Após seis anos longe dos palcos cariocas, atriz volta à cena com “Incêndios”, texto que ganhou de presente de um jovem desconhecido e que tem direção de seu parceiro, Aderbal Freire-Filho

Do lado de fora, uma tempestade enchia a rua São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Do lado de dentro, uma preocupada Marieta Severo   tentava não pensar no caos que poderia se armar caso a chuva não desse trégua. Como fazer para colocar o público para dentro do Poeira no meio do aguaceiro? “Mas está parando de chover? Se parar, é a só deixar a água escoar”, disse, tentando acalmar a situação.

A chuva parou e mais uma sessão de “Incêndios” lotou a casa. A montagem brasileira da obra do libanês Wajdi Mouawad , com direção de Aderbal Freire-Filho , tem arrebatado a plateia do pequeno teatro de Marieta e Andréa Beltrão . A atriz, que vive Dona Nenê há 13 anos no seriado “A Grande Família”, da Globo,  mergulha no universo de Nawal e, apaixonada como sempre por seu ofício, falou ao iG   com brilho nos olhos sobre o presente de um desconhecido.

Simplesmente um garoto de 24 anos me entregou nas mãos um texto que tinha uma qualidade e densidade tão grandes que imediatamente comecei a prestar atenção em quem era. A partir disso começamos nossa aventura”, lembra Marieta

“Simplesmente um garoto de 24 anos me entregou nas mãos um texto que tinha uma qualidade e densidade tão grandes que imediatamente comecei a prestar atenção em quem era esse garoto que estava me fazendo uma proposta, que estava interessado por isso, que queria trilhar esse caminho junto comigo. A partir disso nós começamos nossa aventura. Fizemos muitas reuniões com Maria Siman , nossa diretora de produção, até que chegou um dia em que ele contou que colocou nossos nomes no projeto sem nem falar com a gente… Ele foi de uma tenacidade, de uma perseverança…”, contou Marieta.

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O casal Aderbal Freire-Filho e Marieta Severo
Cristina Granato/Divulgação
O casal Aderbal Freire-Filho e Marieta Severo

O ator citado com tanto carinho por Marieta é Felipe de Carolis , que no espetáculo vive o filho de Nawal, Simon. A história dele é digna de filme. Em 2011, após passar por um sério problema de saúde, Felipe tomou conhecimento de “Incêndios” ao assistir ao filme, dirigido por Denis Villeneuve   e indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. “O texto mexeu comigo de uma maneira que até hoje não sei definir. Eu pensei na hora que precisava montar aquela peça aqui no Brasil. Comecei a correr atrás dos direitos da maneira mais primária: Google, redes sociais, pensando em conhecidos que poderiam me ajudar”, revelou o novato.

O processo demorou meses até chegar à caixa de emails de Wajdi e, na fase final da compra dos direitos, Felipe precisava apontar elenco, diretor, teatro, companhia, data de estreia e etc. É preciso ter o circo montado para conseguir a lona. E Felipe não tinha nada. A solução que encontrou? Mentir. E a sua equipe fantasma envolvia os nomes dos gigantes Marieta e Aderbal.

O banquete de Marieta

Com os direitos em mãos, era hora de correr atrás da veterana. “Eu tentei todas as opções de email da Marieta na TV Globo, corri atrás do Aderbal no Poeira diversas vezes. Até que um amigo conseguiu o email correto da Marieta. Mandei a mensagem com o texto e ela só mandou um ‘recebido’”, relembra o jovem ator.

Gosto de trabalhar com as pessoas que já me conhecem, que eu conheço. O Aderbal já sabe os meus defeitos, qualidades, por onde ele me move, para onde me leva. É bom, é muito bom”, sobre o namorado

Como era de se esperar, o drama de Wajdi mexeu com os nervos de Marieta. Algum tempo depois, ela chamou Felipe para um chá em sua casa. “Era um banquete! Com bolos, sucos… E ela começou a elogiar muito o texto e eu com os dedos cruzados. Até que ela falou que topava fazer. Eu corri para o banheiro para mandar uma mensagem para minha mãe contando que ela havia aceitado (risos). Isso foi dia 28 de agosto de 2012”, precisa Felipe.

Era hora de juntar forças e montar a equipe. No palco, oito atores se desdobram entre 21 personagens. Marieta vive as três fases da protagonista Nawal (adolescente, madura e pouco antes da morte), Felipe é seu filho Simon, gêmeo de Jeanne, vivida por Keli Freitas . . Estão em cena ainda Marcio Vito , Kelzy Ecard , Julio Machado , Isaac Bernat   e Fabianna de Melo e Souza . . “A galera não poderia ser melhor. Já escreveram que nós parecemos uma companhia que trabalha junto há anos. E ninguém aqui nunca havia trabalhado junto antes. São atores de excelência teatral. Eles têm uma vivência de teatro absolutamente exemplar. Nosso processo de trabalho é inesquecível”, elogia Marieta.

Assim como o banquete na casa de Marieta, o camarim também é recheado. Cada dia um chega com bolo, pão de batata, docinhos. O clima é o mais familiar possível e a troca de experiências é quase palpável. 

O toque de Aderbal e a poderosa presença de Marieta

“Incêndios” já foi montada em mais de 15 países. O que teria, então, de diferente na versão brasileira de um suspense único? Marieta tem a resposta: “O Aderbal teve uma habilidade de construção do espetáculo muito grande. Fundir as cenas e deixar tudo muito claro para o público esteticamente foi importante. Quando a história está no Canadá é um tipo de luz, e quando vai para o Oriente é outro, é outro tipo de roupa, de temperatura… Ele dá elementos de muita clareza em relação ao texto. Ele ajuda muito para que o espectador monte esse quebra-cabeça com muita adesão, entrando na história e indo junto, e não ficando de fora e raciocinando sozinho”.

A peça dialoga com a guerra civil camuflada que vivemos. Não temos uma história de guerras, mas temos um número de mortos nas nossas favelas que é de guerra civil. Temos tantos Amarildos por aí”

A primeira peça do quebra-cabeça é o testamento que Nawal deixa para os gêmeos, instruindo que eles investiguem seu passado e descubram o paradeiro do seu pai, teoricamente morto há tempos, e de um irmão, que eles não tinham noção de que existia. O espectador monta sua teia juntando as informações dadas ao longa da história e se surpreende com o final de emocionar. “Temos uma plateia masculina que está se envolvendo com a história, e ficamos pasmos com isso. Eles também saem tocados. E estamos tendo uma adesão da plateia que nos meus quase 50 anos de trabalho eu nunca vi. Nas peças que fiz, nunca tive nenhuma que me desse uma resposta tão avassaladora de adesão emocional, de entrega”, disse a atriz.

No camarim é possível ver as referências que Marieta usou no processo de preparação. Imagens pesadas de guerras e mulheres no meio do caos estão espalhadas pelas paredes. Mas a atriz também puxou bastante da própria história e mergulhou na época da ditadura brasileira para encontrar sua versão de Nawal. Tanto que, no programa do espetáculo, dedica o trabalho a Zuzu Angel .. “Cada palavra que eu digo em cena, digo para esse público que está aqui. Para mim, para minha história de brasileira, a peça dialoga com a guerra civil camuflada que vivemos. Não temos uma história de guerras, mas não precisamos disso para entender a pertinência da peça. Temos um número de mortos nas nossas favelas que é de guerra civil. Temos tantos Amarildos por aí. Eu não consigo deixar de pensar nisso e nem de ter a minha história como referência. Eu vivi uma situação de batalha, de um golpe de Estado, e a reação foi violentamente combatida com prisão, tortura, desaparecidos. Isso tudo está impregnado em mim”, disse.

Ah, não quero polêmica. Já chega a polêmica que eu tenho em cena. Eu, Marieta, não quero entrar. Acho ótimo estarem discutindo, mas eu não quero entrar”, sobre a atual discussão das biografias não-autorizadas

Facilitou também a parceria com Aderbal, seu namorado. “A gente sabe separar bem as coisas. Eu gosto do tempo nas relações, gosto de trabalhar com as pessoas que já me conhecem, que eu conheço. O Aderbal já sabe os meus defeitos, qualidades, por onde ele me move, para onde me leva. É bom, é muito bom”, limitou-se a dizer a sempre reservada atriz.

“Eu sinto que o Wadji ficaria felicíssimo com a montagem do Aderbal, que mergulha na essência da peça dele. O Aderbal tem uma afinidade com o Wadji na paixão pelo teatro, na crença do poder do teatro, na crença das leis teatrais, de todas as possibilidades que o teatro tem de caminhar no tempo, no espaço, de envolvimento emocional, de catarse, de tudo. O Aderbal conseguiu chegar no lugar que o Wadji descreveu. Ele nos colocou no terreno do trágico”, garantiu.

O papo se encaminha para o final e Marieta já está de olho no relógio, aquecendo o corpo para o espetáculo. Aproveitamos o encontro com a atriz para comentar a recente polêmica das biografias não-autorizadas no Brasil, que tem seu ex-marido, Chico Burque, como uma das bases do grupo Procure Saber, que defende a manutenção da exigência da autorização prévia dos biografados . “Ah, não quero polêmica. Já chega a polêmica que eu tenho aqui em cena. Eu, Marieta, não quero entrar. Acho ótimo estarem discutindo, mas eu não quero entrar”, disse, com toda classe. “E a chuva, parou?”

Serviço:

“Incêndios”
Teatro Poeira
R. São João Batista, 104 - Botafogo - Rio de Janeiro
De quinta a sábado, às 21h, e domingo às 19h
Temporada até 22 de dezembro

Marieta Severo, protagonista de 'Incêndios'
Leo Aversa/Divulgação
Marieta Severo, protagonista de 'Incêndios'


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