A atriz reestreia no teatro com Herson Capri, fala sobre o assédio até hoje por conta de Odete Roitman e diz como é envelhecer diante do público

Beatriz Segall sobre seu mais famoso papel:
André Giorgi
Beatriz Segall sobre seu mais famoso papel: "As pessoas se confundem, é comum eu entrar numa loja e o caixa dizer: 'olá dona Odete'"

Um retrato de Beatriz Segall pintado pelo ex-sogro, Lasar Segall , nos faz companhia na iluminada sala de estar enquanto a atriz não chega para a entrevista. Ela abriu seu apartamento em São Paulo para falar sobre a reestreia da peça “Conversando com Mamãe” , que está em cartaz no Teatro Renaissance, na capital paulista. Beatriz é só elogios para seu parceiro de cena, o ator Herson Capri , que interpreta seu filho cinqüentão. No bate-papo, a atriz conta ainda que é uma “maravilha” como mãe, revela que não assiste a novelas e diz que envelhece bem porque ainda tem sonhos. “Eu não sou velha, aos 85 anos sou no máximo antiga”, dispara.

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Não tenho interesse (em assitir novelas). Só vejo jornal"

E sem perder o humor ela fala sobre o inevitável: sua personagem Odete Roitman da novela “Vale Tudo”, de 1988. “As pessoas se confundem, é comum eu entrar numa loja e o caixa diz olá dona Odete.”Confira o bate-papo:


iG: Como enfrenta essa maratona de teatro?
Beatriz Segall
: Quando eu comecei a fazer teatro, a gente fazia de terça a domingo, eu era muito mocinha e eu aguentei isso até os anos 1970. Era uma coisa normal, você tinha uma folga na segunda-feira. Depois começou a ter mais folgas até chegar ao ponto que chegamos. Acho que a televisão, claro, influenciou muito nessa situação, mas como o teatro é um elemento cultural muito pouco valorizado, inclusive pelo Ministério da Cultura e pelas secretarias de cultura, a gente vai tendo que se adaptar aos hábitos e aos costumes. Não há nenhum estímulo maior para as pessoas irem ao teatro. Então isso nos foi obrigando a diminuir o número de sessões. Para mim é bom trabalhar só às sextas, sábados e domingos, mas para a bilheteria do teatro, para as despesas do teatro, para o que custa montar uma peça, é bastante ruim.

André Giorgi
"No trabalho há uma diferença de tom, mas de interpretação, não. Prefiro teatro, mas topo tudo", diz a atriz

iG: A peça retrata a relação de mãe e filho. Como a senhora é como mãe?
Beatriz Segall:
Como mãe, eu sou uma maravilha! (risos). Tento o máximo possível não me meter na vida dos meus filhos e das minhas noras. Tenho muita sorte, tenho noras ótimas, que são noras amigas. Isso facilita muito. Meus filhos são ótimos, então não tenho problemas, graças a Deus.

iG: Em qual ambiente sente-se mais confortável: teatro, cinema ou TV?
Beatriz Segall:
Sou atriz para qualquer um dos três. Eu mudo conforme o ambiente em que estou. Num teatro de 800 lugares, é claro que eu tenho que me preocupar com os que estão na últimas filas. Se estou num teatro de 300, 400 lugares eu me importo menos porque eu sei que a voz chega mais facilmente. No trabalho há uma diferença de tom, mas de interpretação, não. Prefiro teatro, mas topo tudo.

Se você se prepara, lê, estuda, você continua sonhando e tendo interesses, você envelhece bem"

iG: Tem algum projeto na televisão?
Beatriz Segall:
Televisão você não projeta. Na televisão você não se oferece, você é chamado. Você não escolhe, é escolhido

iG: A senhora é contratada da Globo?
Beatriz Segall:
Não, nunca fui. Eu sou independente.

iG: Como é o Herson Capri como companheiro de cena?
Beatriz Segall:
É um colega de trabalho extraordinário, fora do comum, Ele tem uma dedicação, uma gentileza enorme. É maravilhoso trabalhar com ele por causa do talento, da capacidade e, sobretudo, dele como pessoa, que é extremamente delicado, gentil, amável, seguro em cena. Adoro trabalhar com ele. É a primeira vez, só fizemos (a série) “Aeio Urca”, mas ele tinha um papel pequeno.

iG: O que a senhora gosta de ver na televisão hoje em dia? Acompanha novelas?
Beatriz Segall:
Não, eu não tenho interesse. Só vejo jornal.

iG: Que novela gostaria que fosse reprisada?
Beatriz Segall:
“Água Viva” (de 1980) foi uma novela maravilhosa, da qual se fala pouco. Tinha um elenco bom, foi muito bem feita.

iG: Como a senhora dribla o assédio de várias gerações por causa da personagem Odete Roitman, já que "Vale Tudo" foi exibida algumas vezes?
Beatriz Segall:
É cansativo quando as pessoas insistem, são inconvenientes, mas de modo geral não. Eu passo por cima. As pessoas se confundem, é comum eu entrar numa loja e o caixa dizer: ' olá dona Odete'.

iG: E a senhora os corrige?
Beatriz Segall:
Eu falo: ‘não sou dona Odete, sou dona Beatriz’.

Como mãe, eu sou uma maravilha! (risos). Tento o máximo possível não me meter na vida dos meus filhos e das minhas noras. Tenho muita sorte, tenho noras ótimas
André Giorgi
Como mãe, eu sou uma maravilha! (risos). Tento o máximo possível não me meter na vida dos meus filhos e das minhas noras. Tenho muita sorte, tenho noras ótimas

iG: Há alguns anos a senhora disse numa entrevista que se incomodava com os cartazes pendurados em São Paulo. Como vê a cidade hoje?
Beatriz Segall: A Cidade Limpa foi uma ideia do José Serra extraordinária e vejo o Rio de Janeiro coberto com aqueles cartazes todos e fico com pena dos cariocas. São Paulo ganhou muito com isso, ficou uma cidade mais limpa. Não dá para dizer quanto à varrição. É uma cidade que cresceu demais, mas que oferece uma série de vantagens para quem mora aqui. É uma grande metrópole, você tem tudo o que quiser aqui. Os paulistanos deveriam ser melhores tratados, no sentido de ter uma cidade mais agradável, com mais verde, com mais espaço publico, com menos buracos, com menos calçadas quebradas. São Paulo precisa desses confortos básicos, andar na rua sem levar um tombo.

iG: A senhora tem algum ídolo na profissão?
Beatriz Segall:
Já me apaixonei quando era criança por muitos atores, Errol Flynn , Charles Boyer , esses atores me encantavam muito. Mas não tenho grandes mitos a não ser a Bette Davis , que eu acho a maior atriz americana.

Não tenho nem computador. De vez em quando eu sinto que deveria ter, mas a preguiça é muito grande"

iG: A senhora já foi comparada a ela.
Beatriz Segall:
É e eu não sei o porquê.

iG: Provavelmente porque assim como ela no cinema, a senhora ficou marcada como uma grande vilã da TV. Esse rótulo incomoda?
Beatriz Segall: Fiquei marcada por vilã por dois motivos. Primeiro porque fiz a Lurdes Mesquita (em “Água Viva"), que era uma personagem excelente, que não tinha nada a ver com a Odete Roitman, e que mostrou como é bom fazer papel de vilã. Esse papel era da Tônia Carreiro e ela não queria fazer. Não me avisaram que era uma vilã. Fui percebendo aos poucos e isso me fez muito bem. Eu fiz com muita calma, com naturalidade, o papel cresceu. E é assim que deve ser feito porque o vilão não sabe que é vilão. Isso fez com que a vilã fosse até simpática. A Odete Roitman era até engraçada. A partir daí os atores começaram a querer fazer vilões porque são eles quem conduzem as novelas. Até então os atores pleiteavam ganhar mais quando tinham que fazer um vilão porque perdiam em publicidade. Ninguém iria chamar Odete Roitman para fazer um anúncio.


iG: O publicitário Washington Olivetto chamou.
Beatriz Segall:
Ele foi o único, fez uma coisa inteligentíssima. Eram 5, 6 horas da tarde do dia anterior de ir ao ar a morte da Odete Roitman. Ele ligou e me disse que iria comprar uma fotografia minha para um anúncio da associação das seguradoras em que estaria escrito: ‘Faça seguro. Você nunca sabe o dia de amanhã.’ Saiu em todos os jornais. Eu dei uma gargalhada, achei genial. Aceitei o que eles ofereceram porque achei a ideia muito boa.

iG: Tem alguém com quem gostaria de contracenar?
Beatriz Segall:
Talvez com o Paulo Autran , que eu perdi. Ele era meu vizinho, morava neste prédio. Trabalhei com muitos bons atores e com muitos maus atores, que infernizaram a vida. Mas em compensação estou agora com o Herson Capri, que é muito talentoso e é uma satisfação trabalhar com ele.

iG: Como é envelhecer diante do público?
Beatriz Segall:
Envelhecer, o que é isso? (risos). Eu não sou velha, aos 85 anos sou no máximo antiga. Vaidoso todo mundo é, até os feios e horrorosos são vaidosos. E fazem muito bem de ser. Me cuido, sobretudo quanto à saúde. Faço um pouquinho de ginástica, mas me alimento muito mal, como pouco, em horas variadas, não tenho horário. O que acho importantíssimo é você se preparar e saber que a idade uma hora vai chegar e que ela é sempre carregada de coisas boas. Se você se prepara, lê, estuda, você continua sonhando e tendo interesses, você envelhece bem.

iG: Com o que a senhora continua sonhando?
Beatriz Segall:
Com o máximo que eu posso. Sonho com viagens maravilhosas, quero ver meus netos casando, quero ter bisnetos.

iG: Com quem viaja, que roteiros gosta de fazer?
Beatriz Segall:
Viajo com amigos e às vezes vou em excursões. Conheço bem as grandes cidades, ainda não conheço Berlim, que é uma falha. Há lugares que tem que repetir como Paris e Londres também. Mas em geral eu gosto de lugares que eu nunca imaginei na vida que iria como Japão, China, Tailândia e Tunísia.

Beatriz Segall e Herson Capri em cena na peça
George Magaraia
Beatriz Segall e Herson Capri em cena na peça "Conversando com Mamãe"


iG: A senhora já morou em Paris na juventude. Como é voltar para lá?
Beatriz Segall:
É a minha cidade. É o único lugar no mundo em que eu me sinto bem mesmo quando estou sozinha. Me sinto em casa. Apesar de ter mudado muito, Paris é uma cidade extraordinária porque ela conserva sua antiguidade arquitetônica e ao mesmo tempo é uma cidade muito moderna.

iG: Nessas viagens, a senhora costuma ser reconhecida por fãs estrangeiros?
Beatriz Segall:
Na França não. Na Itália sim e em Portugal sem dúvida. Mas onde eu fiquei mais admirada foi num hotelzinho de interior na Capadócia, na Turquia. O gerente me conhecia das novelas. Depois, viajando pelo país, entrei numa loja e o rapaz que estava atendendo teve um ataque. Queria chamar a mãe dele para me conhecer. Eu não atribuo isso a mim, atribuo ao fato da Globo vender as novelas. Aqui na América do Sul dificilmente a gente anda como desconhecido.

iG: Já tem outro texto em vista para encenar?
Beatriz Segall:
Estou começando esse processo. Não está fácil. Durante muito tempo da minha vida eu tinha um amigo que não era de teatro e me trazia sugestões ótimas. Fiz várias peças sugeridas por ele, mas ele faleceu e infelizmente não tenho alguém assim. Tenho muitos amigos que viajam e trazem notícias de peças e tal. Fora disso, tenho que me informar, botar pessoas para procurar na internet, nos jornais da França, da Itália, Inglaterra. Até de Nova York. Mas estão faltando bons textos.

iG: A senhora não usa internet?
Beatriz Segall:
As pessoas que pesquisam para mim. Não tenho nem computador. De vez em quando eu sinto que deveria ter, mas a preguiça é muito grande.

André Giorgi
"Entrei numa loja na Turquia e o rapaz que estava atendendo teve um ataque. Queria chamar a mãe dele para me conhecer", conta sobre o assédio

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