Não foi desta vez que uma novela de Manoel Carlos conquistou o público... Essa é para esquecer


Carolina Dieckmann em cena inesquecível de 'Laços de Família'
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Carolina Dieckmann em cena inesquecível de 'Laços de Família'

O currículo de Manoel Carlos inclui uma série de novelas que marcaram história e das quais quem gosta de uma boa trama dificilmente vai se esquecer. Personagens como a vilã maluca e divertidíssima Sheila de “História de Amor”, interpretada por Lília Cabral , a paranoica e ciumenta Heloísa ( Giulia Gam ), na época apelidada como ‘Helouquisa’, de “Mulheres Apaixonadas”, a clássica cena da personagem de Carolina Dieckmann , Camila tendo os cabelos raspados em “Laços de Família”, as ‘raquetadas’ de Marcos ( Dan Stulbach ) em Raquel ( Helena Ranaldi ) em “Mulheres”, são apenas alguns xemplos de detalhes que fizeram do autor um dos principais nomes da teledramaturgia mostrando na televisão o que, costumou-se dizer, as crônicas da vida dos cariocas, principalmente do bairro do Leblon...

Por tudo isso, é triste dizer que "Em Família" será uma novela da qual é bem provável que ninguém vai se lembrar. Tem ingrediente faltando, o tempo no forno foi mal calculado. A receita não deu certo. E listamos dez dos principais motivos aqui:

Pior timing possível 1

A novela estreou em 3 de fevereiro deste ano e apresentou duas fases em seus primeiros capítulos. O resultado foi uma confusão geral por conta da velocidade em que a história foi contada, com tramas se atropelando e o público boiando. Para piorar, quando a terceira fase estava para engrenar, veio o Carnaval que levou a audiência embora. Pós Carnaval a novela já estava naquele ritmo arrastado, com praticamente nada acontecendo.

Pior timing possível 2

Para piorar, a novela está chegando ao fim juntamente com a Copa do Mundo. Por mais que nos últimos tempos a equipe de roteiristas tenha feito o impossível para criar situações que tornem a novela mais atraente, a audiência aponta que grande parte dos telespectadores desistiram. E o desespero da Globo é tanto que, durante os jogos da Copa, os narradores dos jogos convidam os telespectadores a assistir à novela, dando spoilers do que irá acontecer no capítulo daquele dia. Outro sinal do desespero da emissora? O que deveria ser um dos momentos mais esperados da novela, o beijo entre o casal lésbico “Clarina” já teve até a foto divulgada pela própria Globo.

A pior Helena de todos os tempos

Interpretada na segunda fase da novela por Bruna Marquezine , a Helena de “Em Família” prometia uma mulher independente e provocante. Na fase seguinte, quando Julia Lemmertz entrou em cena, passamos a conhecer a pior Helena da história das novelas de Manoel Carlos: uma mulher amargurada, chata e sem o menor carisma. Conseguiu a proeza de ser mais ‘esquecível’ do que a insossa Helena de Christiane Torloni , de “Mulheres Apaixonadas”.

Vilã? Cadê?

Dizer que Shirley ( Vivianne Pasmanter ), que faz de tudo para ficar com Laerte ( Gabriel Braga Nunes ), ou Branca ( Ângela Vieira ), que fica atazanando o ex-marido ou até mesmo Vanessa ( Maria Eduarda de Carvalho ), que não se conforma com o romance entre Clara ( Giovanna Antonelli ) e Marina ( Tainá Müller ) e fica causando confusões são vilãs? O próprio Laerte. Ele é um vilão? As personagens femininas, citadas acima, definitivamente não se enquadram no rótulo. Quanto a Laerte, o personagem, agora que a trama está chegando ao fim, está se transformando em um psicopata, mas foi apenas um recurso dos autores para tentar dar uma agitada na novela. PS: Não, necessariamente, existe a necessidade de um vilão pra valer, “do mal”, em uma novela e Manoel Carlos nunca foi partidário do maniqueísmo. Seus personagens podem ter tanto as características de uma pessoa boa e má, mas, que faz falta um pouco de maldade, um personagem forte, isso faz.


Personagens fracos

Por falar em personagens fortes, esse ingrediente ficou faltando. Os homens todos compreendem uma seleção de babacas, carentes, infantis, chorões, molengas e desajustados. As mulheres ou não tem graça, ou são chatas de doer, como Juliana ( Vanessa Gerbelli ) e sua eterna luta para ter um filho. Nem o fato de ela ter assassinado a própria empregada deu destaque à sua personagem, que acabou cedendo aos maus tratos de Jairo ( Marcelo Melo Junior ) para ter sua “filha”. Aproveitando o espaço, justiça seja feita à Vivianne Pasmanter e Ana Beatriz Nogueira . Shirley e Selma, respectivamente as personagens das duas atrizes, conseguiram se sobressair no meio dessa massa de gente sem atitude. Mas uma andorinha, nem duas, fazem verão.

Ações socioeducativas saíram pela culatra

Um dos capítulos do “Manual Maneco de Como Escrever uma Novela” ensina que trama do autor carioca sem menção a problemas da sociedade, como os já abordados câncer de mama, cura da leucemia e violência contra a mulher, entre outros. Desta vez, o autor apostou no alcoolismo, história do personagem vivido por Thiago Mendonça , o Felipe, e o abuso sexual das mulheres, com a personagem da (fraquinha...) atriz Erika Januza , a Alice. E o que aconteceu desta vez??? O público não comprou as campanhas sociais.

Clarina

Que é muito importante a presença de personagens de todos os gêneros nas novelas, no caso as lésbicas, representadas por Marina (Tainá Müller), Clara (Giovanna Antonelli) e as meninas do estúdio, não há dúvida. Isso ajuda a acabar com o preconceito e a incentivar a luta contra a homofobia. Mas o desenrolar da história teve um ritmo tão arrastado e foram tantos os tropeços no meio do caminho que chegou um momento em que a Globo viu-se obrigada a enfiar o casal goela abaixo do público. Tanto que, o que era para ser um dos momentos mais aguardados da novela, o beijo gay entre as duas, já foi divulgado pela TV Globo (como já citado neste texto). Passou a ser apenas mais um fato, praticamente irrelevante, no meio de tantos outros fatos sem importância.

Núcleo de humor #sqn

Sob o comando de Miss Lauren ( Betty Gofman ) a Casa de Repouso com seus hóspedes maluquinhos da terceira idade era a aposta do folhetim para fazer o público rir. O núcleo não vingou. E nem tinha como, já que estava mais para os piores quadros do humorístico “Zorra Total”. Tanto que acabou sendo “esquecido” e parou de aparecer com frequência nos últimos meses.

Tudo ao mesmo tempo agora

Depois de meses arrastando a novela, com praticamente nenhum acontecimento marcante, nos últimos tempos a novela perdeu a linha e, dá até pra dizer que deixou o estilão Maneco de lado. Felipe quase mata uma criança por atendê-la embriagado, pega fogo na casa de Jairo com a pequena Bia ( Bruna Faria ) dentro, Laerte desafia André ( Bruno Gissoni ) e o rapaz quase se mata... Fazer tudo acontecer de uma vez? Não, isso não funciona.

Torcer por quem?

Virgílio ( Humberto Martins ) dá surra em Laerte. Helena deixa de falar com Luiza. Jairo enfia a mão em Nando ( Leonardo Medeiros ). Felipe enche a cara. Alice (Erika Januza) resolve se tornar policial. Cadu ( Reynaldo Giannechini ) flerta ao mesmo tempo com Silvia ( Bianca Rinaldi ) e Verônica (Helena Ranaldi)... e aí, no meio de um monte de ações incertas dos personagens, para quem devemos torcer? Pela felicidade de Shirley com Laerte? Para que Alice se torne uma grande policial e consiga prender muitos bandidos? Para que Juliana, enfim, se afaste de Jairo e fique com Nando? Fica muito difícil torcer para personagens tão instáveis e sem carisma. E para que acompanhar uma novela em que não torcemos por ninguém?

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