Em cartaz em São Paulo, ator faz balanço da carreira de mais de 30 anos, fala que se irrita quando falam do Nino e aponta diferença entre televisão e teatro: "Faço TV para sobreviver"

Após mais de 30 anos de carreira, Cassio Scapin  volta ao palco com uma novidade: além de ator, ele agora é escritor. Em cartaz com a peça "Eu não dava praquilo", em São Paulo, Cassio, que dá vida aos pensamentos e histórias de Myrian Muniz – atriz de muito talento e personalidade forte, consagrada no teatro e no cinema, que morreu em 2004 –, contou que seria muita pretensão ele se denominar coautor da obra, escrita por ele e Cássio Junqueira. "A gente não inventou essa história, apenas organizamos os pensamentos da Myrian. O resultado foi uma comédia dramática, que faz com que as pessoas saiam daqui pensando no que estão fazendo da vida delas."

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Porém, apesar de uma carreira recheada de personagens fortes e complexos, e inúmeros prêmios, foi na pele de Nino, do folhetim "Castelo Rá-Tim-Bum", da TV Cultura, que o ator ficou conhecido do público. Mesmo sendo reconhecido por onde passa, o personagem infantil está longe de ser um dos assuntos favoritos de Cassio. "O 'Castelo Rá-Tim-Bum' formou algumas gerações, e por isso é bom ser lembrado por esse personagem. Mas me irrita quando retomam o Nino e batem na mesma tecla sempre que falam comigo."

Não gosto de fazer bobagem pela bobagem. Teatro pode divertir, ser engraçado, mas tem função de puxar o pensamento

Nesse caso, vamos mudar de assunto. Diferente dos palcos, território onde é consagrado, na TV Cássio fez poucos trabalhos, sendo o último o vilão Sereno em "Ribeirão do Tempo", na Record, emissora que o mantém sob contrato. "Os personagens de televisão são muito fracos. A densidade deles é de dois dedos, e na horizontal, bem longe da vertical. A televisão não suporta um discurso aprofundado, e eu só faço por sobrevivência." Mais: Cássio diz que considera o seu um "rosto antigo", típico de novelas de época.

No bate papo com o iG , o ator fez um balanço de sua trajetória, lamenta a falta de educação das pessoas e relembra que tinha que tomar calmantes para entrar em cena.

iG: Está é a sua estreia como escritor. De onde surgiu essa vontade?
Cassio Scapin:   Olha, é até uma presunção da minha parte dizer que sou autor, ou coautor, porque na verdade é quase um roteiro. O que eu e Cássio Junqueira fizemos é uma compilação dos pensamentos da Myrian Muniz. A gente não inventou essa história, apenas organizou. O resultado foi uma comédia dramática que faz com que as pessoas saiam daqui pensando no que estão fazendo da vida delas. A Myrian sempre questionou para quê servem os caminhos que você escolheu para a sua vida. É uma lição de vida.

iG: Como ator, foi mais fácil ou mais difícil construir a personagem?
Cassio Scapin:   Foi mais difícil, porque eu conheci a Myrian. Já tinha uma dificuldade por ser um homem fazendo uma mulher sem maquiagem, sem peruca, sem nada feminino. Então o medo foi de fazer com que o pensamento dessa mulher se fizesse presente sem ser uma caricatura, uma imitação.

iG: E você conseguiu?
Cassio Scapin:   Acredito que sim. O Jô Soares veio assistir ao espetáculo e me disse que quem conheceu a Myrian, a viu no palco.

Cassio Scapin está em cartaz com o espetáculo
André Giorgi
Cassio Scapin está em cartaz com o espetáculo "Eu não dava praquilo", em São Paulo

iG: Você sempre foi muito ligado ao humor, porém nunca um humor banal, sempre com um pensamento reflexivo. Você acha que o humor pelo humor não é suficiente?
Cassio Scapin:   Não gosto de fazer bobagem pela bobagem. O teatro pode divertir, ser engraçado, mas ele tem uma função de puxar o pensamento da plateia. É preciso sempre fazer as pessoas sairem com algum questionamento sobre a função dela na sociedade.

iG: Você tem um histórico de personagens que existiram. Por que sempre gostou de contar história de pessoas reais?
Cassio Scapin:   Gosto de contar histórias e localizar essas pessoas no tempo, com costumes e comportamentos de uma determinada sociedade. Acidentalmente acabei fazendo algumas pessoas, como Jânio Quadros, Ary Barroso, Santos Dumont, todos de uma mesma época. Tenho uma cara um pouco antiga, então sou útil para esse nicho de personagens.

iG: E como é subir no palco sozinho, em um monólogo?
Cassio Scapin:   Esse é meu quarto monólogo, e dou muita sorte, porque ganhei prêmios com todos eles. A parte difícil é o camarim, porque em elenco grande tem uma certa farra atrás das cortinas, sempre tem uma história boa, e no monólogo é você sozinho. Não dá para combinar nada com ninguém. Não há o feedback do colega de cena.

iG: Você consegue mensurar o cansaço de segurar um espetáculo sozinho?
Cassio Scapin:   Nenhum cansaço. Pareço um dínamo de carro. Vou me autoalimentando do espetáculo. Acho muito mais torturante e exaustivo um dia de gravações para a televisão do que três horas no palco. No palco a energia corre, você está em ação, vivo. Na televisão você fica esperando três, quatro horas para gravar, me dá um desespero que me extingue a energia.

iG: Quando está no palco em o que presta atenção ?
Cassio Scapin:   Em tudo, é um inferno. Teve uma época em que eu era tão tenso, mas tão tenso, que precisava tomar calmante para entrar em cena em um nível razoável. Presto atenção na plateia, na luz, na altura do som, em fiapinhos no chão, no texto que estou falando. Sou muito pilhado.

iG: Te incomoda alguma reação da plateia?
Cassio Scapin:   Sim. A plateia ultimamente foi se deseducando a ir ao teatro, então ela tem uma relação com o espetáculo muito parecida com uma mesa de bar. As pessoas conversam sem problema nenhum. Tem a droga do telefone, que elas atendem, mandam mensagem, então do nada, naquele escuro pula uma luzinha azul na sua cara. 50% do meu trabalho quem faz é a plateia interagindo e recebendo meu trabalho. Se as pessoas não estão conectadas, o meu espetáculo não acontece.

Hoje tem que ser tudo concreto, você vai ao cinema e tem óculos 3D para o peixe pular na cara da pessoa, senão ela não entende a subjetividade daquele peixe

iG: Por que acha que as pessoas se deseducaram?
Cassio Scapin:   Primeiro por culpa dessa necessidade de estar constantemente conectado. A grande dificuldade é que as pessoas se desacostumaram de pensar e perderam o pensamento subjetivo. A culpa disso é da televisão e do cinema, que dá cada vez mais as coisas mastigadas paras as pessoas. Hoje tem que ser tudo concreto, então você vai ao cinema e tem óculos 3D para o peixe pular na cara da pessoa, senão ela não vai entender a subjetividade daquele peixe, muito menos se transportar para o lugar do peixe. A fantasia está se perdendo. As pessoas não pensam mais, elas são criadas e educadas para ser técnicos.

iG: É um dos motivos para você estar um pouco longe da televisão? Acha os personagens fracos?
Cassio Scapin:   Não estou longe não, ainda continuo contratado pela Record. Estou fazendo um especial de Natal agora e ainda tenho projeto de novela para o ano que vem. Mas quanto aos personagens, sim, eles são muito fracos, mas para lá é o que precisa. A densidade de um personagem de televisão é de dois dedos, e na horizontal, bem longe da vertical. A televisão não suporta um discurso aprofundado.

iG: E por que ainda faz televisão?
Cassio Scapin:   Para sobreviver. Eu sei que tem gente que adora fazer televisão e não julgo, mas a grande maioria dos atores faz por sobrevivência.

iG: Te incomoda ver um ator ruim, mas com um rostinho bonito, como protagonista de uma novela?
Cassio Scapin:   Depende. O diretor Roberto Lage diz que o bom ator é aquele que serve ao gênero. Então se aquele rostinho bonito está servindo para a televisão, tudo bem. Me irrita atores ruins querendo se colocar como ator em outras searas.

iG: Você acha que para ganhar dinheiro precisa ser uma celebridade?
Cassio Scapin:   Hoje em dia, a gente tem esse equívoco do culto da celebridade, onde não importa a qualidade do trabalho, mas o quanto de mídia você apresenta. É uma dinâmica avassaladora. Ninguém mais é importante pelo seu trabalho, e sim por sua vida privada. Tem pessoas que têm trabalhos ótimos, muito interessantes, mas a vida privada vem em primeiro lugar. O mercado exige isso. Quem tem a vida preservada, ganha muito menos dinheiro e geralmente tem muito mais dificuldade de sobreviver.

Toda mãe quer ter filho famoso hoje em dia, mas na minha época, atriz era puta e ator era viado

iG: Se ser uma celebridade não te atrai, o que te envaidece?
Cassio Scapin:   Como ator, quando o público vem me assistir e depois me fala: 'nossa, você é outra pessoa'. Me envaidece quando as pessoas não me enxergam. Como homem é a sensação de que eu fiz bem meu trabalho. Não consigo separar uma coisa da outra.

iG: Em que momento descobriu que queria ser ator?
Cassio Scapin:   Já nasci assim. Sempre tive a coisa do ator na cabeça e quando decidi, minha mãe, que também era atriz, não gostou da ideia. Ela foi completamente contra porque naquela época ser ator era uma coisa que as pessoas queriam para si, mas não para seus filhos. Bem diferente de hoje, onde ter um filho ator talvez seja a única esperança de sobrevivência da família, tudo culpa da ideia infeliz de que você pode ganhar dinheiro fácil nessa profissão. Toda mãe quer ter um filho famoso hoje em dia, mas, na minha época, atriz era puta e ator era viado. Mamãe queria que eu fosse médico, engenheiro ou até presidente da república, mas não ator.

iG: Você começou cedo sua carreira, aos 16 anos. Você se lembra quando foram suas últimas férias?
Cassio Scapin:   Essa coisa de férias sem fazer nada eu nunca tive. Quando estou viajando estou me reciclando, estudando, assistindo a espetáculos... Para não dizer que nunca, consegui semana passada ficar cinco dias na marra fora da rotina. Foi ótimo, porque fui para Buenos Aires, na Argentina, e assisti a oito espetáculos.

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