Em entrevista exclusiva ao iG, Maeve Jinkings fala sobre a carreira e os desafios de viver uma personagem tão vulnerável na faixa mais concorrida da televisão. "As pessoas torcem por ela. Recebo muito carinho na rua", revela a atriz brasiliense

Ela é a responsável pela personagem que mais chama atenção em “A Regra do Jogo” e esta é apenas a primeira novela de Maeve Jinkings. A atriz, que dispensa apresentações para quem tem alguma familiaridade com o cinema brasileiro fora da curva do mainstream, cativou o grande público na pele da sofrida e corajosa Domingas .  “Fico feliz com o que está acontecendo nesse momento; creio que veio na hora certa, pois estou mais madura, mais segura das minhas escolhas”, disse a atriz em entrevista exclusiva concedida ao iG .

A atriz Maeve Jinkings, no ar como a Domingas de
Mariana Vianna/ Divulgação
A atriz Maeve Jinkings, no ar como a Domingas de "A Regra do Jogo" e no cinema em "Boi Neon", vive a melhor fase de sua carreira aos 39 anos

Domingas, que vive na faixa nobre da Globo uma trajetória infelizmente muito comum a tantas mulheres no gigantesco e ainda muito desigual e desinformado Brasil, representa o maior desafio da carreira de Maeve na avaliação da própria atriz. “É difícil para o ator”, explica sobre o longo processo de desenvolver um personagem no curso de uma novela. “Ele precisa repetir uma situação dramática várias vezes. Tem hora que dá uma sensação de esvaziamento. Mas ao mesmo tempo, há o fascínio de descobrir quase junto com o espectador a mudança de fase da personagem”.

Na entrevista ao iG , Maeve Jinkings, que vive a melhor fase de sua carreira aos 39 anos de idade, fala sobre o começo de tudo, a fortuna de mergulhar no cinema pernambucano em sua fase mais produtiva, sua avaliação pessoal dos dramas e conflitos de Domingas e de como ela gostaria que fosse o final da novela para a personagem.

No Brasil, os atores costumam migrar da TV para o cinema. Mas você fez o caminho inverso. Depois de se consolidar no teatro e chamar a atenção no cinema, estreou na televisão com uma personagem que foi crescendo de tamanho aos olhos do público. Como você avalia essa trajetória? Mudaria algo?

Ainda enquanto estudava teatro fiz alguns testes para a tv, como faziam praticamente todos os meus colegas. No inicio da carreira tudo o que você deseja é poder trabalhar. Mas sempre foquei em concluir minha formação na Escola de Artes Dramaticas da USP, que foi minha grande escola, e confesso, que não mudaria absolutamente nada em minha trajetória. Fazer TV foi provavelmente a coisa mais difícil que já fiz, pois o tempo de elaboração é pouco, o set é dispersivo, exige muita preparação e foco. Ainda mais num personagem com conflitos dramáticos tão intensos. Fico feliz com o que está acontecendo nesse momento, creio que veio na hora certa, pois estou mais madura, mais segura das minhas escolhas.

Carmo Dalla Vecchia (César) e Maeve Jinkings gravam cena na praia na quinta-feira (11)
Gshow/Divulgação
Carmo Dalla Vecchia (César) e Maeve Jinkings gravam cena na praia na quinta-feira (11)

A Domingas é muito vulnerável, mas também tem uma coragem imensa. Como é desenvolver essa personagem ao longo da novela? É um processo de escrutínio muito mais lento e detalhado do que no cinema? Como foi essa adaptação para você?

A diferença mais evidente para mim é que na TV, pelo próprio tempo de duração da obra, nos debruçamos mais longamente sobre cada fase da personagem e o repetimos muito para dar chance ao telespectador que por acaso perdeu algum capitulo. Isso é difícil para o ator, que precisa repetir uma situação dramática varias vezes; tem hora que dá uma sensação de esvaziamento. Mas ao mesmo tempo há o fascínio de descobrir quase junto com o espectador a mudança de fase da personagem, as surpresas de sua trajetória, convivendo com essa vida fictícia por muitos meses. Isso é bem interessante e novo para mim.  

Não vou negar, torço para que Domingas termine com César"

Como você sente a reação das pessoas nas ruas? Eu imagino que o apoio à personagem deve ser revigorante...

As pessoas adoram a personagem, torcem por ela. Recebo muito carinho na rua.

Quais são as suas observações pessoais sobre o comportamento da Domingas? Como recuperar a autoestima depois de passar pelo que a personagem passou?

Quem vive um tipo de aniquilamento da autoestima da forma como Domingas sofreu, demora a se recuperar. É um processo muito lento, pode levar anos. Alguns terapeutas dizem que a violência moral é mais perigosa que a física, pois você pode passar muitos anos sem perceber que vive isso, se deprimir e até morrer de tristeza ou se matar, é uma violência que não deixa rastros. E algo grave: as pessoas ao redor tendem a desprezar a vitima, considera-la fraca e merecedora do que vive... Então ela vai se afundando numa confusão emocional muito grande. Todo tipo de ajuda é necessário, principalmente ajuda profissional. Mas ter pessoas firmes que a colocam para cima, como o César ( Carmo Dalla Vecchia ) e Indira ( Cris Vianna ) fizeram com Domingas, é um aspecto importante do processo.

A atriz Maeve Jinkings recebe o carinho dos colegas de elenco de
Divulgação/Imovision
A atriz Maeve Jinkings recebe o carinho dos colegas de elenco de "A Regra do Jogo" na pré-estreia carioca de "Boi Neon", realizada em janeiro

Quais os efeitos que uma pessoa como o César/Rodrigo tem sobre essa jornada redentora da personagem? O que podemos esperar nesse sentido?

Além de amante, César foi um grande companheiro, um homem forte o suficiente para não temer a força de Domingas. O homem agressor é basicamente alguém que teme a força da mulher, por isso precisa diminuí-la. No entanto, o próprio César tem suas fragilidades e Domingas compreende isso. Uma relação saudável se dá dessa forma, quando um potencializa o outro.

Como surgiu o convite para viver a Domingas? 

Foi a partir de uma indicação do produtor de elenco Guilherme Gobbi . Amora (Mautner) e João Emanuel assistiram alguns filmes ( “O Som ao Redor” ; “Amor Plastico e Barulho” ) e gostaram de meu trabalho, então me convidaram. 

Você pensa em fazer mais novelas ou o cinema continua sendo uma prioridade?

Minha prioridade é ter bons projetos, bons personagens e parceiros de trabalho. Isso pode estar no cinema, na tv, no teatro, no rádio, na internet.... Minha prioridade é não perder a paixão pelo que faço. Tem que ter paixão.

Me conte um pouco mais sobre essa sua nova faceta de preparadora de elenco? Como isso contribuiu na sua composição da Domingas?

Na verdade não me considero preparadora de elenco, me considero uma atriz. Tive essa experiência por duas vezes, em projetos de amigos. Mas foi importante para mim, me ajudou a organizar e racionalizar meu processo de auto-preparação, tenho convites e não descarto fazer isso novamente caso me sinta atraída para algum projeto. Ajudar outro ator em sua trajetória me ensinou muito sobre minhas próprias dificuldades, e tive que lidar com muitas barreiras para viver a Domingas. Tudo que vivi até esse momento da minha vida me ajudou a compor a personagem.

Alguns terapeutas dizem que a violência moral é mais perigosa que a física, pois você pode passar muitos anos sem perceber que vive isso", Maeve sobre o drama de Domingas

Como você gostaria que a novela acabasse para a Domingas?

Estou gravando um momento muito especial da trajetória dela, no qual já me sinto bastante realizada. Ao se separar de César, ao invés de desabar ela continuou amadurecendo e olhando para frente, apesar de ainda sofrer por ele. O momento atual de Domingas é, na minha opinião, o mais importante da trajetória da personagem: a conquista de sua autonomia, que é um caminho necessariamente solitário.

Ela descobriu que não precisa estar com ninguém para se manter ereta, deu um grande passo e abriu seu restaurante onde agrega mulheres fortes ao redor: Indira e Janete ( Suzana Pires ), que foram fundamentais como exemplos e seguem se apoiando mutuamente. Mas não vou negar, torço para que Domingas termine com César. Acho bonito e genuíno o amor que nasceu desse encontro, transformador para ambos.

E você está em cartaz também nos cinemas com o “Boi Neon”, está no próximo filme do Kleber Mendonça Filho... A ascensão do cinema pernambucano, de alguma forma se confunde com a sua ascensão não é? Como você recebe essa afirmação?

Quando entrei na EAD/USP, o grande ator paulistano Luciano Quirolli me disse 'Parabens Maeve, mas isso não vale de nada se você não encontrar seus parceiros'. Jamais esqueci essa frase, e acho que Recife teve essa importância para mim, foi um encontro artístico que mudou minha vida. O cinema pernambucano já era uma potência quando conheci Recife, mas cheguei lá num momento de particular produtividade, com parceiros com os quais amo trabalhar, e isso me possibilitou viver experiências que me amadureceram muito como atriz. Além disso, me levaram a estabelecer novas parcerias além das fronteiras pernambucanas.



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