Lu Lacerda fez participação involuntária na estreia do quadro "Vai fazer o quê?" e deu show de cidadania defendendo um mendigo da agressão de três garotões. Ela agiu por impulso, conta, e diz que o segredo na vida é olhar em volta, prestar atenção nas pessoas e ser gentil

O "Fantástico" estreou no domingo (21) o quadro "Vai fazer o quê?", comandado pelo jornalista Ernesto Paglia , em que simula uma situação de desigualdade para ver como os passantes, sem saber que estão sendo filmados, reagem.

A colunista do iG Lu Lacerda fez uma participação involuntária na estreia do programa, e deu lição de cidadania. Ao ver um mendigo sendo agredido por três garotões que tentavam expulsá-lo de uma praça no Rio de Janeiro, ela se aproximou da cena e perguntou: "A praça é de vocês?", e comprou a briga contra os três rapazes jovens e musculosos. Segundo ela, nem deu tempo de se sentir ameaçada pelos garotos, porque agiu por impulso para tentar proteger o mendigo. "Não é que eu tenha decidido tomar uma atitude. Isso é automático - quando você percebe, já está no meio da situação", diz ela. Medo de encarar os grandalhões ela disse que não teve. "Jornalista medroso está na profissão errada", decreta. Veja o que mais ela conta sobre a experiência.

iG: O que passou pela sua cabeça naquele momento? Nao teve medo de sofrer alguma agressão dos jovens?

Lu Lacerda: Só consegui raciocinar segundos depois, quando o Ernesto Paglia me entrevistou. Medo de sofrer agressão? Quando a gente está tomada pela adrenalina tem reações inesperadas e repentinas.

iG: O que achou do quadro do "Fantástico"?

Lu Lacerda: O novo quadro do "Fantástico" é maravilhoso porque chama a atenção das pessoas para que elas podem não estar olhando pro lado, nem enxergando um palmo diante do nariz. Pode levá-las a uma reflexão interna. Conheço muita gente que vive pregando amor à humanidade na teoria, mas, na prática, não sabe o nome do porteiro, nem se o seu motorista tem família; nem mesmo em que bairro mora a manicure. Outro dia, uma conhecida minha foi correndo pro médico com uma infecção alimentar, vinda de folhas mal lavadas. Eu, fazendo piada, perguntei: "Você é carinhosa com a sua cozinheira?" Ela não gostou, não. Mas, semana passada, brincou comigo, dizendo que, depois daquele sofrimento, trata os funcionários domésticos como reis.

Conheço muita gente que vive pregando amor à humanidade, mas não sabe o nome do porteiro, se o seu motorista tem família ou em que bairro mora a manicure." (Lu Lacerda)

iG: O quadro realmente testou seu limite?

Lu Lacerda: E eu tenho limite? (risos) No fim, quando descobri que eram atores representando, senti uma certa revolta porque a cena era chocante e, talvez, por saber que, na realidade, ela acontece o tempo todo em países desiguais (e desumanos) como o nosso.

iG: Se não fosse uma montagem, até onde você teria ido?

Lu Lacerda: Já observei algumas vezes que os jornalistas pensam que têm um escudo protetor; jornalista medroso está na profissão errada! Já passei por outras situações similares na vida real, mas isso não deve jamais ser falado, senão em vez de ser a favor do outro, vira a seu próprio favor, como está acontecendo agora comigo. Uma atitude tão "miúda" dessas tomou uma dimensão absurda. Creia: já recebi mensagens do Brasil inteiro, como se eu tivesse, no mínimo, salvado o meu, o seu, o nosso Rio das tantas mazelas. Isso só mostra que, se uma atitude corriqueira e pequena tem tanta dimensão, o que dizer então de grandes gestos que tanta gente faz e ninguém fica sabendo?

iG: O que mais te indigna no Brasil?

Lu Lacerda:  Tudo o que mais nos indigna tem base na corrupção. Tudo o que acontece com relação à saude, ao transporte, à miséria em geral, vem da corrupção. Mas no Universo existe a "lei de causa e efeito", que "tarda mas não falha". Acredito que "a conta chega pra todo mundo" - tanto para o bem quanto para o mal.

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