Em entrevista exclusiva ao iG, o ator fala sobre seu polêmico personagem e a difícil relação com o sucesso

Adriano Garib está encostado em uma pedra na pista Cláudio Coutinho, na Urca, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Um homem para a poucos centímetros do ator, saca o celular do bolso, tira uma foto e vai embora. Sem dizer nada. “Me sinto como um quadro do Portinari”, brinca Adriano Garib, quando o homem se afasta. É com situações como esta, presenciada pela reportagem do iG , que o o intérprete do vilão Russo, da novela “ Salve Jorge ”, diz sentir certo desconforto.

Isso porque aos 48 anos – e mais de 20 de carreira – Adriano sente pela primeira vez o que é ser uma celebridade. Durante a entrevista, foram várias as vezes em que a conversa foi interrompida para que o ator posasse para fãs. “Por incrível que pareça, só estou fazendo um papel em uma novela. Mas é compreensível esse assédio, se pensarmos que o brasileiro gosta tanto de novela”, diz Garib.

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Lembro de um dia em que fui ao shopping e quando cheguei em casa havia fotos na internet que nem vi tirarem. Meu Deus, isso é uma devassa, uma invasão brutal."

A repercussão positiva nas ruas tem também alegrado e motivado o ator. No entanto, junto com todo esse turbilhão de novidades, Adriano começou a ver a sua vida íntima sendo explorada pela imprensa. “Ainda não estou lidando bem. Na verdade, é bastante incômodo. Eu ouvia dizer dos meus colegas que era difícil, mas não sabia que era tanto. Passei por uma situação pessoal, fizeram um escarcéu”, conta ele, se referindo ao rompimento de seu relacionamento com a atriz e estudante Analine Barros .

Na reta final da trama das 21h da TV Globo, Adriano acredita que seu personagem deva morrer. “Para mim, o final ideal seria ele morrer com o gato Yuri no colo, trocando tiros com a polícia. A última cena seria o gato lambendo o rosto ensanguentado do Russo no chão”, diverte-se o ator, que a partir de agora quer fugir do papel de vilão na TV. “Queria fazer um personagem marginalizado, como um homossexual que sofre com o ônus de viver à beira da sociedade. Também gostaria de fazer papeis humorados, porque tenho uma verve de comediante”.

Confira abaixo a entrevista:

iG: Você tem uma carreira sólida no teatro e fez sua primeira novela em 1996, em “Salsa e Merengue”. No entanto, seu papel de destaque e de grande repercussão veio aos 48 anos. Como enxerga isso?
Adriano Garib: Acho que isso não aconteceu antes por várias razões. A primeira é porque eu investi todo meu esforço e anseios profissionais na carreira pedagógica e no teatro. Passei por várias companhias e também criei algumas, em Londrina e no Rio. Tive contrato fixo com a Globo de 1996 a 1999 e mantive uma boa relação com a emissora de lá para cá. Fiz 45 participações e quatro novelas inteiras. Eles me chamavam de 5 a 8 vezes ao ano para apagar os incêndios. “Ah, precisamos de um advogado aqui ou de um promotor ali”. Há um mercado grande para esse tipo de atores, que chamamos de “cacheteiros”, ou seja, que vivem de cachê. Fui um ator cacheteiro por muitos anos.

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Antes de a novela estrear, me falaram até que eu ia apanhar na rua, mas sempre fiquei tranquilo, focado no meu trabalho."

iG: Isso te frustrou?
Adriano Garib: Nada. Estava muito feliz vivendo assim porque era o que tinha escolhido: dando aulas, me dedicando à companhia e, eventualmente, fazendo participações. Esteja na mídia ou não, o ator vive uma vida artística e, às vezes, ganha mais dinheiro fora da TV do que nela. Essa coisa que a TV dá mais dinheiro é mentira. Já ganhei mais rodando o Brasil com um espetáculo do que, agora, fazendo novela das 21 horas. Mas em 2010 senti necessidade de investir mais em TV.

iG: Por quê?
Adriano Garib: Estou com quase 50 anos, já estava um pouco cansado de dar aulas. Um dia tive um estalo que precisava investir mais em TV. E procurei a Globo. Não deu certo, então fui na Record e disse que queria fazer o que fosse. Não tinha restrições. Ofereceram-me um papel na novela “Vidas em Jogo” e os diretores até falaram que eu era ator demais para ele. Mesmo assim eu topei. Foi uma jogada muito acertada.

iG: Não foi arriscado?
Adriano Garib: Sim, era um papel pequeno, mas cresceu muito dentro da trama. Era o oposto absoluto do Russo. Um marido tranquilo, sensato, parceiro da Luciana Braga , que era uma louca. No final, foi a melhor coisa que fiz porque o fato de eu ter feito esta novela na Record fez com que eles prestassem mais atenção em mim. Três dias após o fim da novela, a Globo me chamou de volta. Algo como ‘Peraí, não vamos perder esse cara’. E me ofereceram, finalmente, um papel de destaque. Definitivamente, eu achava que merecia essa chance. Agradeço ao Marcos Schechtman , que acreditou e brigou por mim.

iG: “Salve Jorge” é uma novela que está sendo bastante criticada pelos inúmeros personagens e erros de continuidade. Como é ganhar destaque no meio destas críticas?
Adriano Garib: Fico feliz por estar acertando, claro. Na verdade, este personagem é um grande clichê e eu consegui me safar fazendo com muita paixão. Era para ele ser odiado publicamente, mas as pessoas na rua brincam e elogiam o meu trabalho. Hoje, o público tem um discernimento melhor do plano ficcional e do não ficcional. E também um reconhecimento que me parece mais justo. Mas acho que criticar a novela é normal. Os brasileiros acompanham as novelas com o mesmo fervor que veem os jogos de futebol da seleção.

Já ganhei mais rodando o Brasil com um espetáculo do que, agora, fazendo novela das 21 horas."

iG: As críticas incomodam o elenco e a produção?
Adriano Garib: É compreensível que em uma novela deste tamanho e com tantos personagens haja esse tipo de considerações. Não estou justificando os erros. Mas, às vezes, me parece inevitável. Acredito que as pessoas criticam menos os erros de continuidade e mais o investimento que a Glória faz na trama, que deveria ser de outra maneira, etc. Mas o público tem que entender que a novela é dela, ela a escreve sozinha e é uma autora muito assertiva. Não tem muito negócio com ela. O que ela propor, nós embarcamos. E ela sabe o que faz.

iG: E como está a repercussão nas ruas?
Adriano Garib : Antes de a novela estrear, me falaram até que eu ia apanhar na rua, mas sempre fiquei tranquilo, focado no meu trabalho. Ninguém podia imaginar o sucesso que o Russo faria. E eu não sei o porquê, já que ele é um vilão hediondo: mata, bate, espanca e até estupra. Nunca imaginei, mas me dou conta que o personagem é popular. Nas ruas, o policial adora, bandido gosta também e até criança ama porque tem medo. É como um bicho-papão, que eles admiram por temer. Mulheres adoram, ficam brincando e pedindo para que eu as leve para a Turquia. Claro, tudo brincadeira. Mas é uma loucura.

iG: Até a Gloria Perez postou em seu twitter que está surpresa com o sucesso do personagem...
Adriano Garib: É, começaram a mandar várias mensagens para ela falando que o Russo era lindo, coisas assim. E ela não consegue entender como este tipo de personagem pode ter algum tipo de carisma e suscitar fantasias tendo a personalidade que tem. A Glória é uma pessoa extremamente moralista e não é sem razão. A vida dela atesta este moralismo. No bom sentido desta expressão. Ela tem uma atitude ética incrível e condena este tipo de personagem porque acredita que ela deva fazer a parte dela para erradicar este tipo de crime. É claro que não vamos exterminar, mas pelo menos este é o grande trunfo da novela: revelar este tipo de esquema, que é a terceira maior receita do crime mundial, perdendo só para armas e drogas. Isto é um número impressionante.

iG: Com esse papel, você passou a ser também personagem da imprensa de celebridade. Como está lidando com a fama?
Adriano Garib: Ainda não estou lidando bem. Na verdade, é bastante incômodo. Eu ouvia dizer dos meus colegas que era difícil, mas não sabia que era tanto. Embora eu saiba que tem gente que faz questão de levar o próprio paparazzo para eventos, somos pessoas totalmente normais. Lembro de um dia em que fui ao shopping e quando cheguei em casa havia fotos na internet que nem vi tirarem. Meu Deus, isso é uma devassa, uma invasão brutal. Passei também por uma situação pessoal, que fizeram um escarcéu. Deixou-me deprimido. Aí, você tem de pensar duas vezes em ir a determinados lugares.

Os brasileiros acompanham as novelas com o mesmo fervor que veem os jogos de futebol da seleção."

iG: Perdeu a sua liberdade?
Adriano Garib: É natural que se pense duas vezes antes de sair. Mesmo quando quer ir a um encontro com amigos, tenho medo de que fotografem e inventem histórias que não existem. Só porque estou almoçando com alguém, falam que estou com essa pessoa e, na verdade, não estou. Tem de tomar muito mais cuidado. Não chega a comprometer a liberdade, mas vira um negócio. Por incrível que pareça: só estou fazendo um papel em uma novela. É a primeira vez que acontece comigo. Por outro lado, é compreensível. Faz parte desta profissão. Quer dizer, deste meio porque a profissão do ator é muito maior. Em TV, principalmente, tem de aprender a lidar com isso porque, se espernear muito, você pode piorar a situação.

iG: Você já disse que não quer ficar associado a papéis de vilão. Que personagem gostaria de fazer na TV?
Adriano Garib : Uma vítima, em um papel dramático. Quando estava fazendo a peça “Nu de mim mesmo”, o Sérgio Britto assistiu e disse em seu programa de rádio que eu era o melhor ator dramático do momento. Achei aquilo tão engraçado, mas me deu mais confiança também. Queria fazer um personagem marginalizado, como um homossexual que sofre com o ônus de viver à beira da sociedade. Também gostaria de fazer papéis bem-humorados, porque tenho uma verve de comediante.

iG: Como gostaria que fosse o final do Russo em “Salve Jorge”?
Adriano Garib: Não acredito que ele seja o tipo de pessoa que se entrega. E como ele não vai fazer isso, deve morrer. Acho que prender não seria o bastante. O público o odeia tanto que isso cria uma demanda para a autora: fazer o cara sofrer tudo que ele já fez com os outros. Para mim, o final ideal seria ele morrer com o gato Yuri no colo, trocando tiros com a polícia. A última cena seria o gato lambendo o rosto ensanguentado do Russo no chão. O gato devolvendo ao morto todo amor que ele recebeu (risos).

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