Na TV, público ganhou Edith, de "Amor à Vida", e no palco, os cariocas têm a chance de rir com a louca Wanda da peça "Vênus em Visom": "Fiquei com cara de atriz de drama"

“Tá gravando? Ah, tá. Só para saber, porque eu falo rápido”. Bárbara Paz  tem o raciocínio veloz mesmo, se mexe de minuto em minuto, bagunça o cabelo, fixa o olhar em um ponto distante, faz silêncio e depois, num sopro, retoma a frase com uma gargalhada gostosa. Bárbara é uma explosão: de mulher, de atriz, de transformação. Na TV, o público ganhou de presente Edith, no ar em “ Amor à Vida ”. No palco, os cariocas têm a chance de rir com a louca Wanda da peça “Vênus em Visom”, uma adaptação do texto de David Ives   em cartaz no Teatro Leblon, a segunda casa da atriz atualmente. E foi lá que ela bateu um papo sincero com o iG , sem sapatos e tomando um café. Em pauta? Bárbara mulher, atriz e camaleoa.

“Eu tenho muita personalidade. Por mais que tentem me transformar em outra coisa, em um produto com rótulo, eu vou ser sempre acima disso tudo, porque eu tenho uma coisa dentro de mim de não matar quem eu sou, a minha essência seja ela qual for, sabe?”, disse, apontando para o coração. Bárbara é dramática e romântica, é preto na maquiagem e branco na pele alva, dominadora e dominada. Sadomasoquismo, aliás, está presente no espetáculo, que estrela com Pierre Baitelli . Na trama, ele é um diretor arrogante e ela uma atriz aparentemente idiota. Ela se atrasa para um teste, mas o convence e ganha uma chance. Começa, então, um jogo de sedução e domínio, de homem e mulher.

Sou muito romântica. Admiro muito essa coisa do masoquismo, tenho um fetiche de olhar. Sou mais voyeur do que sentir dor, sabe?"

Internamente, Bárbara equilibra bem todas as nuances com muita terapia e teatro. Adianta que ciúmes e insegurança continuam sendo sua maior fraqueza, mas dá um banho de maturidade quando fala sobre idade e maternidade: “Eu não sinto que tenho corpo de uma mulher de 40 anos. Para mim é como se eu tivesse 28, 29 anos… A única coisa que me faz parar para pensar é o filho. Se eu quiser engravidar, eu preciso parar para pensar nisso. Só. O resto… Nada”, falou a atriz, que é casada com o diretor Hector Babenco , de 67 anos.

Vaidosa, ela fica com um olho na entrevista e outro nos cliques do fotógrafo.“Se as fotos que ele está tirando não ficarem boas, eu vou matar ele”, dispara, com uma contagiante gargalhada. Ao mesmo tempo, essa neura é quase zero quando o assunto é seu corpo. No palco, Bárbara fica basicamente de calcinha e sutiã. Quando incorpora sua Vênus, veste uma peruca ruiva e deixa os seios à mostra. E tudo bem? “Tranquilo”, garantiu. “Eu detesto sutiã. Por enquanto, eu ainda não preciso. Eu sou bem desencanada com meu corpo, até demais. Sempre fui. Talvez, quando eu chegar nos 60, 70 anos, eu precise colocar…”, brincou novamente. Confira mais no bate-papo abaixo:

Bárbara Paz equilibra bem todas as nuances com muita terapia e teatro
Ricardo Ramos
Bárbara Paz equilibra bem todas as nuances com muita terapia e teatro

iG: A peça “Vênus em Visom” traz um jogo de sedução, né?
Bárbara Paz:   É uma comédia que foi sucesso na Broadway e não é só um jogo de sedução. Ela vai se transformando no decorrer do tempo. É quase uma peça dentro da peça. É a história de uma atriz que chega muito atrasada para fazer um teste com um diretor e ela é totalmente nada a ver para o papel. Ela tem mais cara de figurante, mas vai convencendo o diretor até fazer o teste. E ele percebe que ela tem alguma coisa, que ela é atriz. Ela começa a dominar esse homem dentro do teste e vai invertendo o jogo.

iG: Como o sadomasoquismo entra na história?
Bárbara Paz:   O texto que eles estão lendo no teste é do Leopold von Sacher-Masoch , o cara que inventou o masoquismo. É um texto de época, de 1870, e a atriz está sendo testada para essa adaptação. Dentro dessa peça de época que começa o jogo de sedução. Quem domina, quem é dominado, quem apanha, quem gosta de apanhar. A gente vai e volta de um personagem para outro o tempo inteiro. Para uma atriz e um ator é uma delícia de trabalho. É puro teatro.

Fiquei com cara de atriz de drama, mas poucos sabem que eu comecei minha carreira no circo"

iG: Mas você já experimentou algo do tipo?
Bárbara Paz:   Não, nunca. Sou muito romântica. Admiro muito essa coisa do masoquismo, tenho um fetiche de olhar. Sou mais voyeur do que sentir dor, sabe? Mas muitas mulheres acabam se tornando masoquistas. A própria Edith, minha personagem na novela, é total masoquista. Não é só levar uma chicotada de verdade. É você levar chicotada da vida, ser humilhada por um homem. Tudo isso é masoquismo. Eu queria ter feito laboratório em uma casa de sadomasoquismo de São Paulo, mas como a gente ensaiou no Rio, não foi possível. E aqui a gente não descobriu nenhuma. Sei que é tipo uma religião, é levado muito a sério. Eu conheço pessoas que frequentam e estudei muito o negócio. Ninguém faz aquilo brincando, é quase um culto.

iG: E como entra o lance da comédia?
Bárbara Paz:   Pois é, fiquei com cara de atriz de drama, mas poucos sabem que eu comecei minha carreira no circo. Quando começamos esse projeto o Hector falou: ‘Eu quero resgatar esse palhaço que tem aí dentro’. Com isso, fomos construindo essa brincadeira. Quem assiste até acha que é fácil, mas é uma brincadeira bem difícil.

Muitas mulheres acabam se tornando masoquistas. A própria Edith (de "Amor à Vida") é total masoquista. Não é só levar uma chicotada de verdade. É você levar chicotada da vida, ser humilhada por um homem"

iG: Na estreia, o Hector Babenco disse que você é um bicho que se doma, e você rebateu dizendo que é indomável. Por quê?
Bárbara Paz:   Ah, porque eu sou indomável (risos). Eu tenho muita personalidade. Por mais que que tentem me transformar em outra coisa, em um produto com rótulo, eu vou ser sempre acima disso tudo, porque eu tenho uma coisa dentro de mim de não matar quem eu sou, a minha essência seja ela qual for, sabe? Eu sou dirigida, mas também mostro o que eu posso apresentar. Eu sou comandada, mas eu posso te mostrar ‘ó, tem esse caminho também’. Eu não sou uma atriz que não te traz nada. Eu tenho que trazer alguma coisa porque senão estou vendida. Eu sou uma pessoa que tem muita vivência, e tenho muitas coisas para oferecer para os diretores. Também falo quando não sou boa em alguma coisa. Por exemplo, no canto. É uma fraqueza minha, coisa de trauma, tal…

iG: Você já teve que cantar no teatro?
Bárbara Paz:   Sim, já… Tudo em comédia. Eu brinquei com esse desafinado que eu acho que tenho. Foi legal, no final das contas. Eu sempre tirei um sarro do meu ridículo. Quando eu trabalhei com a companhia Parlapatões eles me colocavam para cantar o tempo inteiro por causa disso.

iG: Podemos dizer que são várias Bárbaras dentro de uma?
Bárbara Paz:   Várias. E só uma, na verdade. Vivem em nós inúmeros, né? O ( Fernando) Pessoa já dizia. Acho que dentro de um trabalho você tem que mostrar todos esses “eus” para o diretor domar aquilo e poder dizer o que ele quer. E óh, nem ele sabe. Eu conheço bem a direção do Hector, e nem ele sabe o que quer. Se o ator não trouxer nada, esquece. “Hell” foi totalmente construído assim, em parceria.

Não sinto que tenho corpo de 40. Para mim, é como se eu tivesse 28, 29 anos…”

iG: Na TV você consegue ter essa parceria e dar sugestões?
Bárbara Paz:   Na televisão a gente precisa chegar mais pronta, precisa treinar mais em casa. Mas alguns diretores - principalmente em “Amor à Vida” - gostam de dirigir ator. Temos o Mauro Mendonça Filho , o Wolf Maia … Eles direcionam a entonação da cena, a direção, como se a gente estivesse em um palco. Por isso que essa novela está tendo performances maravilhosas, porque eles estão permitindo que a gente voe. O Mateus (Solano) ,, por exemplo, me disse que quando descobriu que o Félix era teatral, ele relaxou e dominou.

iG: Essa sua relação com a direção, no caso sua relação com o Hector Babenco, é influenciada por existir também um casamento do lado de fora do teatro?
Bárbara Paz:   Não… Eu tenho uma relação muito boa com quem eu trabalho e com quem me relaciono. Claro que em algum momento acaba misturando tudo porque a gente se conhece muito. Eu sei o motivo de ele agir de determinada forma e ele sabe o meu motivo também. Ou quando eu estou insegura, ele sabe, e vice-versa. Acaba misturando, mas no fundo é positivo, porque ele sabe como me acessar mais fácil. Ele sabe onde precisa mexer para encontrar o personagem mais fácil. Eu enxergo o teatro como minha casa. Chego mais cedo, me concentro… O teatro é sagrado para mim, e tudo que envolve esse universo também é sagrado e eu tenho muito respeito. Quando tem alguém acima de você regendo tudo isso, você precisa ter respeito e admiração.

Bárbara Paz: 'Sou bem desencanada com meu corpo, até demais. Sempre fui'
Ricardo Ramos
Bárbara Paz: 'Sou bem desencanada com meu corpo, até demais. Sempre fui'

iG: Você já dirigiu algum projeto?
Bárbara Paz:   Já, mas não teatro. Eu adoro dirigir, sou uma ótima diretora (risos). Sou brava. Eu dirigi um curta-metragem em 2006 chamado “Minha Obra”, e fiz dois anos de programa no Canal Brasil, chamando “Curta na Estrada”. Para o teatro, eu tenho um projeto para adaptar o livro “Perácio – Relato Psicótico”, de Bráulio Mantovani. É uma montagem só com homens.

iG: A figura masculina é uma coisa que te rodeia, não?
Bárbara Paz:   Muito. Era para eu ser menino quando nasci, mas fui menina. Eu fui a quarta filha. Minha mãe já tinha três meninas, era para eu ser o homem certo. Mas não foi, nasceu mais uma loirinha. E olha só a curiosidade que o Marcelo Aquino   (escritor) descobriu: se você juntar meu nome, fica “barba-rapaz”. Sacou (risos)? Eu tenho isso tudo bem equilibrado em mim, mas é uma coisa forte.

Sou insegura com tudo na vida. Meu trabalho, relacionamento… É uma coisa que, já indo para a psicanálise, vem da infância, da perda muito cedo dos pais, de perder muitas coisas ou de não ter"

iG: Em 2012 você deu uma entrevista para o iG e na pergunta “aonde você perde o controle?”, você respondeu que era muito ciumenta e insegura . Ainda é? E você é insegura com o quê?
Bárbara Paz:   Continuo. Sou insegura com tudo na vida. Meu trabalho, relacionamento… É uma coisa que, já indo para a psicanálise, vem da infância, da perda muito cedo dos pais, de perder sempre muitas coisas ou de não ter. Isso gera uma insegurança muito grande. Eu sempre acho que você vai perder a pessoa que está do seu lado ou algo que você conquistou. É uma coisa que precisa ser trabalhada, né? Ao longo dos anos eu vou trabalhando, mas ainda sinto muito. Essa é minha fraqueza. Tem umas pessoas que eu conheço que são tão seguras… Eu fico me perguntando de onde vem essa segurança toda. Tem uma injeção de segurança aí? Porque eu queria colocar na veia (risos). Por um lado isso é bom porque me constrói um ser humano sem tantas certeza. Eu sou cheia de incertezas.

iG: Na estreia de “Vênus em Visom”, a Rosamaria Murtinho fez um comentário sobre seus seios, dizendo que ela vê você trocar de roupa todos os dias e que a luz não favoreceu, porque você tem seios lindos. Essa cena foi uma iniciativa sua?
Bárbara Paz:   A Rosinha é uma figura, eu a amo, de paixão. Quando ela me falou isso, eu até brinquei: “Se esse for o grande problema da peça, está tudo certo” (risos). Sobre a cena, foi tudo improvisação de ensaio. Acho que teatro não tem essa… O corpo está ali para servir o personagem. Foi uma improvisação minha. O diretor poderia não ter gostado, mas ele gostou.

iG: Como você lida com sua nudez na vida?
Bárbara Paz:   Tranquilo. Ando sempre nua por aí (risos).

iG: Aliás, tem uma foto antiga sua saindo de um restaurante com um sutiã pendurado para o lado de fora da bolsa…
Bárbara Paz:   Eu não vi que estava com o sutiã pendurado. Eu sai de casa, peguei a bolsa correndo e acho que joguei o sutiã dentro da bolsa. Daí, saindo do restaurante, sem ver paparazzi nenhum, meu sobrinho falou: “tia, acho que tem um sutiã pendurado na sua bolsa”. Daí, eu vi o paparazzo e babou tudo. Foi muito engraçado, eu falei que era uma ação de marketing para uma marca de lingerie (risos).

iG: As pessoas começaram a reparar em looks seus sem sutiã…
Bárbara Paz:   Mas eu nunca uso mesmo. Detesto sutiã. Por enquanto, eu ainda não preciso. Eu sou bem desencanada com meu corpo, até demais. Sempre fui. Talvez, quando eu chegar nos 60, 70 anos, eu precise colocar (risos)...

Detesto sutiã, nunca uso. Por enquanto, eu ainda não preciso. Eu sou bem desencanada com meu corpo, até demais"

iG: Você está com 39 anos. Já bate um nervoso ao pensar nos 40 anos?
Bárbara Paz: Ainda não. Só essa coisa de ter filho, que começa a ter um prazo. Mas eu não estou nessa loucura. Se tiver que ser, vai ser. Antigamente, você com 40 anos já era uma velha. Hoje, as mulheres estão lindas. Eu me lembro que quanto eu tinha 15 anos, parecia que eu tinha 12. E eu chorava demais. Quando eu tinha 20, parecia que eu tinha 15 e nenhum homem olhava para mim! A minha mãe me falava: “calma, minha filha, quando você fizer 30 você vai dar risada, vai adorar”. E realmente, ela tinha razão, porque eu não sinto que tenho corpo de uma mulher de 40 anos. Para mim é como se eu tivesse 28, 29 anos… A única coisa que me faz parar para pensar é o filho. Se eu quiser engravidar, eu preciso parar para pensar nisso. Só. O resto… Nada.

iG: E você quer engravidar, sentir a mudança corporal da gravidez?
Bárbara Paz:   Sim, acho que sim. Eu acho que seria uma boa mãe. Não gosto é da pressão, das manchetes, etc. A vida vai me dar o que tem que me dar. Se é para ter um filho, eu vou ter. Eu sempre gostei de criança. Já tenho quatro afilhados, vários sobrinhos… Tenho crianças espalhadas pelo mundo que são minhas também, sabe? Se vier um meu, ótimo. Se não vier…

iG: Vamos falar sobre a Edith, de "Amor à Vida". Esse bate-bola com o Mateus Solano, a questão da homossexualidade do Félix e esse casamento torto deles só é possível com uma relação de backstage bem sólida, né?
Bárbara Paz: Total. A gente está muito feliz. Primeiro, porque a novela está dando certo, e quando isso acontece é motivo de alegria. E é um tema muito contemporâneo que demorou muito para alguém falar a real sobre ele. A homossexualidade era muito tratada com estereótipos. É a primeira vez que está falando de verdade sobre isso, como a família reage, como acontece. O Mateus está dando um show, porque o personagem foi escrito para ele. Fazer essa parceria com ele para mim é incrível. A gente se dá muito bem, tem o jogo muito forte.

A homossexualidade era muito tratada com esteriótipos. É a primeira vez que está falando de verdade sobre isso, como a família reage, como acontece. O Mateus (Solano) está dando um show, porque o personagem foi escrito para ele"

iG: Dá para defender a Edith de alguma forma?
Bárbara Paz:   Dá. Ela realmente ama o Félix nessa loucura toda do masoquismo. Ela tem o passado dela, que ele condena, ela defende o que é dela, mas sabe aquele amor doente, louco, bandido? É quase uma doença essa paixão por ele.

iG: Mas como mulher mesmo ela não se sente desejada, porque ele não gosta da coisa…
Bárbara Paz:   Mas será também que ela não gosta disso? Eu tenho várias amigas minhas que gostam de gays. Acho que não envolve só homossexualidade. Eu acho que a Edith admira esse jeito dele. Ele tem alguma coisa que atrai ela. Agora que ele vai expulsar ela de casa, ela vai ficar no chão e vai mudar o jogo de novo. Ainda tem muita coisa para descobrir do passado dela… E também dele!

Serviço:
"Vênus em Visom"
Teatro do Leblon
Rua Conde de Bernadotte, 26, Leblon - Rio de Janeiro
Quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 20h

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.