Casada com o cineasta Hector Babenco, 28 anos mais velho, a atriz passa a limpo sua vida de altos e baixos e conclui: “Continuo sendo aquela menina do interior”

Bárbara Paz: Eu nunca fui nada em excesso, nunca me joguei, nunca pude. Se não, nem estaria mais aqui.
André Giorgi
Bárbara Paz: Eu nunca fui nada em excesso, nunca me joguei, nunca pude. Se não, nem estaria mais aqui.
Em uma segunda-feira chuvosa, Bárbara Paz chega para a nossa entrevista vestida toda de preto, de luto. “Acabei de sair do velório da mãe de uma amiga.” Antes que pudesse ouvir qualquer palavra de conforto, porém, sua expressão, de quem já passou por isso – ela perdeu o pai aos 6 anos e a mãe aos 17 -, se transforma: “A vida é assim”.

A atriz, então, tira os óculos escuros, confere as roupas escolhidas para o ensaio de fotos também programado para aquele dia, coloca música em seu laptop, adianta que não usará nenhum acessório - “tenho aflição, não uso brinco, colar, nada” - e diz que prefere se maquiar antes de conversar. Assim, bem prática. Aos 37 anos, Bárbara reestreia nesta sexta-feira (27), em São Paulo, a peça “Hell”, montagem inspirada no livro da francesa Lolita Pille , lançado em 2003 quando a escritora tinha 18 anos (na adaptação da peça a personagem tem 27 anos).

Bárbara Paz: os meus valores mudaram, acho que estou em fase de crescimento.
André Giorgi
Bárbara Paz: os meus valores mudaram, acho que estou em fase de crescimento.

Em forma de diário, a jovem burguesa descreve, sem pudor, seu dia a dia limitado ao abuso de álcool, drogas e consumismo desenfreado. O espetáculo, que também já passou pelo Rio, foi adaptado e é dirigido por seu marido, o cineasta Hector Babenco . “Fico nervosa em São Paulo”, confidencia baixinho para o maquiador.
Com um corpo magrinho, ela vibra ao contar como conquista sua boa forma física. “Sexo e pilates”, diz, dando uma gargalhada, e adianta que não posaria nua novamente. Diferente de sua personagem, Bárbara detesta cigarro – mesmo tendo que fumar o tempo todo durante sua performance no palco -, não tem vícios e assume que só se descontrola por ciúmes.

Na entrevista a seguir, ela revela continuar sendo “aquela mesma menina do interior”, mas não se estende muito sobre algumas passagens de sua história. “Vamos falar sobre o futuro.” Entre seus planos, “levar a peça para Paris, eu estou louca que ela (Lolita Pille) veja a peça. Meu desejo é que ela veja a Hell que eu criei dela”.

Bárbara Paz: A minha história de vida é como muitas outras. Eu sou mais uma só, há histórias piores que a minha
André Giorgi
Bárbara Paz: A minha história de vida é como muitas outras. Eu sou mais uma só, há histórias piores que a minha

Nos meus 18 anos eu estava em função de trabalhar, de correr atrás. Claro que eu frequentei muito a noite, saí, fui muito baladeira, mas diferente da balada de 'Hell'"

iG: Como você lidava com as questões álcool, drogas, sexo e consumo quando tinha 18 anos? Você viveu algo parecido com Hell (alterego de Lolita Pille)?
Bárbara Paz:
Minha história é muito distante da de Hell. Nos meus 18 anos eu estava em função de trabalhar, de correr atrás. Claro que eu frequentei muito a noite, saí, fui muito baladeira, mas diferente da balada de Hell. Mas não existia essa coisa de consumir drogas, levantar, ir para a escola direto da boate, sair da escola e comprar, porque não tem o que fazer. O pai dá uma mesada gigantesca para ela e é o que ela pode fazer. Isso acontece com muitas garotas. Aqui em São Paulo se vê muitas delas.

iG: Então você não teve contato com drogas?
Bárbara Paz:
Eu sempre fui muito controlada em tudo até porque eu tinha que cuidar de mim, eu estava muito sozinha, tinha acabado de chegar a São Paulo. Eu nunca fui nada em excesso, nunca me joguei, nunca pude. Se não, nem estaria mais aqui. Não tenho vícios e preciso até tomar antialérgico para poder fumar na peça.

Ainda sou muito sonhadora, com muitas ambições. Não consigo parar, não consigo nem ter férias.
André Giorgi
Ainda sou muito sonhadora, com muitas ambições. Não consigo parar, não consigo nem ter férias.

iG: Como é trabalhar com o seu marido?
Bárbara Paz:
A gente consegue separar isso, foi totalmente diretor e atriz. Ele é um grande diretor de cinema, um mestre, deixa o ator criar. No começo dos ensaios ele disse: “Bárbara, você terá que matar essa boa moça que existe dentro de você”. Porque ela é uma menina muito mais arrogante do que eu e aos poucos fui trabalhando essa mulher altiva, dona de si.

iG: Você disse recentemente que quer retomar um documentário que fez na época da faculdade de Jornalismo com os usuários de crack. Como será este projeto?
Bárbara Paz:
Eu tenho vários documentários que quero fazer e esse aí é um dos planos, mas não consigo fazer várias coisas ao mesmo tempo. No segundo semestre, quando eu parar, vou ver exatamente o que vou fazer. Quero fazer documentários e quero ser diretora.

Não sei quais são os erros ou os acertos, mas acho que errar é não experimentar, é ter medo do desafio"

iG: Você começou no SBT e hoje é contratada da Rede Globo. Quais foram os erros e acertos dessa trajetória?
Bárbara Paz
: Para mim, foi uma grande oportunidade ter passado pelo SBT, pelo tanto que aprendi. Fiz três novelas lá ao logo de sete anos e então consegui continuar no teatro. Hoje eu sei mais do que ontem, e espero que amanhã eu saiba mais que hoje. Não sei quais são os erros ou os acertos, mas acho que errar é não experimentar, é ter medo do desafio.

Bárbara Paz: Para mim, foi uma grande oportunidade ter passado pelo SBT, pelo tanto que aprendi
André Giorgi
Bárbara Paz: Para mim, foi uma grande oportunidade ter passado pelo SBT, pelo tanto que aprendi

iG: Você venceu o primeiro reality show do Brasil, a “Casa dos Artistas”. Como foi aquilo? E hoje, você vê o Big Brother?
Bárbara Paz:
Era um jogo e hoje mudou muito, aquele foi o primeiro. Faz 11 anos! Fui a primeira a ganhar um reality show no País: é inesquecível, uma coisa histórica, está nos anais (risos)! Foi o que tinha que ser, foi lindo tudo, é uma coisa que eu vivi. Hoje em dia as pessoas já estão mais experientes porque viram como é o esquema, mas eu acredito sempre que a verdade, a sinceridade desses participantes, não tem como não falar mais alto.

iG: Ganhar R$ 300 mil naquela época mudou muito a sua vida?
Bárbara Paz:
Lógico, mudou a minha vida em todos os sentidos! Eu me tornei conhecida. Tive popularidade, não credibilidade, é diferente. Comprei meu apartamento, fui tocar a minha vida, minha carreira. Usei isso ao meu favor.

Lá eu era uma guria, querendo me apaixonar, achar alguém para amar,  tentando achar um espaço no mundo. Não que essa Bárbara mudou muito, mas hoje eu já achei um espaço"

iG: Antes era mais fácil enxergar seu contorno, sua personalidade. Hoje as pessoas parecem não saber quem de fato você é.
Bárbara Paz:
Engraçado, quando você se torna conhecida, as pessoas acham que a gente mudou, então elas mudam em relação à gente. Estou falando até de amizades. É claro que os meus valores mudaram, acho que estou em fase de crescimento. Lá eu era uma guria, querendo me apaixonar, achar alguém para amar, querendo se encontrar profissionalmente, tentando achar um espaço no mundo. Não que essa Bárbara mudou muito, mas hoje eu já achei um espaço.

Bárbara Paz: Engraçado, quando você se torna conhecida, as pessoas acham que a gente mudou, então elas mudam em relação à gente.
André Giorgi
Bárbara Paz: Engraçado, quando você se torna conhecida, as pessoas acham que a gente mudou, então elas mudam em relação à gente.

iG: E o que isso representa?
Bárbara Paz:
Eu era muito agitada em relação a querer ser alguém, em busca de algo e sozinha. Eu era muitas pessoas ao mesmo tempo e me perdia no meio de tantos “eus”. Hoje estou mais tranquila porque estou contratada, eu consegui fazer um trabalho legal na TV, ter estabilidade no teatro e ter uma boa estabilidade financeira. Tudo isso me ajuda a não ter tanta ansiedade para conseguir algo.

iG: Você se sente acomodada?
Bárbara Paz:
Não, não que a minha ansiedade tenha morrido. Ainda sou muito sonhadora, com muitas ambições. Não consigo parar, não consigo nem ter férias. E no meu dia a dia eu continuo sendo a mesma Bárbara. Até ingênua demais. Continuo sendo aquela menina do interior. Às vezes vem ela muito forte. O que mais eu prezo é não perder a minha essência. Não se pode esquecer de onde você veio, como você chegou, tento não perder isso.

iG: Você é bem mais jovem que seu marido, que completa 66 anos em fevereiro. Qual é o pacto entre vocês dois?
Bárbara Paz:
Eu não costumo falar da minha relação, mas tenho uma vida muito feliz. A gente se complementa, ele me traz muita coisa, eu também levo muita coisa pra ele. Então essa coisa de diferença de idade já é uma coisa muito passada. Você não pensa nisso quando você se apaixona por alguém.

Todo mundo sabe onde estão os vazios e de alguma forma, inconscientemente, se atrai por determinadas pessoas e outras não"

iG: Você perdeu seus pais ainda jovem e amadureceu mais cedo. Isso influenciou nessa escolha?
Bárbara Paz:
Freud explica tudo, a psicanálise explica tudo. Mas agora eu explicar por que eu gosto de uma pessoa e não da outra? Por que eu me apaixonei por um homem mais velho? Não tem como, todo mundo sabe onde estão os vazios e de alguma forma, inconscientemente, se atrai por determinadas pessoas e outras não. Eu aparento ser mais jovem, mas já estou com 37 para 38. A minha história de vida é como muitas outras. Eu sou mais uma só, há histórias piores que a minha. Prometi que não ia fazer mais entrevistas para falar da minha história, ‘ó a coitada’. Já faz 20 anos! Não quero que a minha vida seja maior que meus personagens.

Bárbara Paz: Não se pode esquecer de onde você veio, como você chegou, tento não perder isso
André Giorgi
Bárbara Paz: Não se pode esquecer de onde você veio, como você chegou, tento não perder isso

iG: Aonde você perde o controle?
Bárbara Paz:
Sou muito ciumenta, muito insegura. A minha TPM também. No resto eu sou muito centrada. As pessoas me conhecem e dizem: “sempre achei que você fosse muito mais louca!”. Porque eu tenho um jeito de ser que é meu, de viver a vida e não me preocupar muito com as consequências, com o que as outras pessoas vão pensar, e isso traduz de alguma forma alguém mais leviana, mais sem conteúdo. Quem me conhece sabe quem eu sou.

iG: Tem vontade de ter filhos?
Bárbara Paz:
Tenho vontade, sou uma mãezona, gosto muito de criança, mas sempre priorizei a minha carreira porque sempre tive que cuidar de mim. Agora tenho uma vida mais sadia no sentido financeiro e psicológico, talvez eu vá começar a pensar nisso. Aliás, vou começar a pensar.

No segundo semestre, quando eu parar, vou ver exatamente o que vou fazer. Quero fazer documentários e quero ser diretora.
André Giorgi
No segundo semestre, quando eu parar, vou ver exatamente o que vou fazer. Quero fazer documentários e quero ser diretora.

Créditos:
Produção de Moda: Reinaldo Lourenço
Beleza: Lú Ramos (JJ. Cabeleireiros com produtos Tigi)
Locação: Ballroom (São Paulo - SP)


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