Pai e filho, colegas de trabalho e agora sócios. Em cartaz na peça "Tribos", Bruno e Antonio Fagundes contam que dividiram tudo por igual, até os custos da produção. "Não tem dinheiro pra camareira, nós mesmos lavamos os pratos", diz Bruno

Antonio Fagundes   e Bruno Fagundes  estão juntos de novo no palco, repetindo a experiência iniciada com "Vermelho", em 2012. Desta vez, porém, eles são mais do que pai e filho que contracenam: eles são sócios.

Equívoco pensar que este é apenas o sonho de um jovem ator de 24 anos bancado pelo pai, um dos atores mais conceituados e bem sucedidos do Brasil. Para montar o espetáculo “Tribos”, em cartaz no teatro TUCA, em São Paulo, Antonio e Bruno assumiram riscos iguais e investiram exatamente a mesma quantia. No caso de Bruno, tudo o que ele conseguiu guardar com a temporada de sucesso de "Vermelho".

“Pensamos durante um tempo em procurar ajuda, mas preferimos juntar uma equipe só por paixão e montar a peça. Peguei todo o dinheiro que ganhei com minha primeira peça e coloquei aqui. Meu pai entrou com os 50% que faltavam. Dividimos os custos por igual, e diminuímos os gastos ao mínimo necessário. Nós mesmos fazemos tudo aqui, lavamos os pratos, passamos as roupas. Não tem dinheiro para camareira, não”, se diverte Bruno.

Antonio e Bruno Fagundes em cena na peça 'Tribos'
Divulgação/João Caldas
Antonio e Bruno Fagundes em cena na peça 'Tribos'


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Meu pai tem de profissão o dobro do que eu tenho de idade. Estou fazendo meu trabalho humildemente, na minha, sem levantar bandeira nenhuma. (Bruno)

A cumplicidade de pai e filho criou uma sintonia que você percebe já nos primeiros cinco minutos de conversa. No encontro, Antonio quer saber como foi o dia de Bruno, comenta decisões a ser tomadas sobre o espetáculo, e, para driblar uma gripe que está ameaçando a performance no palco do ator menos experiente, dá um conselho de mestre: “Toma uma dose de uísque que você vai ficar novo.”

Antonio Fagundes: 'Bom é perceber que Bruno é um ator tão apaixonado quanto eu'
André Giorgi
Antonio Fagundes: 'Bom é perceber que Bruno é um ator tão apaixonado quanto eu'

Na peça, um drama familiar escrito pela inglesa Nina Raine e dirigida por Ulysses Cruz , Bruno e Antonio são pai e filho. O personagem de Bruno é o protagonista, um deficiente auditivo, e a partir de sua condição as questões e limitações do ser humano à mercê de preconceitos são discutidas dentro das relações familiares.

Uma premissa interessante e mais: de um lado, o galã de cabelos brancos motivando o público a ir ao teatro, do outro o aprendiz que é um refresco para os olhos de quem está na plateia. O resultado é casa cheia todas as noites. Seja para ver de perto o intérprete de César de "Amor à Vida", ou para pegar no pé da interpretação de seu filho iniciante - e até simplesmente pelo prazer de ir ao teatro-, o público marca presença. 

Veja a seguir o resultado do ping-pong proposto pelo iG : pai e filho responderam às mesmas perguntas, sem que um visse as respostas do outro. 

                                O PAI

                                  O FILHO

iG: Quando você tinha a idade do Bruno, em que pé estava a sua carreira?
Antonio Fagundes:   Quando eu tinha 24 anos, já era ator profissional há sete anos.


iG: Quando você estiver com a idade do seu pai, o que espera ter conquistado?
Bruno Fagundes:   Espero estar exatamente como estou aqui hoje, falando do meu mais novo projeto, com o mesmo entusiasmo e garra que tenho hoje. E ainda não satisfeito.

iG: Quando você está no palco hoje em dia, no que você presta atenção?
Antonio Fagundes:   Presto atenção em tudo. Eu brinco que tem sempre umas 100 coisas para você fazer quando está em cena. Primeiro você precisa dominar o personagem, então tem que prestar atenção no texto, nas marcas e nas intenções daquele personagem. Segundo, você precisa se posicionar em cena, então tem a luz, a relação com o cenário, e com a plateia, que aqui são pelo menos 500 pessoas visivelmente, vendo e reagindo a você. Fora que muitas vezes você ainda tem que se superar sempre. Superar o cansaço da semana, uma dor de cabeça, uma briga com um parente. Tudo que pode enriquecer e até prejudicar você enquanto está em cena.


iG: Quando você está no palco, no que você presta atenção?
Bruno Fagundes:   É muito louco, quando estou em cena é um foco inverso. Eu já fiz essa conta e a cabeça do ator pensa em pelo menos 120 coisas ao mesmo tempo. Então eu presto atenção em tudo, mas o pior é meu ouvido. Eu fico muito ligado, e nem sempre é porque eu quero. Consigo pegar tudo, uma tosse, um bocejo, tudo. Acaba me desestabilizando em alguns momentos.






iG: Que atitudes do público te incomodam?
Antonio Fagundes:   Me entristece mais do que incomoda quando vejo que algumas pessoas vieram ao teatro sem querer. É uma entrega tão grande da gente ali em cima, que uma reação negativa chega a machucar. Principalmente porque é só ter um pouquinho de boa vontade que ela embarca com a gente nessa história. É tão difícil você sair de casa hoje em dia, principalmente para ir ao teatro, que não precisa agir assim quando vai.


iG: O que te incomoda na plateia?
Bruno Fagundes:   Celular, apesar de ser batido, é o que mais me incomoda. Outro dia, um cara deu um bocejo alucinante. Eu até entendo que ele tem direito de estar cansado, de ter sono, mas bocejo não é totalmente involuntário. Você consegue segurar, fazer para dentro ou pelo menos colocar a mão na frente. Isso é uma pura questão de educação e as pessoas têm que guardar para si essas coisas.




iG: O que mudou na sua relação com o Bruno depois que ele se tornou seu colega de profissão?
Antonio Fagundes:   A relação de pai e filho não dá para levar para o palco, senão você interfere na cena, não é bom. Bom pra mim foi perceber que ele era um profissional tão apaixonado por teatro como eu sou. Bruno é muito persistente, dedicado, estudioso e ele segura muito bem tudo que ele conquistou. É muito comum você relaxar um pouco no teatro, uma vez que você repete muito as cenas, porém, assim como eu, o Bruno não se permite relaxar. Se eu quisesse exigir alguma coisa dele como colega, não saberia o que, porque ele faz exatamente as mesmas coisas que eu sempre fiz. Um excelente colega de trabalho.

iG: O que mudou na sua relação com seu pai quando ele virou seu colega?
Bruno Fagundes:   A nossa relação sempre foi muito harmoniosa. A gente sempre foi muito amigo, mas mudou a forma de nos olharmos. Meu pai pode me ver no meu ambiente profissional. Ele acompanhava de fora, como telespectador, mas agora ele me vê como um profissional. Essa peça, por exemplo, é uma escolha minha, e ele confiou em mim e embarcou nessa comigo. Ele me olhou como ator, como profissional.





iG: Como a peça fala de preconceito, existe algum assunto que é difícil tratar, ou que você não gosta de abordar, em família ou com seus amigos?
Antonio Fagundes:   Nunca tive nenhum tipo de censura interna. Às vezes as pessoas evitam algumas coisas, mas eu nunca fui de evitar nenhum assunto. Sou capaz de encarar as coisas com uma certa naturalidade, e sempre vejo tudo de diversos ângulos. Para você viver um personagem preconceituoso, como é o caso deste meu, você precisa entender o preconceito. E entender uma situação te aproxima e faz você reafirmar algumas das suas opiniões.




iG: Como a peça fala de preconceito, existe algum assunto que é difícil...
Bruno Fagundes:   Nenhum. Sou bem livre para falar de qualquer preconceito. O legal dessa peça é exatamente ver que o preconceito está dentro da gente. Tenho um certo preconceito que sofro ao trabalhar com meu pai, que é com relação ao público. Tenho percebido que todo mundo vem aqui para me apunhalar. No final do espetáculo, a gente faz um bate-papo com a plateia, e uma vez um cara me falou exatamente isso: ‘Eu vim aqui para falar mal de você’. Eu tenho um lado romântico e bonzinho que realmente não achava que isso ia acontecer. É óbvio que a comparação é burra. Meu pai tem de profissão o dobro do que eu tenho de idade. Eu estou fazendo meu trabalho humildemente, na minha, sem levantar bandeira nenhuma.

iG: Quais sonhos os cabelos brancos ainda te permitem realizar, ou deixaram de permitir?
Antonio Fagundes:   Eu tenho cabelos brancos desde os 34 anos, então não é uma coisa muita recente. Eu sempre tive uma nostalgia da velhice. Sempre achei que a idade mais avançada é a melhor. É até gozado, porque Cicero, de Roma, já dizia isso. Hoje tenho uma sabedoria, uma força física, um conhecimento maior quando se fala em sonho.


iG: Com o que seus cabelos pretos te permitem, ou não permitem ainda, sonhar?
Bruno Fagundes:   Tenho exatamente esse sabor da juventude. Sou incansável, apaixonado e um workaholic. Ainda não sou um ator expressivo, então trabalho muito para isso. Eu faço questão de honrar meus cabelos pretos, porque tenho muito orgulho da trajetória que construí para chegar até aqui. Não sou esse tipo de ator que sai marcando gol logo de cara. Eu ralei pra caramba para aprender o que eu sei. Sou muito dedicado e honro muito tudo que já fiz.





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