Vencida a batalha contra a leucemia e os quase 200 capítulos de "Guerra dos Sexos", a atriz se dedica ao teatro e ao filho Matheus, que agora vai ganhar também um pai

Drica Moraes chega séria ao Teatro Sesc Pompéia, em São Paulo, onde está em cartaz com a peça “A Primeira Vista”. Pede apenas a “sua água” e “seu café”, do jeito que a produtora sabe que ela gosta, e dá o sinal para começar a entrevista. O clima sóbrio dura pouco e logo Drica já está “falando sem editar”, característica que se atribui mais tarde.

O diagnóstico parece um atestado de morte”, sobre a leucemia

Ela também diz que hoje é uma pessoa sem medo algum de ser feliz. Fora e dentro do palco. Em cena, aliás, pula, canta, tira a roupa, toca Ukulele (instrumento de cordas similar ao cavaquinho), beija na boca sua companheira de cena e amiga de vida, Mariana Lima , e arrebata o público em mais uma interpretação. “São duas mulheres revendo suas vidas, passando a limpo suas historias com um olhar muito irônico, sarcástico, mordaz. É muito texto e ator e o máximo que se pode extrair disso.”

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Esse entusiasmo tem motivo: após ter enfrentado a leucemia e pensado que não iria sobreviver, “o diagnóstico parece um atestado de morte”, ela agora vê a “graça e o prazer das coisas simples da vida, banais”.

Foi no hospital, em 2010, que recebeu de Mariana o texto da peça. “Eu li aquilo, achei maravilhoso, mas estava no meio do tratamento. Tive que pedir um tempo até voltar, um tempo indefinido, que durou um ano e meio”. Mas aí Drica voltou com tudo. E esteve também em “Guerra dos Sexos”, que chega ao fim nesta sexta-feira após quase 200 capítulos (26).

Na trama, ela deu vida à engraçada Nieta e trabalhou com Reynaldo Gianecchini , que também voltava de um tratamento de câncer na medula. Falavam pouco sobre o que tinham enfrentado, mas se enxergaram cúmplices. “A gente apenas vivia. Depois que se passa por uma coisa pesada como esta, a gente não fica falando sobre isso. Tinha momentos em que a gente comentava um com outro, falava como era duro aquilo, mas não ficávamos revivendo. A gente vai tocando e aproveitando muito a benção, a graça de podermos trabalhar juntos.”

Novela é isso, tem quase 200 capítulos e você repete uma cena à exaustação, vai ficando patético, e aí no final tem um grande desfecho e acaba a novela”

Sobre a novela, Drica tem sentimentos ambíguos. Por um lado foi um desafio – “curto fazer um tipo, uma italiana, tive que colocar peruca, peito, bunda, ombreira, tudo de espuma, bem grande, porque estava bem magra –, por outro sabe que Nieta, sua personagem, chegou a ser patética por demorar a trama toda para enxergar as maldades da filha Carolina ( Bianca Bin ): “Me cobravam para dar logo uma surra nela, mas novela é isso, tem quase 200 capítulos e você repete uma cena à exaustação, vai ficando patético. E aí no final tem um grande desfecho e acaba a novela”.

Além do palco, da TV e do amor dos amigos, foi o filho Matheus , seu “santo remédio”, adotado em 2009, quem a ajudou a virar a página da leucemia. “Ele agora está ganhando um pai. Meu namorado está adotando o Matheus, que está numa nova fase da vida, muito feliz. A adoção que eu digo é principalmente afetiva e depois que vai para o papel, para a parte mais burocrática.”

Meu namorado está adotando o Matheus, que está numa nova fase da vida, muito feliz” , sobre o filho

A nova fase é para todos. É também de desprendimento, um dos princípios do budismo, religião que ela se diz “mais chegada”. “Falo uma língua louca com tudo que diz respeito à religião. Mas faço uma mistura totalmente pessoal e própria”, diz Drica, que se desfez de sua casa e de vários objetos pessoais. “Perdi coisas muito valiosas financeiramente, mas a vida é absolutamente maior e melhor agora, sem estas coisas. Elas talvez estivessem me atrapalhando. Quando você tem uma doença é porque alguma cosia precisa sair da sua vida.”

Serviço:
"A Primeira Vista"
Teatro Sesc Pompéia
R. Clélia, 93 - São Paulo - SP
Sextas e sábado às 21h. Domingos às 18h
até 26/05


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