Depois de lutar contra a depressão e síndrome do pânico, cantora retoma a carreira musical com duas músicas na trilha sonora de “Guerra dos Sexos” e prepara novo álbum

Ícone da cena musical na década de 1990, Deborah Blando  já teve síndrome do pânico, depressão, lutou contra as drogas e o vício em remédios. Depois de oito anos longe dos palcos, período em que fez tratamento com psicoterapeutas, passou uma temporada reclusa na Inglaterra e encontrou no Budismo sua filosofia de vida, a cantora declara: “Hoje, vejo tudo muito diferente”.

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Em entrevista ao iG , Deborah afirma que, atualmente, sua meta de vida vai muito além da carreira profissional. “Minha intenção hoje é ser uma pessoa melhor e poder ajudar os outros”. Adepta do Budismo Kadampa (uma nova tradição na religião), a cantora, de tempos em tempos, viaja para algum templo ao redor do mundo para se renovar. Sempre com o apoio da família. “Quando eu vou fazer essas viagens, eles sabem que é a solução do problema. Toda vez que volto de lá, volto renovada, fortalecida, mais calma”, comenta a cantora, que sente uma ligação forte com o templo da Inglaterra, onde vive seu guru espiritual Geshe Kelsang Gyatso .

Mesmo focada em seu lado espiritual, Deborah retoma a carreira musical já com duas músicas na novela “Guerra dos Sexos” (veja ela cantando em vídeo abaixo) e um CD pronto para ser lançado em março, além de um DVD de carreira, que deve ser gravado ainda em 2013. E garante que aindaq tem o pé no chão: “Não estou cantando só para os outros. Estou cantando também pra ganhar meu cachêzinho, pra viver, pra comer, para poder comprar roupa bonita, pra comprar make up”, afirma. Ela ainda diz que, não é porque se encontrou espiritualmente, que precisa deixar as conquistas materiais para trás. “O caminho espiritual não é externo, é interno”.

Deborah Blando: 'Joguei os remédios no lixo e fiquei duas semanas sem dormir. Mas estava feliz e liberta'
André Giorgi
Deborah Blando: 'Joguei os remédios no lixo e fiquei duas semanas sem dormir. Mas estava feliz e liberta'

iG: Você retomou com a sua carreira musical agora e já emplacou duas músicas em uma mesma novela. Como foi isso?
Deborah Blando: É minha 16ª música de novela. Achei bacana porque o povo não esqueceu de mim. Viram que eu estava aí, que estava bem. Aí o Mú Carvalho sugeriu meu nome, para fazer “Anjo”, que é o tema da protagonista, a Mariana Ximenes,  com o Gianecchini . E o Jorginho Fernando amou a ideia. Enquanto isso, na sala de justiça (risos), eu já estava também preparando um trabalho com o DJ Antonio Eudi,  "In Your Eyes". Canto na trilha nacional e internacional.

iG: Esse é o sonho de muito artista...
Deborah Blando: Então eu tenho virado pra lua. (risos)

O sofrimento na minha vida me fez crescer. Sofri muito. Tive pânico, depressão e me enfiei num buraco que não sabia como sair. E consegui"

iG: Durante o show que você fez em Florianópolis em janeiro, você pareceu ser uma pessoa muito exigente. É isso mesmo ou estava tensa por ser seu primeiro show de volta?
Deborah Blando: O que aconteceu foi que não tinha som no palco. Nenhum. Eu não ouvia, nem os músicos. Ouvia só o que saía para o público e voltava para mim, com atraso. Fiz milagre, sinceramente. Eu saí achando que o show tinha sido uma m****. Meu maquiador falou: ‘Deborah, relaxa! Você é puta de palco’. Como tenho muita experiência, toda essa vivência fez com que eu chegasse num momento desses e continuasse o show como se nada estivesse acontecendo.

iG: Isso te deu força nesse retorno e te ajudou a ter certeza que era realmente o que queria?
Deborah Blando:  O que me dá força, é minha força interior. E o que me dá vontade de voltar, são os tantos pedidos dos fãs. E também é uma coisa que eu gosto de fazer, é minha natureza. Canto desde os três anos de idade. É o que eu faço, é o que eu sei fazer. Aliás, não faço mais nada direito.  

iG: E como eram seus dias no templo budista? O que você fazia lá?
Deborah Blando: Na verdade, sei meditar direito também. Estou brincando, eu acho (risos). Não sou uma grande chef de cozinha, não sou uma pessoa que sou expert no computador. Eu me ‘xoxo’ um pouco assim com essas coisas. Mas eu medito, meditar eu sei fazer direitinho. E estou fazendo TTP, Teacher Training Program. Faço curso de formação de professores. Então, um dia estarei dando aula de Dharma, que é o método budista para você encontrar paz interior e encontrar felicidade.

iG: Você fala bastante do “hoje”. Mas você já passou por momentos de depressão no passado, por problemas de saúde...
Deborah Blando: Já passei por muita coisa.

Deborah Blando: 'Você não encontra felicidade em uma pílula'
André Giorgi
Deborah Blando: 'Você não encontra felicidade em uma pílula'

iG: Em que momento você se transformou no que é hoje e o que seus problemas de saúde contribuíram para isso?
Deborah Blando: Você vai mudando. Esses últimos oito anos é que realmente me trouxeram uma transformação maior. Foram os anos que mais sofri na minha vida. Buda fala: “suffering has many good qualities” (o sofrimento tem muitas qualidades). Você fica mais humilde, tem mais compaixão pelo outro. O sofrimento na minha vida me fez crescer. Sofri muito. Tive pânico, depressão e me enfiei num buraco que não sabia como sair. E consegui. A vida foi boa comigo, encontrei uma grande psicanalista, faço psicanálise até hoje, e foram dois anos para eu conseguir largar dos remédios, que era meu grande vício. Quando eu estava preparada, fui morar fora, num templo budista, aonde eu consegui largar todo o resto dos remédios que sobraram. Cheguei lá, me senti tão confiante e capaz que fiz uma loucura: joguei todos no lixo ao mesmo tempo. Fiquei duas semanas sem dormir. Mas eu estava feliz, me sentindo liberta e forte.

iG: Você comentou em uma entrevista recente que precisa de droga para se sentir viva. Essas drogas eram os remédios?
Deborah Blando: São os remédios. Até tive problemas com drogas, mas, por causa dos remédios. O que me deu depressão foi o próprio remédio para a ansiedade, que é do pânico. Virei um zumbi. Começa a tomar anfetamina, qualquer coisa que tenha “ina”. O dia que larguei os remédios, não quis nem mais ver anfetamina, cocaína, ou qualquer coisa assim. Não tinha necessidade. Necessidade do “ina”, cafeína, que seja, era para levantar da cama, do exagero dos remédios que os psiquiatras me entupiram. É um perigo muito grande a psiquiatria de hoje e a indústria farmacêutica. As pessoas querem vender remédios, os psiquiatras querem te manter viciados no remédio, você continua voltando nas consultas, eles te dão um label (rótulo): ‘ah, é bipolar’. Eu tive todos os “labels” que você pode imaginar, cada um falava uma coisa. No final, não era nada disso. Hoje sei, minha família sabe, que não tem essa de bipolar. Isso é um nome que as pessoas dão para poder medicar e a indústria farmacêutica fazer tanto dinheiro.

O dia que larguei os remédios, não quis nem mais ver anfetamina, cocaína, ou qualquer coisa assim. Não tinha necessidade. Necessidade do “ina”, cafeína, que seja, era para levantar da cama, do exagero dos remédios que os psiquiatras me entupiram"

iG: Em que momento você percebeu tudo isso, e decidiu jogar os remedidos fora para recomeçar?
Deborah Blando: Sempre fui careta, nunca usei drogas. No momento em que eu estava começando a usar droga, eu vi que não era mais eu. Porque, eu, jamais usaria. A Deborah, jamais usaria. Pode ter certeza disso. O fato de eu estar usando, tinha uma coisa muito errada.

iG: Quando você faz essas viagens para os templos, sua família fica no Brasil?
Deborah Blando : Fica.

iG: E como é o apoio deles em relação a isso?
Deborah Blando: Quando eu vou fazer essas viagens, eles sabem que é a solução do problema. Eles sabem que vou voltar melhor. Toda vez que volto de lá, volto renovada, fortalecida, mais calma. Todo mundo que pratica o Dharma, que medita, você vê uma diferença absurda na pessoa. Ela fica bem mais calma, mais amorosa, carinhosa.

iG: Você falou dos oito piores anos de sua vida...
Deborah Blando: Não foram oito piores anos. Foram cinco piores anos dentro desses oito. Cinco anos de bastante sofrimento.

iG: O que passava na sua cabeça nessa época? Em algum momento pensou em desistir de tudo?
Deborah Blando: Passava que eu era uma pessoa infeliz. Passava tristeza, sofrimento, eu chorava muito. Passava que eu não sabia como eu iria largar aquilo ali. Achava que aquilo iria me ajudar. Se eu tomasse mais um, de repente, me ajudava mais. Eu estava equivocada, porque acreditei nos psiquiatras e entrei nessa viagem. Você não encontra felicidade em uma pílula. Se a felicidade é um estado da mente, como é que você vai encontrar fora? Eu achava que ia encontrar fora, numa pílula, num relacionamento, numa casa nova.

Tive pânico por causa do público. Eles arrancavam meu cabelo. Era muito difícil andar na rua, andar com segurança. Não queria ter uma vida sem privacidade. Só que, hoje, vejo tudo muito diferente"

iG: Ou então no público, no carinho dos fãs?
Deborah Blando: Ah, ali eu já sabia que não encontrava.

iG: Por quê?
Deborah Blando: Porque eu tive pânico por causa do público. Eles arrancavam meu cabelo. Era muito difícil andar na rua, andar com segurança. Não queria ter uma vida sem privacidade. Foi isso que começou, na verdade, meu pânico. Foram as pessoas querendo arrancar meu cabelo. Só que, hoje, vejo tudo muito diferente. Em primeiro lugar, o público não arranca meu cabelo. Segundo, é diferente. Não sei, acho que o sucesso foi muito rápido.

iG: Você completou 44 anos. Tem medo de envelhecer?
Deborah Blando: Já tive. Passei dessa fase. Uma das coisas que me atrapalhou foi o medo de envelhecer.  Mas hoje em dia estou tão bem. Não troco meu corpinho por um de 20 com a cabeça de 20. Acho que envelhecer é um processo. Você envelhece o corpo, mas amadurece a alma. 

Deborah Blando: 'Tive pânico por causa do público. Não queria ter uma vida sem privacidade'
André Giorgi
Deborah Blando: 'Tive pânico por causa do público. Não queria ter uma vida sem privacidade'

iG: Mesmo parecendo ser muito focada no presente e, não no futuro, aonde você quer chegar profissionalmente agora que retomou a carreira?
Deborah Blando:  Meu objetivo é me tornar um Buda, um dia, para o benefício de todos. Me tornar uma pessoa iluminada por dentro. Você fala: ‘a Deborah quer ser um Buda, ela enlouqueceu’. Não! Não digo que vou ser. Digo que, se eu tiver essa intenção -- e a gente acredita que se eu continuar com essa intenção na próxima vida, levo essas marcas --, um dia eu chego lá. Minha intenção hoje é ser uma pessoa melhor, um ser humano melhor, e poder ajudar os outros.

Meu objetivo é me tornar um Buda, um dia, para o benefício de todos. Me tornar uma pessoa iluminada por dentro"

iG Gente: Sua carreira musical, hoje, é voltada para os seus fãs ou é também pensando em você?
Deborah Blando: Não vou ser hipócrita, também é onde tiro meu prazer. Se eu não estiver bem, feliz e realizada, eu não vou poder fazer nada por ninguém. Faço para mim também, mas não para mim, independente dos outros. Mas não estou cantando só para os outros. Estou cantando também pra ganhar meu cachezinho, para viver, para comer, para poder comprar roupa bonita, make up. Não é uma coisa assim, ‘ah, vou virar uma monja’. O caminho espiritual não é externo, é interno. Então posso ter o carro do ano, posso ser uma pessoa vaidosa. Aquilo faz parte do dia a dia, do que faço. Por fora, não tem que nada mudar. O que tem que mudar, é dentro.

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