Interprete de Pérsio na novela "Amor à Vida", o carioca conta que teve jogo de cintura para as brincadeiras por causa de seu nome. "Hoje em dia todo mundo fala em bullying, mas na minha época isso era brincadeira e levei sempre na esportiva"


Dono de um nome de grafia e pronúncia complicada para os brasileiros, o carioca de origem síria  Mouhamed Harfouch , que vive o médico Pérsio na novela “Amor à Vida”, na Globo, conta que seu registro nos documentos éforte e carregado de preconceitos, principalmente após o atentado de 11 de setembro, nos Estados Unidos. “Hoje as pessoas já conhecem mais meu nome, mas na época do colégio, sempre no primeiro dia de aula, era uma vergonha. Quando chegava na letra L eu já ficava tenso, e em ‘Márcia’ meu coração disparava. Era uma risada generalizada”, diverte-se o ator de 35 anos, que aprendeu a lidar com as piadas. “Hoje em dia todo mundo fala em bullying, mas na minha época isso era brincadeira e levei sempre na esportiva, como tem de ser. Esse tipo de situação em que eu passei quando criança me ajudou a ser o ator que sou. Aprendi a ter uma malemolência para levar tudo na esportiva”, explica. “Aliás, consegui meu primeiro emprego graças ao meu nome. A Globo precisava de alguém que falasse árabe para 'Pé na Jaca' (novela de 2006). Me chamaram, fiz o teste, passei e só depois descobriram que eu não falava árabe. Minha carreira na televisão começou a ter uma evolução graças ao meu nome.”

Mouhamed Harfouch, o Pérsio de 'Amor à Vida'
Divulgação
Mouhamed Harfouch, o Pérsio de 'Amor à Vida'

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Mas se Mouhamed aprendeu a levar os preconceitos e as diferenças na brincadeira, na pele de Pérsio, o ator traz para a ficção uma questão política e religiosa muito séria, o conflito entre palestinos e judeus, que já perdura há mais de 60 anos no mundo árabe. Na trama, seu personagem viverá uma história de amor com a médica judia Rebeca, interpretada por Paula Braum . “É tudo muito velado ainda, mas logo eles vão partir para uma tentativa desse amor impossível”, adianta. “Todos nós somos seres humanos, viemos e vamos embora da mesma forma. São debates acalorados. Pode parecer que eu esteja falando de uma coisa que não cabe, mas eu realmente acho que o diálogo do amor pode ajudar. Conheço várias pessoas de religiões diferentes que são casadas, têm filhos e tudo mais”, exemplifica. “A natureza dá saltos que a razão não visualiza, mas que só através do amor você pode enxergar.”

Hoje todo mundo fala em bullying, mas na minha época isso era brincadeira e levei sempre na esportiva. Esse tipo de situação em que passei quando criança me ajudou a ser o ator que sou ”

Ao contrário de seu personagem na trama de Walcyr Carrasco , Mouhamed não se considera uma pessoa religiosa, mas sim de muita fé. “Sempre achei importante trabalhar a fé. Então, já fui a reunião espirita, igrejas, cultos, um pouco de tudo. Não sou de ir à missa, mas eu sou praticante do catolicismo por rezar todos os dias, carregar minha medalha milagrosa no peito, que encontrei do nada e acabou virando meu amuleto.”

Mouhamed ressaltou a qualidade que mais admira em seu atual papel. “Pérsio abandona a família aqui e vai para a Palestina. Ele não vê a medicina como uma ferramenta de ascensão social, mas sim de luta politica, de ajudar o próximo. Ele deixa tudo para trás e vai ajuda seus irmãos palestinos, que estão ali defendendo sua tradição”. E admite que se tivesse que escolher outra profissão, não cogitaria medicina. “Eu não conseguiria trabalhar abrindo pessoas, não é comigo. Quando fiz laboratório, tive que superar um certo medo de sangue. Gosto de ver as pessoas bem, felizes, não machucadas e feridas. Fora que a medicina é uma profissão mágica, mas é só mais uma profissão, não pode ser endeusada. E é isso que o Pérsio quer fazer mostrar.”

Era engraçado quando estava dirigindo, vivia pedindo desculpa para as pessoas. Sempre achava que tinha feito uma barbeiragem porque estavam me olhando”, sobre o começo da fama

Com cinco novelas e 20 anos de teatro no currículo, Mouhamed conta como lidava com o assédio no início da carreira na TV. “Eu ficava meio assustado, ficava horas pensando de onde aquela pessoa que está me olhando me conhece, me achava muito mal educado por não responder aos olhares”, lembra. “Era engraçado quando estava dirigindo, vivia pedindo desculpa para as pessoas. Sempre achava que tinha feito uma barbeiragem porque estavam me olhando. A questão é que tudo é um jogo. Eu quis ser artista, esse é o meu trabalho e sabia que ele funcionava desta forma.”

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