rylance era uma escolha mais natural e ela foi feita.

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"Mad Max: Estrada da Fúria" foi o filme mais premiado do Oscar 2016

“Mad Max: Estrada da Fúria” barbarizou nos sindicatos das categorias técnicas e assim o fez no Oscar. O cineasta Alejandro González Iñárritu , vencedor no sindicato dos diretores, voltou a vencer no Oscar no ano seguinte a seu triunfo por “Birdman”.

O fato dos sindicatos não convergirem em torno de um filme, ou mesmo de dois, como em outros anos, gerou essa disputa ensimesmada que resultou em um Oscar de saldo duvidoso. A despeito de se gostar ou não de “Spotlight”, é passível questionar o melhor filme do ano que, fora este troféu, só detém outro.

Em meio a tantas incertezas, reinou Leonardo DiCaprio . O ator, que concedera entrevistas protocolares no tapete vermelho, confirmou as expectativas e foi o vencedor do Oscar pelo protagonista de “O Regresso” .

Gracioso, DiCaprio agradeceu a academia, os concorrentes, os parceiros ao longo da carreira, ao “visionário” Iñárritu e apelou à consciência social para os problemas ambientais e a mudança climática.

Brie Larson levou o Oscar de melhor atriz por
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Brie Larson levou o Oscar de melhor atriz por "O Quarto de Jack"

As jovens Alicia Vikander , 28 anos, e Brie Larson , 27 anos, venceram como atriz coadjuvante e atriz por “A Garota Dinamarquesa” e “O Quarto de Jack” respectivamente.

A maior surpresa do Oscar talvez tenha sido a vitória de “Ex-Machina: Instinto Artificial” na categoria de efeitos visuais. Mas não foi um Oscar surpreendente como muitos podem crer. A vitória de “Spotlight”, ainda que não necessariamente nos termos em que ela se deu, já era bastante palpável. Mais até do que eventualmente a de “O Regresso”.

Mas o grande momento da cerimônia, em geral mais dinâmica do que de hábito, foi quando Chris Rock esbofeteou toda a comunidade do cinema na cara. “Hollywood é racista? Você pode ter a mais absoluta certeza que sim. Hollywood é a fraternidade do racismo. É tipo assim, ‘Nós gostamos de você Rhonda, mas você não é uma Kappa!”.

O Oscar aconteceu sob o efeito dessa bofetada e, de certa forma, isso tem tudo a ver com o sentimento provocado por “Spotlight” enquanto cinema e, portanto, afere um sentido um tanto poético a seu consternado triunfo no Oscar.

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