Ela está em cartaz no teatro com "Razões para ser Bonita" e na TV em "Sangue Bom". Na peça faz uma mulher que entra em crise ao ouvir do marido que seu rosto é comum, na novela é secretária numa agência de publicidade. Faz as duas com humor, sua marca registrada

Ingrid Guimarães  é tudo aquilo que você imagina de vê-la na televisão: engraçada, agitada, simpática, atrapalhada. Chega já maquiada - com duas horas de atraso - ao nosso encontro no Teatro Frei Caneca, em São Paulo, onde está em cartaz com a peça "Razões para ser Bonita". Tem uma conversa empolgada, boas tiradas, e volta e meia responde as perguntas contando casos divertidos de sua vida. A peça "Cócegas", que ela escreveu e depois apresentou por 11 anos ao lado da amiga Heloísa Périssé , aparece várias vezes na conversa. “É muito difícil abandonar um sucesso. Você vira, de certa forma, escrava dele. A gente tentava encerrar a peça, mas três mil pessoas vinham assistir. Tivemos que terminar na marra."

Atrás de alguma coisa diferente para fazer no teatro, Ingrid aceitou uma sugestão da atriz  Deborah Evelyn , que lhe apresentou um livro do dramaturgo americano Neil LaBute . E foi assim que encontrou o papel atual: o de uma mulher casada que entra em crise após ouvir do marido que seu rosto é "apenas comum". E mesmo na pele dessa mulher em crise ela diverte a plateia: "Nesse caso a comédia, o riso, vêm de outro viés, da identificação, do nervoso", analisa.

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Minha autoestima era muito baixa quando adolescente. Tinha namorados bacanas, fazia sucesso no teatro, mas me via de outra maneira. Todos me achavam bacana, menos eu."

Para Ingrid, o tema não poderia ser mais adequado. "Sou atriz e mulher. Sei como é essa pressão para ser bonita. Me perguntam mais sobre o meu cabelo do que sobre a minha profissão. Depois da gravidez (ela é mãe de Clara , de três anos e meio, do casamento com o publicitário Renê Machado ), fui fazer uma novela e todo mundo queria saber como eu tinha voltado à forma. Ninguém perguntava sobre o meu bebê". Mas até disso a atriz prefere rir. Um de seus personagens famosos é a modelo Leandra Borges - inspirada em Gisele Bundchen -, que apareceu na peça 'Cócegas' e depois na 'Escolinha do Professor Raimundo' e até em um quadro do 'Fantástico'. "Com a Leandra eu comecei a falar sobre essa preocupação excessiva com a aparência, a fissura de querer entrar em um padrão, de querer ser como as mulheres famosas."

Ingrid Guimarães
André Giorgi
Ingrid Guimarães


 O nascimento de sua filha e o convívio com as sobrinhas adolescentes só aumentaram o interesse da atriz pela questão. "Minhas sobrinhas tinham essa fissura de ter cabelo liso, fazer os tratamentos todos. A menina com cabelo cacheado, que é mais gordinha ou se veste de forma diferente, sofre bullying. É uma escravidão ter que ser como as mulheres famosas." 

Depois da gravidez, fui fazer uma novela e todo mundo queria saber como eu tinha voltado à forma. Ninguém perguntava sobre o meu bebê."

A fama não é estranha para Ingrid. Um de seus primeiros papéis foi na peça "Confissões de Adolescente", sucesso de público em 1992. Com 20 anos na época, Ingrid conta que estava com tudo em cima, mas sofria com problemas de autoestima. "Estourei no ‘Confissões’, que era um fenômeno, e me achava super esquisitinha, magrela demais. Não tinha o padrão de beleza e dentro de mim foi um sofrimento enorme. Eu tinha namorados bacanas, fazia sucesso no teatro, mas me via de outra forma. Todos me achavam bacana, menos eu."

Hoje, Ingrid se diz uma mulher "vaidosa" e confessa que se sente "muito mais bonita". "Quis fazer 'Razões para ser Bonita' como uma militância pessoal. Minha filha tem três anos e meio e já me pergunta: ‘Porque o cabelo da princesa é loiro?’. Eu respondo: ‘O da Branca de Neve é preto’. Na minha infância não era assim, mas eu entendo as adolescentes de hoje, elas têm muita opção. Você tem aplicativo no celular que mede a sua beleza. Isso é absurdo. Outro dia entrei no meu Facebook e tinha um anúncio: 'Aprenda a emagrecer 15 quilos, como a Ivete Sangalo '. Eu, que sou madura e inteligente, tenho 40 anos, fiquei curiosa com isso. Não cliquei no anúncio, mas tive o instinto de clicar." 

Ingrid se sente atraída por assuntos que a "perturbem" e "incomodem seriamente". Além da ditadura da aparência, outra discussão que entra nessa categoria é a sexualidade feminina. Pensando nisso, estrelou a comédia "De Pernas pro Ar", em 2010, e "De Pernas pro Ar 2", em 2012, em que fazia o papel de uma mulher que perde o emprego e abre uma sex shop. "Parece que os filmes ajudaram muito esse mercado. Agora me chamam sempre para feiras eróticas. As pessoas vêm dizer que se identificaram, que passaram a frequentar sex shops, que perderam o preconceito. A crítica pode dizer que é um filme raso, mas toca em temas muito importantes. Falamos de orgasmo, de sexo e da busca pelo prazer de uma mulher comum, com filho, marido, empregada, e que não é sexualizada."

Teatro é a minha casa. Se o mundo acabar e me pedirem para escolher, escolho aqui: é o lugar onde me fiz, ganho dinheiro, fiquei famosa. "

Apesar de gostar muito de novelas - está no ar atualmente em "Sangue Bom" , a trama das 7 da Globo -, esta é apenas a quinta novela de seu currículo. "Costumo dizer que novela, para mim, é descanso. Só recebo texto, decoro e gravo. Não tenho que me meter em nada, escrever, editar. Mas não dá para fazer uma atrás da outra, porque tenho muito projeto. Não quero ser uma atriz só de televisão. Ao mesmo tempo, não quero ficar fora de uma coisa tão importante para o Brasil." Atualmente, seu programa "Mulheres Possíveis", que também fala de beleza para  mulheres normais, está em um hiato na GNT. "Eu estava fazendo coisa demais", desabafa ela, que abandonou até um pouco seus cuidados pessoais. "Beleza, estética e ginástica não são coisas essenciais, eu deixo para depois." 

Ingrid Guimarães
André Giorgi
Ingrid Guimarães


Escrita por Maria Adelaide AmaralVincent Villari , "Sangue Bom" dá a Ingrid a chance de interpretar Tina, uma secretária abandonada no altar que dedicará sua vida a uma vingança contra a atriz decadente Bárbara Ellen, vivida por Giulia Gam . "Em duas semanas de novela, já casei, fui abandonada no altar e estou em um manicômio, numa camisa de força". Embora não seja uma das protagonistas, a personagem vai ser o centro de cenas que prometem movimentar a novela. "Nós vamos fazer uma versão bem humorada da Nina e da Carminha (antagonistas na novela "Avenida Brasil", exibida em 2012). Agora a Tina vai trabalhar como empregada na casa da Bárbara Ellen, para dar início ao plano de vingança".  Ou seja: É Ingrid fazendo o que ela sabe fazer melhor - divertir a plateia. 

Mas, espera aí: e essa conversa de que Ingrid está se preparando para fazer papéis dramáticos no cinema? "Teatro é a minha casa. Se o mundo acabar e me pedirem para escolher, eu escolho aqui: é o lugar onde me fiz, ganho dinheiro, fiquei famosa. O lugar onde aprendi tudo. Adoro fazer TV, mas estou numa fase ‘namorado novo’, muito apaixonada pelo cinema. Tinha poucos convites e agora estou aproveitando essa oportunidade. Com exceção de 'De Pernas pro Ar 3', são todos filmes dramáticos. A televisão me vê como comediante, as pessoas ficam esperando isso. Já conquistei muitas coisas importantes, agora preciso ir por um viés em que eu possa me reinventar um pouco, fazer coisas diferentes."

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