Em entrevista ao iG, a atriz, que está em cartaz em São Paulo com o musical "Jacinta", diz que não esperava o sucesso como atriz, revela-se uma mãezona de vida simples e banal e explica o que faz para manter a boa forma. "Quando começa a atrapalhar no figurino, dou uma segurada"


Nem mesmo a jornada puxada de trabalho que chega a ser de 20 horas ininterruptas tira o bom humor de Andréa Beltrão , que surpreende ao chegar rindo alto e gostoso ao teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Expansiva e educada, a atriz dá bom dia e faz questão de retocar o rímel sentada bem à vontade num sofá.

Dividida entre as gravações do seriado "Tapas & Beijos", da TV Globo, no Rio de Janeiro, e as apresentações como uma portuguesa que é a pior atriz do mundo no musical "Jacinta", em cartaz na capital paulista até 22 de setembro - ela ainda administra com Marieta Severo o teatro Poeira -, Andréa admite que, às vezes, a rotina foge do controle. "Um dia tive que apelar para o helicóptero porque eu não ia chegar no teatro a tempo. É muito trabalho, a carga horária é grande. Na época dos ensaios, eu já tinha gravado das 8h até às 21h o seriado, chegava no teatro e ficava até às duas da madrugada. Mas o meu corpo vai ser doado para a ciência", conta, aproveitando para fazer piada com a situação e tirar risos de quem a ouve.

Adoraria ser a Gloria Pires, gente, que vive de televisão e fala que só faz TV e cinema numa boa. Eu não consigo”

A disposição, garante Andréa, vai muito além do estúdio e do palco: Casada com o cineasta Maurício Farias , com quem tem  três filhos, Francisco , de 17 anos, Rosa , de 16, e José , de 13, ela não faz o tipo de artista que justifica a ausência em casa por causa da profissão. "Sou uma mãezona presente e um ótima dona de casa". orgulha-se, apesar de admitir não ter intimidade com as panelas.

Prestes a completar 50 anos em 16 de setembro, Andréa ainda revela como mantém o corpão, explica a decisão de matricular os filhos em um colégio público e reflete sobre os 35 anos de carreira. "Hoje, até mandei uma mensagem para os meus filhos para dizer que estava aqui e eles falaram: "Ah, mãe, aqui está tudo bem, seja feliz". Aí eu falei: "Eu sou muito feliz".

Confira o bate-papo:

Andréa Beltrão e Augusto Madeira no musical
Divulgação
Andréa Beltrão e Augusto Madeira no musical "Jacinta"

iG: "Jacinta" é seu primeiro musical?
Andréa Beltrão: Na verdade, não. Quando eu tinha uns 18 anos tinha um grupo que fazia peças com banda, chamado Manhas e Manias. Também já fiz um garoto de 12 anos no musical infantil "Eu e Meu Guarda-Chuva" com uma banda incrível que depois acabou virando a banda do Caetano Veloso . A gente tem um orgulho danado disso. Mas agora é diferente porque esse espetáculo tem uma abordagem musical ampla com ópera, fado, dueto, o que exige um preparo da gente.

iG: Os grandes musicais da Broadway estão dando certo no Brasil. 
Andréa Beltrão: Eu não tenho muito interesse em reproduzir no meu país alguma coisa tão importada (como os musicais da Broadway). Não tenho nenhum preconceito. Quando viajo, vou assistir. Mas não me dá vontade. Esse projeto é uma aventura, um produção brasileira. Isso eu topo fazer.

iG: Como você se preparou para cantar no espetáculo (os atores Augusto Madeira, Gillray Coutinho, Isio Ghelmanm José Mauro Brant e Rodrigo França)?
Andréa Beltrão: A gente se preparou com a cantora Cris Dellano e a Íris Gomes da Costa , que é uma professora de prosódia, ajudou a criar o sotaque. Mas não adianta ficar procurando uma coisa que não é nossa. Não nasci a Vanessa Gerbeli , não sou uma atriz de musicais, com uma voz incrível. Eu dou meu jeito. Canto com um prazer enorme e tento não sacrificar o ouvido da plateia. Eu estudo canto há 15 anos porque eu queria como atriz ter uma voz no palco poderosa. Agora, eu, aos 50 anos, virar cantora? Não farei isso comigo nem com as pessoas que me assistem (risos).

Quem gosta de fazer teatro não pode ter medo, o teatro é para os fortes. É esporte radical. Ah, e muitas horas de solidão na madrugada”

iG: Como é ser a única mulher no meio de tantos homens no palco?
Andréa Beltrão: Ah... É ótimo. Bendito fruto. Eu adoro ter amigos homens, é tudo de bom. Jogo bola com eles, me divirto mesmo. Já joguei muito futebol há alguns anos, mas hoje em dia tenho medo de me machucar e não poder fazer peça.

iG: É mais fácil interpretar a pior atriz do mundo do que outro papel?
Andréa Beltrão: É ótimo porque eu posso ser ruim de verdade. No começo, fiquei meio apavorada porque é tão fácil ficar tosco. A Jacinta é uma atriz péssima, mas ela não tem vergonha de errar. O Antonio Carlos Fontoura me mandou um DVD do primeiro especial que fiz com ele na televisão, eu tinha 16 anos. Achei uma graça a atenção dele de copiar aquelas fitas imensas. Recebi e fui assistir.

iG: E como era você no início da carreira?
Andréa Beltrão: Minha voz era assim (fala afinando o tom). Eu fiquei encantada de me ver tão verde, tão imatura. Tinha ali um DNA de que talvez essa pessoa, quem sabe um dia, conseguisse ser uma atriz. Toda minha inexperiência, inadequação, falta de instrumento, não saber onde enfiar a mão, estava tudo ali. Foi o melhor presente que ele me deu no início dos ensaios. O  Nelson Rodrigues  dizia que gostava dos atores canastrões, que entravam no palco como búfalos da Ilha de Marajó, que comiam as paredes do cenário. Acho que a Jacinta é isso. E isso é a vida de todos nós. Esse momento péssimo de Jacinta é o nosso começo na vida. Eu, volta e meia, sou péssima de novo, toda hora, todo dia.

iG: Você se assiste nas reprises de novelas do canal Viva?
Andréa Beltrão: Não, eu odeio me assistir. Nem morta! Se estou gravando e o pessoal fala 'vamos assistir' e eu fico ouvindo a minha voz, eu peço: 'Desliga'. Eu penso: 'Ai, que horror, que merda'.

Gosto de correr na areia, nadar no mar uns dois quilômetros. Quando estou meio fora do peso, dou uma segurada porque eu gosto muito de comer um bom prato de arroz, feijão, carne, ovo... comida! Não gosto de folha. Malho para poder comer um monte de pão”

iG: Como concilia TV e teatro com tanta dedicação?
Andréa Beltrão:  Teatro é uma paixão para todos nós. Eu, então, sou uma tarada porque construí um teatro. Quem gosta de fazer teatro não pode ter medo, o teatro é para os fortes. É esporte radical. Ah, e muitas horas de solidão na madrugada. Nos dias em que gravava o dia inteiro, ia para o ensaio e chegava em casa às 2h30, não ia dormir antes das 5h30. É a hora do sossego da minha casa e que eu posso ficar decorando o texto na janela, falando  Pedro Calderón de la Barca  até às cinco da manhã. Aí, eu chorava e pensava: 'Eu não vou conseguir, não vou dar conta.' Mas esse mergulhão é bom, uma água gelada, fria. Dá muito medo. Quando a gente faz um trabalho desse, a gente está se divertindo, mas também se expressando e botando muito do coração da gente. Do tudo de bom que a vida tem também e de como é bom estar aqui, como é bom estar vivo. 

iG: Tem atrizes que fazem apenas televisão. Não parece o seu tipo...
Andréa Beltrão: Eu adoraria ser a Gloria Pires , gente, que vive de televisão e fala que só faz TV e cinema numa boa. Eu não consigo.

iG: Consegue ser uma mãe presente, cuidar da casa?
Andréa Beltrão: Sou ótima dona de casa. Muito presente, sou mãezona. Dou muita liberdade para os meus filhos: quanto mais responsabilidade, mais liberdade eu dou. Adoro minha vida banal, simples, nada. Cozinhar, eu não sei, infelizmente. Acho um vexame isso. Eu gosto de andar na praia, ficar paradinha ali, andar na rua de chinelo, ir a um cineminha, ir ao mercado comprar o café da manhã do dia seguinte, andar de ônibus. Isso é a melhor coisa da vida. O artista não é uma pessoa especial. Ele pode ter talento, um dom, mas é uma pessoa como qualquer outra, com uma vida comum. O mais importante para mim é a vida banal, simples, cotidiana.

iG: Você já contou que matriculou seus filhos em uma escola pública, por que fez isso? Andréa Beltrão: Meus filhos estudaram por dez anos na Dom Pedro II, a mesma escola pública onde estudei, onde minha mãe dava aula e onde acho que o ensino é maravilhoso. O problema era o período de greves. Uma vez, foram quatro meses sem aula e fiquei angustiada: "Não dá. Não vou fazer experiência com três crianças. Eu posso pagar uma escola para eles". E foi o que fiz.

Sou ótima dona de casa, muito presente, sou mãezona. Adoro minha vida banal, simples, nada. Cozinhar eu não sei, infelizmente. Acho um vexame”

iG: Você trabalha muito. É difícil manter o casamento, seguir com o mesmo marido tantos anos?
Andréa Beltrão: Nada diferente de qualquer um. Quem tem tendência a se envolver com várias outras pessoas, vai ser assim sendo médico ou professor. Acho que é de natureza. Gosto de construir coisas, manter relações sólidas, estar com sempre com as pessoas que gosto, confio e acredito.

iG: O assédio na rua e os paparazzi te incomodam?
Andréa Beltrão: Eu consigo fazer o que quero numa boa. Os paparazzi já cansaram de mim. Tem quase um ano que não sai nada meu, já reparou? Eu me mudei, estou morando em um bairro que eles acham brega. Eu nem vou dizer qual é porque eles não vão lá. Eles ficam só no Leblon e em Ipanema, graças a Deus. Então, estou fazendo o que sempre fiz e eles nem sabem onde eu estou. Mas eu não tenho problema com paparazzi: se quiserem tirar foto, não ligo.

iG: Prestes a completar 50 anos, você está muito bem. Como faz para manter a boa forma?
Andréa Beltrão:  Gosto muito de praticar esporte. Gosto de correr na areia, nadar uns dois quilômetros no mar, de três a cinco vezes por semana, dependendo da agenda. Quando estou meio fora do peso, daquele jeito que começa a atrapalhar no figurino, dou uma segurada porque eu gosto muito de comer um bom prato de arroz, feijão, carne, ovo... comida! Não gosto de folha. Eu malho para poder comer um monte de pão, um super café da manhã...

iG: Você nunca esteve tão loira, não é?
Andréa Beltrão:  Já estou louca para mudar a cor do cabelo. Mas essa loirice toda é para o programa ("Tapas & Beijos"), porque quis fazer algo diferente da Fernanda ( Torres ), que é morena. Não tenho coragem de fazer a (personagem) Sueli morena. O loiro é assim: a gente vai avançando na loirice e acaba ficando assim, com esse cabelo quase branco. 

iG: Já são quase 35 anos de profissão. Você esperava conquistar essa carreira de prestígio?
Andréa Beltrão: Não era o que eu esperava, não, porque eu não esperava nada. Nunca achei que eu fosse ter essa vida que eu tenho, nunca imaginei que fosse ser atriz. Lembro de quando assistia à novela "Irmãos Coragem" com a Glória Menezes , a Regina Duarte , a Lúcia Alves  na casa da minha avó Cleonice , da minha mãe, Marilena , em Copacabana, na década de 1970, em uma televisãozinha Philco preto e branco. Eu olhava tudo aquilo e pensava: 'Nunca'. Tanto que quando fui fazer minha primeira novela na Rede Globo e vi a Glória Menezes eu nem acreditei. Pensei: 'Será que eu estou dormindo e ainda não acordei?'. Nunca pensei que fosse ter essa parceria maravilhosa de profissão e de vida com a Marieta (Severo). Então, tudo é um presente, tudo é legal. Essa palavra gasta: "presente" (fala em tom de deboche). Mas não tem outro jeito de falar. Eu tento viver realmente com simplicidade porque está tudo aqui, mas amanhã pode não estar. 

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Assista a Andréa Beltrão soltando a voz no palco com o elenco do musical "Jacinta"


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