Em cartaz com a peça "Em Nome do Jogo", o ator fala do bônus e do ônus de seu personagem de "Avenida Brasil', divisor de águas de sua carreira, faz uma declaração a Marco Nanini e avalia o atual cenário político

Marcos Caruso se despiu da divertida malandragem do suburbano Leleco de “Avenida Brasil” em outubro de 2012 e surpreende o público que vai vê-lo no teatro. O humor solar de seu primeiro personagem cômico na televisão foi substituído pela frieza do suspense policial do dramaturgo inglês Anthony Shaffer . Na peça “Em Nome do Jogo”, escrita em 1970, Caruso divide a cena com o ator Erom Cordeiro num jogo verbal entre seus personagens.

Curta a fanpage do iG Gente no Facebook e receba as últimas notícias dos famosos

Se seu novo papel causa espanto na plateia que vai desavisada à peça em busca de um rastro do malandro da novela, Caruso conta que foi seu ex-boxeador e pai de Tufão quem pegou o experiente ator desprevenido. Com 40 anos de televisão, era segunda vez que havia sido escalado para um personagem de humor. “Sempre fiz papéis dramáticos, o senhor de idade sério, um avô amoroso, um pai bondoso, um marido banana. Hoje a TV vê em mim a possibilidade de papel cômico e de um galã maduro. Um homem que é capaz de seduzir aos 60 anos”, avalia. E Caruso quase declinou do convite feito por Ricardo Waddington , diretor de núcleo de “Avenida Brasil”. Achava que havia atores já prontos para viver Leleco. Mas decidiu aceitar o desafio: malhou, bronzeou a pele e pendurou os óculos escuros na cabeça. Assim ficou nacionalmente conhecido e desde então tem dificuldade de ir à feira apenas para observar, exercício que considera essencial para um ator. Também virou alvo de assédio das mulheres – e dos homens. “Me chamam de tesão, gostoso. Faz bem para a autoestima de um homem de 60”, diverte-se.

Eu quero ser o Marco Nanini. Ele é completo, faz tudo, é ousado. É um ser humano lindo. Eu amo o Nanini”

Entre um café e outro no camarim do Teatro Jaraguá, em São Paulo, o autor da peça de comédia de maior sucesso do País, “Trair e Coçar é Só Começar”, relembra sua carreira, seu desafeto transformado em amizade com Dercy Gonçalves , e elogia seu ídolo, Marco Nanini , com quem contracenará numa participação do seriado “A Grande Família”. Também fala do atual cenário político brasileiro. “Já acabou? Fica mais um pouco, o papo está tão bom”, diz ele ao final da conversa. Mas o público já começava a lotar a plateia para vê-lo brilhar. 

iG: O que pretende passar ao público com a peça "Em Nome do Jogo”?
Marcos Caruso : Propor o teatro do raciocínio, da palavra. Propor à plateia ouvir teatro, raciocinar teatro. Há muitos anos o público está sem este tipo de peça. A maioria é de teatro mais fácil, mais digestivo. A peça é um policial, em que não importa quem matou, mas sim porque matou. Por que um inventa o jogo? Por que o outro cai no jogo? A plateia tem que acompanhar porque senão fica boiando, dorme, olhando no relógio. E nós temos que saber como passar a história. Tinha medo de que não funcionasse, mas o texto é genial e este tipo de teatro é instigante. Eu vi as vans chegando cheias de senhorinhas para ver a peça e pensava: 'Essa turma vai dormir... Ainda bem que tem quatro tiros em cena para acordar.' No fim da peça, eu corria para as vans para saber o que acharam, preocupado com elas, e ouvia: 'Meu querido, nós estamos na fase de colocar a cabeça para funcionar'.

iG: A peça estreou sem patrocínio. Como é possível teatro desta forma?
Marcos Caruso : A lei é uma faca de dois gumes. Ela te auxilia, mas também te impede. O patrocínio encarece uma produção. O anúncio do jornal aumenta, o preço das pessoas aumentam... Acho que ainda é possível e sou a favor do teatro sem patrocínio. É muito difícil, mas ainda é possível, pois produzi muitas peças sem patrocínio. “Trair e Coçar é Só Começar” está em cartaz até hoje. E são 27 anos sem patrocínio.

Sempre fiz papéis dramáticos, o senhor de idade sério, um avô amoroso, um pai bondoso, um marido banana. Hoje a TV vê em mim a possibilidade de papel cômico e de um galã maduro, um homem capaz de seduzir”

iG: Você encenou no Rio de Janeiro na mesma época em que estava no ar em “Avenida Brasil” com o popular Leleco. As pessoas iam ao teatro para ver o personagem?
Marcos Caruso : Acho que sim. A televisão serve como vitrine para expor seu trabalho no teatro. Eu tive a sorte grande, que raras vezes acontecem. A novela estreou três dias depois da peça. Fiz o espetáculo durante a novela inteira. É raro fazer um personagem como o Leleco, absolutamente solar, popular e, no teatro, fazer um personagem lunar, escuro, impopular como este. Foi um exercício fascinante. Eu saia correndo do Projac às 21h e às 21h40 entrava no palco. Tinha intervalo de 40 minutos de um personagem para o outro. Foi um presente para mim e para o público. Quem ia para assistir ao Leleco, se surpreendia muito.

Marcos Caruso como seu famoso personagem Leleco de 'Avenida Brasil'
TV Globo/ Divulgação
Marcos Caruso como seu famoso personagem Leleco de 'Avenida Brasil'

iG: O que Leleco representou na sua carreira?
Marcos Caruso : Uma popularidade imensa. Hoje, de dez pessoas, dez me conhecem. Antes dele, seis me conheciam. Não há quem não me reconheça. A novela foi um fenômeno e Leleco foi muito popular. O que foi muito bom. O que não é bom é que eu perdi o poder da observação. Hoje sou mais observado do que observador. O que para o ator é ruim. A matéria-prima do meu trabalho é observar o outro. Não posso me fechar, vou a feira, vou a vários lugares, e as pessoas gritam: 'E aí Leleco, o que você está fazendo aqui?' Esse contato com a realidade é essencial. E o personagem significou também outra coisa: na televisão, não sou mais visto como ator dramático,  sou visto também como um ator cômico. Depois de 40 anos de TV, foi meu primeiro papel no humor. No teatro eu já fiz, mas aí tenho a oportunidade de fazer o que eu quero. Na TV, que me dá emprego, eu preciso fazer o que eles querem. E sempre fiz papeis dramáticos, o senhor de idade sério, um avô amoroso, um pai bondoso, um marido banana. Hoje a TV vê em mim a possibilidade de papel cômico e de um galã maduro, um homem que é capaz de seduzir.

iG: Até hoje as pessoas te chamam de Leleco? 
Marcos Caruso : Sempre me chamam. Um dia desses, no aeroporto, estava de óculos escuros e uma moça perguntou: 'Posso tirar uma foto, Leleco?'. Eu disse que sim e quando estava tirando so óculos, ela segurou a minha mão e falou pra eu deixar na testa. Mas não quis. O personagem é da Globo, não é meu. A função do ator também é educar o público e fazer entender que quem está na frente dele é o ator Marcos Caruso, que fez o Leleco. Ele pode até não saber meu nome, me chamar de Leleco, mas não posso agir como ele. 

iG: Quando foi chamado para fazer o Leleco, disse que era um erro de escalação porque sua biografia não tinha nada a ver com a do personagem. Quem fez o convite?
Marcos Caruso : Foi o Ricardo Waddington (diretor da novela). Eu achava que tinha muitos atores já prontos para fazer o personagem. Eu disse para o Ricardo se não era melhor chamar essas pessoas. Ele disse que não, que estava me convidando. E, claro, aceitei. Gosto do que eu não sei porque vou atrás e me enriqueço.

iG: Leleco era um esportista, que andava sem camisa. Você se preparou fisicamente para o personagem? Teve algum hábito que você manteve?
Marcos Caruso
: Ele era um ex-boxeador, um bicampeão de boxe. Sou magro, não tinha o menor porte para o papel, então eu comecei na malhação. Fiz boxe, que descobri que é incrível, malhei e tomei muito sol. O cara era do subúrbio carioca. Eu sou branco paulista. Eu levantava às 7h30, ficava na praia decorando texto até às 9h30 e ganhava uma cor.

Me chamam de tesão, gostoso. Pedem para eu ficar com elas. Faz bem para a autoestima de um homem de 60 anos”

iG: Teve algum hábito que manteve?
Marcos Caruso:
Sempre fui esportista. Nadava, andava de bicicleta e da época do Leleco, só não mantive o boxe. Mas a malhação eu continuo porque estou bonitinho, gostosinho.

iG: Era muito assediado pelo feminino?
Marcos Caruso : Muito, e pelo masculino também. De todas as idades. Todos os gêneros, sexos,  tipos. Foi o pico da minha carreira. Gritavam 'tesão', 'gostoso', 'fica comigo'. Eu levava numa boa (risos). O personagem foi muito bem construído. Ele viu uma menina, Tessália ( Débora Nascimento ), apaixonada por ele e a autoestima dele foi lá em cima. E por consequência, de todos os homens de 60 anos. Viram neste personagem a possibilidade de um dia isso acontecer com eles também.

iG: Teve uma cena mais marcante em “Avenida Brasil”?
Marcos Caruso : Tem uma que gosto muito com o José Loreto , em que eu dou várias porradas nele no bar do Silas ( Aílton Graça ). Gostava de fazer cenas com ele. Há momentos com Eliane Giardini que eram deliciosos também, a gente se beijando na dispensa, na sauna... E também cenas com o Murilo Benício , aprendi muito com ele. Era o ator com o personagem mais ingrato da novela. Ele conseguiu fazer um brilhante trabalho, que as pessoas gostavam, em cima de um personagem que poderia ser um depressivo, bobo, chato. Ele era um ponto fundamental.

Marcos Caruso posa com fãs em praia carioca
J.Humberto/AgNews
Marcos Caruso posa com fãs em praia carioca

iG: Muitos disseram que o sucesso de "Avenida Brasil" seria um problema para a sucessora Glória Perez, de“Salve Jorge”. A novela não foi muito bem no começo e acabou sendo muito criticada. Já passou por isso em alguma trama?
Marcos Caruso : Já passei por uma novela que não deu muito certo. Não sou eu que digo, mas o público e a crítica, que foi “Tempos Modernos” (2010). Foi uma novela que não emplacou. Mas é assim, não tem a obrigação de acertar o tempo todo. A Glória está levando a novela brilhantemente, mantendo a história dela. É claro que depois de um fenômeno como “Avenida Brasil”, ficam muitos órfãos. As pessoas diziam que novela como aquela não teria mais ou que era bom acabar porque poderiam a voltar as suas atividades normais e não ficar em casa. E cada um tem seu estilo. A Glória coloca 100 personagens e o João Emanuel Carneiro faz com 28. O legal é que estes autores todos são putas velhas, brilhantes, talentosos e, se tiver um percalço, eles consertam. A Glória está agora dando 40 pontos de Ibope.

Parece que os políticos concorrerem para ver quem rouba mais e consegue se manter no poder. É um status entre eles, uma briga de ego”

iG: Uma de suas peças de grande sucesso é “Vossa Excelência, o Candidato”, em que você critica a corrupção e o despreparo de pessoas para alguns cargos públicos. Você escreveu há 30 anos. O País melhorou ou piorou neste sentido?
Marcos Caruso : Piorou muito. Ela foi a primeira peça de comédia no final da ditadura. Podia falar abertamente sobre as falcatruas do poder. Hoje em dia, “Vossa Excelencia, o Candidato” se tornou história infantil. Com a democracia há uma melhora, porque você tem acesso a esta corrupção. Na ditadura, você não sabia e não podia fazer nada. Hoje, você sabe e continua não fazendo nada. Agora, estamos tentando tirar o (Marco) Feliciano , mas não estamos conseguindo. E também parece que os políticos concorrerem para ver quem rouba mais e consegue se manter no poder. É um status entre eles, uma briga de ego: 'eu consegui me reeleger presidente do Senado Federal ( Renan Calheiros )'. É uma loucura. Quantos políticos foram escorraçados pelo povo, pelos seus pares, pela Justiça e voltam? Acho que pode se dar uma segunda chance, mas é inacreditável...

iG: Você citou o Feliciano. Você acha ele uma pessoa despreparada para presidir a Comissão de Direitos Humanos?
Marcos Caruso : Não quero julgar porque não conheço o currículo dele. Talvez seja preparado academicamente para presidir uma comissão, mas não a de Direitos Humanos, que requer uma absoluta liberdade, lisura e, no mínimo, nenhum preconceito em relação ao humano. Se ele tem no currículo isso, ele não pode ocupar aquele cargo. Milhões de pessoas dizem isso e se torna algo grave.

iG: Mudando se assunto, o que gosta de fazer no tempo livre, em casa?
Marcos Caruso : Dormir depois do almoço, 45 minutos cravados. Na época de “Avenida Brasil”, chegava mais cedo, almoçava e dormia esse tempo antes de começar a gravar. Eu deito e durmo em qualquer lugar. Amo dormir depois do almoço.

iG: No começo da carreira, tinha um ator que você admirava, que te inspirava ?
Marcos Caruso : Quando comecei, queria ser o Paulo Autran . Eu o vi em “My Fair Lady” com 10 anos e virei para minha tia e disse que queria fazer aquilo para minha vida. Depois, fiquei amigo dele e um dia ele me pediu para escrever uma peça. Com o tempo, passei a ser absoluto fã, como sou até hoje do Marco Nanini . Eu quero ser o Nanini. Ele é completo, faz tudo, é ousado. É um ser humano lindo. Eu amo o Nanini.

iG: Você e o Nanini estarão juntos em "A Grande Família".
Marcos Caruso:
É uma participação. Se não me engano, vou ser o chefe, ou ex-chefe, do Lineu (personagem de Marco Nanini).

Marcos Caruso e Dercy Gonçalves: relação de tapas e beijos
Reprodução
Marcos Caruso e Dercy Gonçalves: relação de tapas e beijos

iG: Chegou a passar dificuldade financeira no início da carreira? Li que você tentou ser o Ronald McDonald. Foi isso mesmo?
Marcos Caruso:  Tinha um teste em que precisavam de uma pessoa com mais de 1,80m para trabalhar com humor e com criança. Tenho 1,91m, e já tinha escrito muita peça infantil, gostava deste universo. Precisava falar inglês também, o que não sabia. Mas tentei ser o Ronald porque precisava do dinheiro. Nesse trabalho, eu i ficaria pintado, as pessoas nem me reconheceriam. Mas não passei no teste.

iG: Você deu uma entrevista dizendo que trabalhar com a Dercy Gonçalves era insuportável (Ele a dirigiu no "Fala, Dercy", no SBT). O que aconteceu entre vocês?
Marcos Caruso : Dercy era indirigível, mas não troco a minha experiência de 11 meses ao lado dela por nada. Aprendi demais. A lição de vida, a intuição dela era algo inacreditável. Foi maravilhoso. Passaria de novo por tudo que passei. Mas foi insuportável. Pedi demissão. Mas fiquei amigo dela. Ela ligava e dizia: 'sou eu, porra!'

iG Gente: Você estará na próxima novela das 18h da Rede Globo, “Joia Rara”. Como será o seu papel?
Marcos Caruso : Não sei. Incialmente, era para ser um monge, que eu adorei a ideia porque rasparia a cabeça. Adoro mudar, transformar. Mas me avisaram que não era mais isso. Perdi uma viagem para o Nepal. Parece que vai ser um português. Não é nada oficial, apenas oficioso.

Os bastidores do ensaio de Marcos Caruso para o iG. Assista!

Serviço:

“Em Nome do Jogo”
Teatro Jaraguá
Rua Martins Fontes, 71 - Novotel Jaraguá - Sé - São Paulo - SP
Tel: (11) 3255 4380

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.