Comediante relembra os 51 anos de carreira, conta que tem vontade de ter um programa próprio na TV e critica o humor dos novos artistas: "Muitos jovens ‘standapeiros’ acham que o humor deve ser agressivo, deve insultar as pessoas, provocar. Sei fazer isso, mas não faço"

“Tenho que ser rigorosamente sincero, não vejo um sucessor para mim”, diz Ary Toledo aos 76 anos de idade, 51 de carreira e mais de 65 mil piadas catalogadas em seu repertório. E o humorista acredita ainda que acontece o mesmo com os colegas de profissão da sua época. “Há quanto tempo você não vê alguém que possa chamar de sucessor do Chico Anysio , do Golias , do Juca Chaves , do Jô Soares e do Ary Toledo? Nem mesmo o Bruno ( Mazzeo , filho do Chico Anysio) você pode dizer que é. Falo do Bruno porque foi o que mais seguiu a carreira do pai”, explica ele em entrevista concedida no flat em que mora, em São Paulo. 

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Mas a seriedade de Ary não dura muito e logo aparece o personagem dos palcos, com suas piadas, brincadeiras e sinceras risadas ao longo do bate-papo. Paulista de Martinópolis e criado em Ourinhos, o humorista mudou-se para a capital aos 22 anos. “Comecei a trabalhar como faxineiro no Teatro de Arena, na década de 1960. Mas fiquei pouco tempo, umas duas semanas no máximo, e logo me colocaram no palco de não saí até hoje”, diverte-se. Os dois únicos momentos capazes de tirar o sorriso do rosto de Ary foram quando falou sobre o tempo em que foi perseguido, preso e torturado durante a ditadura militar e se lembrou da melhor amiga, a cantora  Elizeth Cardoso , que morreu em 1990.

A idade e o peso prejudicam a locomoção do comediante, que precisa de ajuda para se levantar do sofá, não atrapalham o desempenho no palco. "Prefiro a valorização do texto, a expressão facial e a qualidade de ator. Não é só agora, nunca tive corpo para outro tipo de humor", avalia ele. No descontraído bate-papo, Ary admite que "ainda namora direitinho" Marly Marley , sua mulher há 45 anos,e critica o estilo de humor dos novos comediantes.

iG: São 51 anos de carreira e mais de 65 mil piadas catalogadas em seu repertório. Como você faz para se manter atualizado nos palcos?
Ary Toledo:   Como lido com esse produto chamado riso, estou sempre em observação, procurando, compondo, recolhendo material. É na base da procura e da busca mesmo. Mas para se manter, você tem que fazer coisas honestas, boas. Você não pode só dizer: 'sou humorista e ponto'. Um humorista que não fizer isso, está condenado ao ostracismo. Procuro analisar, interpretar, saber o que é o riso, estudei muito, li vários livros. Enfim, sou um pesquisador, um garimpeiro do riso.

Ary Toledo diz que o riso é o seu oxigênio
Juliana Moraes
Ary Toledo diz que o riso é o seu oxigênio

iG: É um número impressionante de piadas. Já pensou em entrar para o Guinness Book?
Ary Toledo:   Meu advogado está tentando me colocar no livro dos recordes faz uns 10 anos, mas eles são muito rígidos. Espero que isso aconteça antes de eu morrer.


iG: Quando está em família é o contador oficial de piadas ou deixa a graça apenas para o palco?
Ary Toledo:   Sou um contador de piadas em qualquer lugar, gosto do humor. O riso para mim é o meu oxigênio, sem ele eu não viveria.

iG: A idade compromete a agilidade no palco. Você acha que isso atrapalha a sua performance?
Ary Toledo:   Prefiro a valorização do texto, a expressão facial e a qualidade de ator. Não é só agora, nunca tive corpo para fazer outro tipo de humor. Nunca gostei de fazer um humor de pantomima (gestual, que usa o corpo como graça). Os palhaços fazem muito isso. Mas acho válido: o Renato Aragão também fazia muito isso, Chaplin usava muito a agilidade dele também e tenho muito respeito.

iG: Os humoristas atuais enfrentam muitos problemas com processos. O que você acha sobre o politicamente correto no humor?
Ary Toledo:   Estou com 51 anos de profissão, mas vou falar meio século porque impressiona mais (risos) e em todo esse tempo de carreira nunca tive um problema com isso. O politicamente correto ou incorreto nunca me preocupou porque conheço o nível da permissão, da política moral e religiosa das pessoas. Alguns colegas dizem que o humor não tem limite e tenho para mim que isso não é verdade. O limite do humor é o riso.

Sei fazer esse tipo de humor do Rafinha (Bastos), conheço bem, está no meu repertório. Eu respeito, mas não faço. Não ganho nada ofendendo"

iG: E como avalia o estilo desses novos comediantes?
Ary Toledo:   Muitos jovens ‘standapeiros’ (do stand-up comedy) acham que o humor deve ser agressivo, deve insultar as pessoas, provocar. Eu sei fazer isso, mas não faço. Sei dirigir um calhambeque, mas prefiro dirigir o meu carro que é automático, é mais cômodo. O humor, por si só, é provocativo, é de oposição. Só não pode confundir crítica com bizarrice, com ofensa, com maledicência.

iG: Acha que teve alguém que extrapolou o limite?
Ary Toledo:   Recentemente teve o caso do Rafinha Bastos com a Wanessa . Sei fazer esse tipo de humor do Rafinha, conheço bem, está no meu repertório. Eu respeito, mas não faço. Não ganho nada ofendendo as pessoas.

iG: Você comentou que o humor é de oposição. Sofreu alguem tipo de perseguição na época da ditadura?
Ary Toledo:  
Eu era perseguido fortemente. Fui preso quatro vezes, apanhei. Eles faziam coisas com a gente (os artistas) que você nem imagina. A única coisa de bom da ditadura é que a gente produzia muito mais porque para ter um texto aprovado, você tinha que escrever no mínimo uns dez a mais.

Comecei a trabalhar como faxineiro no Teatro de Arena, na década de 1960. Mas fiquei pouco tempo, umas duas semanas no máximo, e logo me colocaram no palco de não saí até hoje"

iG: E qual foi o momento mais triste da sua vida?
Ary Toledo:   Foi no Rio de Janeiro, no ano de 1990, quando a Elizeth Cardoso, que era muito minha amiga, morreu e eu estava em temporada no teatro João Caetano. O sonho dela era ser enterrada lá no saguão. Eu estava entrando em cena quando me deram a notícia de que ela seria velada lá. Eu queria suspender o espetáculo, mas um amigo falou para eu fazer em homenagem a ela. Fiz o show e foi um dos melhores da minha vida. Mas depois que saí do palco e fiz as pessoas rirem, fui lá chorar ao lado dela. Foi um momento inesquecível na minha vida. Duas emoções distintas, mas muito próximas uma da outra: o riso e a lágrima. 

iG: Você é casado há 45 anos. Como faz para manter o relacionamento?
Ary Toledo:   Precisa ter, principalmente, bom humor e respeito pelo espaço do outro. Mesmo os dois sendo atores, nunca tivemos nenhuma rivalidade, nenhum ciúme. Isso é raro hoje em dia nos casais que trabalham na arte, né? Dizem que o casamento é uma instituição falida, mas não acho. É ótimo quando você encontra duas pessoas que se identificam. 

iG: Por que decidiu não ter filhos?
Ary Toledo:   Não tive filhos porque teria que fazer um tratamento para poder engravidar a minha mulher. Descobri isso depois de 20 anos e a gente decidiu que era melhor assim mesmo.

Ary Toledo é casado há 45 anos com Marly Marley
Divulgação
Ary Toledo é casado há 45 anos com Marly Marley

iG: E vocês dois ainda namoram? Como é a rotina do casal?
Ary Toledo:   Ainda namoro direitinho com a minha mulher. A gente se gosta muito. Evidentemente não é aquela coisa de quando se está com um ano, dois anos de casados. Com o tempo, os dois se acomodam. Mas não diminui o carinho, o amor e a ternura que um tem pelo outro.

iG: E como é o Ary Toledo fora das câmeras? 
Ary Toledo:   Sou sempre bem-humorado. Lógico que às vezes não estou no clima, mas ainda assim estou de bom humor. Não saio dando risada quando levanto, levanto normal. É muito mais difícil ser mal-humorado do que bem-humorado. As pessoas mal-humoradas têm muitos problemas psíquicos às vezes, a ciência já provou isso.

iG: Tem vontade de voltar para a televisão?
Ary Toledo:   Tenho. Mas para fazer um programa meu, não para participar do programa dos outros. 

Ainda namoro direitinho com a minha mulher. A gente se gosta muito. Evidentemente não é aquela coisa de quando se está com um ano de casados"

iG: Teve alguma mágoa ao longo da carreira?
Ary Toledo:   Não tenho mágoa nenhuma, tive muita sorte nessa minha profissão porque, para ter sucesso, você precisa ter talento, chance e sorte. Tive uma boa dose de sorte. Já conquistei muito mais do que eu desejava no início da carreira de humorista. Meus planos para o futuro são: quando eu morrer, abandono a profissão (risos). Quero continuar com saúde para fazer exatamente o que venho fazendo há 50 anos, porque estou felicíssimo. Não quero ganhar na mega sena. Quero levar esse tipo de vida de poder sair na rua e fazer o que eu quiser. Esse é o meu grande sonho: que Deus me conserve com saúde até quando eu não puder mais.

Assista ao vídeo do momento em que Ary Toledo percebeu sua vocação para a comédia, ainda na infância, aos 8 anos de idade:


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