O sucesso traz a felicidade? De um lado estão o reconhecimento do público, a conta bancária alta e a idolatria dos fãs; de outro, as críticas, a invasão de privacidade e a falta de liberdade. Veja quais são as questões que perturbam e viram um pesadelo para os famosos

Você entrou para o hall da fama. O circo está armado, as luzes estão acesas, o picadeiro é todo seu. As atenções estão voltadas para você, mesmo quando você quando não quer, mesmo quando está fugindo dos holofotes. Quem te reconhece fica ligado em você: no que diz, em com quem anda, no que faz. A dúvida é: será que você tem vocação para ser famoso?

"Vivemos em uma sociedade do espetáculo, e quanto mais você corresponde às expectativas medianas da sociedade, mais célebre você fica. O indivíduo não fica célebre porque é excepcional, ele fica célebre porque traduz os anseios da mediania. Ele representa, encarna, e é a projeção da média." É assim que o psicólogo professor doutor Jacob Goldberg define uma celebridade, cujas angústias ele conhece intimamente. "Sou procurado por famosos com várias questões. O principal é a ansiedade extrema e sem limite. Uma ambição que perturba, que causa insônia, manifestações físicas de mal estar que não passam", diz ele. "A segunda é o medo de ser desmascarado. Cansei de ver famoso sentar aqui e dizer que é uma farsa. E, em último caso, a invasão da privacidade."

Cansei de ver famoso sentar aqui e dizer que era uma farsa. E na verdade ele não é uma farsa, é um artista que interpreta um papel. No momento em que confunde isso, ele entra em crise." (Jacob Goldberg)

Goldberg defende que são poucos os famosos que se incomodam de fato com a falta de privacidade, que a maior parte adora ser reconhecido. Quem diz o contrário está fazendo charme. Não é a posição do padre mais popular do Brasil, Marcelo Rossi , que desabafou em entrevista recente ao "Fantástico", da Globo, sobre o desânimo de sair de casa e se deparar com fotos suas nas redes sociais. "Perdi todas as liberdades necessárias. Por exemplo, qualquer coisa que eu fizer errado hoje, todo mundo tem celular. Então, uma foto vai estar na internet, vai estar em algum lugar", disse ele.

Jacob Goldberg
Facebook/Reprodução
Jacob Goldberg

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Para comprovar sua tese, Goldberg, que já trabalhou com inúmeros famosos, como Ayrton Senna , e ainda hoje tem muitos nomes e sobrenomes conhecidos em sua lista de pacientes, usa uma das celebridades mais poderosas e queridas do público:  Roberto Carlos .

Segundo ele, o cantor mais popular do Brasil não é nenhum virtuoso. Pelo contrário, Roberto teria tanto sucesso por ser de fácil digestão. "Ele é unanimemente uma celebridade. Só que se você parar para prestar atenção, tanto as letras quanto a interpretação dele são totalmente medianas. Ele não é um cantor extraordinário, mas também não é medíocre", diz ele, que aponta uma única passagem da carreira do cantor como sendo fora da curva.

"O único verso dele de que consigo me lembrar é aquele que diz 'que tudo mais vá para o inferno', e, não por coincidência, esse é um trecho que ele renega. Com esse verso, ele saiu da mediania, e a sociedade não aceita um comportamento desse. Ele justifica essa negação dizendo que é TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), mas para mim não é. Isso é uma intuição de como se manter famoso. Se ele levasse a vida nos moldes dessa frase, aconteceria com ele o que aconteceu com Raul Seixas, que morreu enlouquecido. Esse sim era um indivíduo extraordinário", diz ele sobre o cantor.

OS DOIS LADOS DA MOEDA

O famoso vive sob pressão. Claro que a fama traz louros e favorecimentos, mas viver sob constante escrutínio também pode ser uma carga mais pesada do que alguns conseguem carregar. Roberto Carlos se dá muito bem com a sua fama, mas algumas celebridades se deixaram vencer pela constante expectativa do público.

Exemplos recentes são Adriana Esteves , que ficou profundamente deprimida após sofrer críticas por sua atuação na novela "Renascer" (1993), da Globo, e Ana Paula Arósio , que pediu afastamento da novela "Insensato Coração" (2011), também da Globo, quando as gravações estavam já em andamento. Adriana Esteves superou a má fase da carreira e voltou gloriosa, fazendo com sua Carminha, de "Avenida Brasil", um dos maiores sucessos da história recente da TV brasileira. Ana Paula continua em crise com sua própria celebridade e se isolou no interior de São Paulo, onde até hoje permanece. "O indivíduo tem normalmente uma crise de ansiedade, uma ambição perturbadora e um medo de ser desmascarado", explica Goldberg.

Em março deste ano, Gusttavo Lima , um dos grandes nomes do mercado sertanejo e que ficou mundialmente conhecido com a música "Balada Boa", aquela do "Tchê Tchê Rere", declarou em um show que estava cansado, que não aguentava mais seguir com a carreira. Hoje, oito meses depois, ele conversou com o iG e explicou o que o levou para aquele momento de estafa.

"Acredito que a fama é uma consequência de quando você faz um trabalho e tem ele reconhecido. Sempre trabalhei bastante para que isso acontecesse, para conquistar o meu lugar, mas sempre achei a estrada muito solitária. Pensei em desistir, sim, não por medo da fama, mas por conta do cansaço que estava sentindo."

Sempre trabalhei bastante para conquistar o meu lugar, mas sempre achei a estrada muito solitária. Pensei em desistir, não por medo da fama, mas por conta do cansaço que estava sentindo." (Gusttavo Lima)

Cantor mais experiente que ele teve crise parecida em pleno palco. Luciano, da dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano, anunciou durante show em Curitiba em outubro de 2011, para surpresa de seu irmão Zezé e desespero de sua assessora, que estava se despedindo do público e que planejava encerrar a carreira durante a turnê de navio "É o Amor". Falou ainda que Zezé seguiria carreira solo e que estava desfeita a dupla depois de 20 anos de carreira.

Foi um bafafá de efeito nacional. Minutos depois a cena já estava no YouTube. Depois desse discurso, Luciano abandonou Zezé sozinho no palco e se dirigiu ao hotel, onde consumiu uma mistura de uísque com Rivotril que o levou para o hospital. Enquanto ainda estava internado, a família e a assessoria da dupla desmentiram as intenções de Luciano e minimizaram o efeito de seu "surto". "Ele teve diarréia", informaram eles.  

Em entrevista ao iG, Goldberg esclarece o que forma a nuvem escura sobre os famosos. Entenda as maiores angústias das celebridades com o psicólogo que se tornou especialista em famosos ao tratar grandes nomes e analisar novelas e programas da emissora mais famosa do Brasil, a Rede Globo.

iG: Quando um famoso chega ao seu consultório, quais são as reclamações mais comuns?
Jacob Goldberg: O principal é a ansiedade extrema e sem limite. Uma ambição que perturba, que causa insônia, manifestações físicas de mal estar que não passam. Eu tenho um caso aqui de uma das pessoas mais famosas do Brasil, que simplesmente queria focar sua carreira em Hollywood. Ela veio trabalhar essa fama toda que iria enfrentar, só que tinha um problema: ela não falava inglês. Olha como a ambição pode ser sem limite. Sem dúvida uma pessoa dessa iria entrar em crise. A segunda é o medo de ser desmascarado. Cansei de ver famoso sentar aqui e dizer que é uma farsa. E na verdade ele não é uma farsa, ele é um artista que interpreta um papel. Só que no momento em que confunde isso, ele entra em crise. E ao contrário do que muitos pensam, em último caso, mas último mesmo, a invasão da privacidade. A maior parte adora ser reconhecido. Isso é charme de quem diz que não gosta.

iG: Por que as pessoas buscam a fama? O que elas querem?
Jacob Goldberg:  A minha tese vai na contramão do conceito de marketing. O individuo não fica celebre porque é excepcional, ele fica celebre porque traduz os anseios da mediania. Ele representa, encarna, e é a projeção dos medianas. Um exemplo é o Roberto Carlos. Ele é unanimemente uma celebridade. Só que se você parar para prestar a atenção, tanto as letras quanto a interpretação dele é totalmente mediana. Ele não é um cantor extraordinário, mas também não é medíocre. As letras dele não são poeticamente excepcionais. 

iG: Fama é igual a poder?
Jacob Goldberg: Olha, os famosos passam a ter muito poder sim, mas um poder diferente. Eu costumo falar que existem as “cerebridades”, ou seja, indivíduos absolutamente vazios, inócuos e medianos, mas fabricados. Eles não têm cérebro, mas tem ‘cerebridade’. Hoje, alguém ir a um programa de televisão e cuspir na cara de outro o torna famoso imediatamente. Isso é poder? E isso não se reflete só no mundo artístico. Acredito que um dos maiores anseios de um criminoso brasileiro hoje é ter fama. Qualquer bandido de periferia troca qualquer fortuna em dinheiro por um minuto de fama. Tanto é que os heróis das penitenciárias são os indivíduos mais perversos.

iG: O que acontece na cabeça de uma pessoa quando vira celebridade do dia pra noite?
Jacob Goldberg: A maioria tem uma somatória de narcisismo e onipotência. Tenho um paciente famoso, de que não vou citar o nome por questões éticas, que me disse: ‘Sou capaz de comer qualquer mulher do mundo’. É um claro surto de onipotência. Nesse momento eu retruquei e tentei colocar um limite nele dizendo: ‘Inclusive a sua mãe?’. Eles presumem que exista um poder infalível. Acham que se bastam sozinhos. Um dos elementos que entram nesse momento é o uso de droga. O indivíduo tem que ser realimentado em termos químicos. Ele precisa potencializar a energia, porque ninguém tem tanta energia o dia todo.

É uma somatória de narcisismo e onipotência. Eles presumem que exista um poder infalível, acham que se bastam sozinhos." (Jacob Goldberg)

iG: E quando entra em depressão?
Jacob Goldberg: A depressão é muito bem-vinda para um famoso. Em geral, eles entram em depressão quando entram em contato com alguma informação do mundo real que os frustre. Se souber aproveitar, é um momento de reencontro com ele mesmo; se não, adoenta.

iG: E qual o tratamento para este momento de depressão?
Jacob Goldberg: Você tem que fazer um esforço psicanalítico para que essa pessoa reconquiste o ‘eu’ dela e tentar em cima disso explorar em seu próprio favor os seus talentos verdadeiros.

iG: E após o tratamento, uma pessoa volta 100% à normalidade?
Jacob Goldberg: Sim, claro. Se ela conseguir equilibrar a demanda social com a sua realidade interna, ele não só consegue voltar, como vai ter muita plenitude e satisfação pessoal.

iG: A pessoa que não volta para os holofotes pode ser considerada uma “perdedora”?
Jacob Goldberg: Ninguém consegue viver um personagem sempre, mas tem pessoas que desistem deste personagem. Outras convivem bem, mas é uma opção. Não diria uma perdedora.

iG: O senhor acha que existem famosos 100% verdadeiros?
Jacob Goldberg: Acho. Tenho vários exemplos, inclusive de políticos. Por exemplo, José Dirceu e Roberto Jefferson, eu acho que eles dois, dentro das suas realidades, são pessoas verdadeiras. Para o bem e para o mal, sem defender ninguém. Eles estão no jogo, entram com tudo, e pagam o preço alto por isso. O preço às vezes é a derrota, no caso a cadeia para os dois. No fundo, as pessoas mais verdadeiras são arrebatadas constantemente pelo público, mas ficam na história, ao contrário dos ‘famosos vaselinas’, que ficam um bom tempo na fama, mas caem e são esquecidos.

iG: A fama é uma doença?
Jacob Goldberg: A fama como sedução é uma perversão, uma doença, mas a fama como missão é uma cura. Quando você assume que busca a fama para realizar um sonho, você cura as suas dificuldades e deficiências.

iG: Por que as celebridades ficam tão irritadas com a invasão de privacidade?
Jacob Goldberg: Porque em geral, nesse momento ela tem a percepção de quem está sendo homenageado não é ela como pessoa, e sim a mentira que ela criou. Se sentem muito machucadas e desesperadas. Ninguém quer saber da Mariazinha, mas essa Mariazinha quer aparecer. É um conflito muito violento.

iG: O que o senhor acha da televisão como uma estrutura famosa?
Jacob Goldberg: A Globo é tipicamente o caso da velha que acha que ficar fazendo cirurgia plástica vai torná-la jovem. Uma das críticas que vem abalando a Globo em geral, em especial o ‘Fantástico’, é que até certo momento histórico o Brasil se sentia um país inferior, e então tudo que acontecia no mundo era ‘Fantástico’, inacreditável. Quando o Brasil começou a tomar consciência da sua importância, nada mais é fantástico. O certo seria mudar a estratégia e o nome do programa para ‘Normalidade’, ai talvez eles se recuperassem a audiência. Hoje não dá para ficar dizendo que pegar um avião e ir para a Tailândia é fantástico.

iG: O que o senhor acha do “Big Brother Brasil”?
Jacob Goldberg: Outra coisa totalmente ultrapassada. Eu acho que isso dura no máximo mais um ano. Na medida em que a sociedade passa a ter acesso à cultura e à livre discussão da sua realidade, essa estrutura do espetáculo, da fama artificial, cai por terra. É muito comum essas celebridades caírem no ridículo.

iG: E qual é um bom exemplo de programa?
Jacob Goldberg: O programa ‘Pânico’. Ele desmistifica as farsas da sociedade brasileira, e o maior serviço de consciência social deles é fazer humor mesmo. Quem diz que ele é cruel está mentindo. Cruel são os programas políticos e policiais. Cruel é um político ir à televisão, onde dão espaço, fazer discurso sobre honestidade e honra sendo um ladrão.

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