O Christian Pior do “Pânico” já morou em pensão, dividiu apartamento com um travesti, vendeu “muamba” do Paraguai. Com o sucesso, conheceu o lado interesseiro do ser humano

Evandro Santo gosta de bagunça. Tanto gosta que marcou a nossa conversa em seu apartamento, que está em obras. Porém, nesse cenário de perfeito caos, fez questão de manter o controle. Na hora das fotos, enquanto fazia pose no meio das caixas da reforma, sabia exatamente o que queria diante das câmeras.

Evandro é um turbilhão. Gay assumido, sagitariano, mineiro de Uberaba, o humorista que faz sucesso no “Pânico na TV” é também colunista da revista gay “Junior”, ama a Madonna – a geladeira é coberta de fotos dela –, sabe tudo de astrologia e coleciona gibis e livros de moda.

Siga o Twitter do iG Gente e acompanhe todas as notícias dos famosos

Tem a mesma empregada há 14 anos, dona Sebá , que já o ajudou várias vezes com as contas da casa. Em tempos de vacas magras, se um cachê não caía no prazo, era ela que o socorria. “Ela me emprestava R$ 300 reais para pagar o aluguel, e, assim que eu recebia, devolvia R$ 330”, lembra ele. Daí veio o sucesso, os amigos, os nem tão amigos assim, a redescoberta de sua mãe, a quase descoberta de seu pai e muitas conclusões de vida. Confira a conversa...

iG: Ficar famoso abalou muito sua vida?
Evandro Santo: Eu vivo aqui na região do Baixo Augusta, um dos lugares mais efervescentes de São Paulo. À noite dou umas voltas por aí e puxo assunto com uma prostituta, um mendigo, um travesti, um jovem sem grana. Isso aqui é um observatório de tipos humanos, com tipos que não encontro nas festas da bacanagem que frequento a trabalho. Aqui faço compilações de bordões e observações ferinas, lá me abasteço de combustível para o Christian Pior (seu personagem mais famoso, paródia do estilista Christian Dior que interpreta no “Pânico” desde 2007). Devo tudo a esse viadinho!

Evandro Santo
André Giorgi
Evandro Santo


iG: Mas ele te deixou em algumas saias justas, como na estreia da peça “A Partilha” no Rio.
Evandro Santo: Estava ali para brincar e entrevistar a Susana Vieira , não tenho a menor pretensão de ser amigo dela. Mas ela não gostou de uma brincadeira que eu fiz e arrancou o microfone da minha mão. Acontece.

iG: Você repetiria a brincadeira?
Evandro Santo: Acho que eu tenho um jogo de bater e assoprar. As pessoas têm pesos culturais e sociais diferentes. Por exemplo, a Marieta Severo . Ela tem um peso cultural, não posso tratá-la de qualquer maneira em uma brincadeira. Ela, a Fernanda Montenegro , a Arlete Salles . Meu desafeto com a Susana Vieira começou com uma lenda: toda pessoa em que o Miguel Falabella dá um selinho se transforma em uma pessoa de sorte. A Zezé Polessa levou selinho e dá sorte, a Claudia Jimenez também, e assim por diante. Perguntei para o Miguel: ‘É verdade que a sua boca tem o poder de transformar a vida de alguém?’ Ele riu e disse: ‘Quanta besteira!’ Na hora em que eu perguntei isso para a Susana, ela se irritou, porque queria que eu perguntasse exclusivamente sobre ela: era estreia da peça dela, ela que deveria ser entrevistada. Mas ela esqueceu que “A Partilha” não era um solo, são quatro atrizes, o Miguel que dirigiu. A Susana Vieira é muito boa atriz, sim. Mas ali parecia que a peça era só dela, que ela escreveu, que ela era a atriz principal. Entrou numa egotrip e pirou, arrancou o microfone da minha mão.

iG: Como lida com esse tipo de situação?
Evandro Santo: Não curto essa “vibe celebrity do Rio”, sou um cara do Baixo Augusta, curto outros movimentos. Acho muito agressiva uma atitude como essa, tem uma hora em que não há talento que justifique a arrogância. Tem que saber se controlar. Tudo bem, é o “Pânico”, muita gente deve ter medo, muita gente vira a cara e sai andando, é um direito dela. Mas quando você é uma pessoa pública, precisa saber sair de fininho. Eu não recebo só flores no meu trabalho, elogios do meu chefe. Levo chicotadas, broncas, tenho cobranças e esse é o lance da vida adulta. Nem tudo o que se faz é brilhante.

"Não curto essa ´vibe celebrity´do Rio, sou um cara do Baixo Augusta, curto outros movimentos. Tem uma hora em que não há talento que justifique a arrogância. Tem que saber se controlar

iG: Como era a sua vida antes de fazer sucesso?
Evandro Santo: Passei por momentos difíceis, tinha até um Plano B caso nada desse certo. Cheguei a São Paulo em junho de 1990 e passei seis meses tentando me adaptar. Morei com uma travesti engraçada, com nordestinos, morei numa pensão, até me fixar na rua Santo Antônio, onde fiquei três anos. Nos anos 90, auge das muambas do Paraguai, eu vendia walkmen, cuecas, calças da Forum e da Zoomp falsificadas, óleo de rosa mosqueta. Depois trabalhei numa livraria que nem existe mais e o Otávio Mesquita me convidou para fazer alguns telegramas animados, foi aí que comecei a ficar conhecido. A partir daí as coisas aconteceram.

Evandro Santo
André Giorgi
Evandro Santo


iG: Seu livro "O Melhor do Pior" logo estará nas prateleiras. Do que se trata?
Evandro Santo: Não parei para escrever o livro, apenas resgatei muita coisa para fazer um livro de comportamento, humor, ironia e deboche. Fiz uma compilação das melhores crônicas, das mais engraçadas. Cacos viraram textos fixos e vice-versa. É uma das minhas apostas para esse ano. Além do livro eu quero continuar viajando o Brasil com o espetáculo “Espia Só” e realizar alguns dos meus sonhos, como conhecer Veneza, ser capa da “Veja” (risos), fazer um filme, dar 20 pontos (no Ibope) para o ‘Pânico’ e ter a melhor transa do ano!

iG: Como é o seu show de humor "Espia Só"?
Evandro Santo: Eu sou bem puta na hora de trabalhar, trato a plateia como se fossem os meus clientes. Se uma coisa não está funcionando, não me apego ao texto, não tem essa de “ah, minha piada é incrível”. Vou naquilo que a plateia gosta. Se a piada não funcionar, mudo a rota sem o menor problema. Eu trabalho para o público, para a pessoa que pagou o ingresso. Não tem aquela coisa de “a plateia é burra porque não entendeu”. Se eu acho que meu humor é inteligente, mas só eu entendo, e a plateia não reagiu, tiro imediatamente a piada e coloco outra coisa mais fácil. Não tenho pudor no palco.

Sou bem puta na hora de trabalhar, trato a plateia como se fossem os meus clientes. Se uma coisa não está funcionando, não me apego ao texto. Vou naquilo que a plateia gosta. Não tenho pudor no palco.

iG: E no “Pânico”?
Evandro Santo: Não sou o líder, não sou o chefe do programa. Eu executo o que o Alan ( Rapp ) e o Emílio ( Surita ) mandam com muito prazer, eles que têm a visão do diretor. Eu tenho a visão de artista.

Evandro Santo
André Giorgi
Evandro Santo


iG: Como é seu processo de criação?
Evandro Santo: É meio louco, não tem método. Tenho uma frase: a coisa mais mal educada é a inspiração, ela vem e vai embora à hora que quer. Às vezes vem uma expressão, uma ideia, alguém solta uma frase na balada, e eu estou dançando louco, e tenho que anotar. Vou para o banheiro e escrevo, porque senão você perde aquela frase e amanhã você não vai lembrar. Tenho um caderno de notas e gosto de escrever à mão, minha peça eu escrevi à mão. Então eu trabalho ‘full time’, 24 horas.

iG: Além da Madonna e de astrologia, que mais você gosta de fazer?
Evandro Santo: Leio gibis, vejo seriados: “Gossip Girl”, “Super Natural”, “Walking Dead”, vejo shows da Rihanna , o documentário da Katy Perry . Vejo e revejo filmes de rainha, Anna Bolena , Elizabeth . Tive fase de fazer um paralelo entre as religiões: li a Bíblia, religiões africanas e mitologia grega. Tem épocas em que fico bem vagabundo intelectualmente: não leio nem vejo nada. Pego as coisas da rua. Tenho um hábito de sair pela Rua Augusta à noite. Entro nos botecos, falo com o povo, converso com um, com outro, sou manjado aqui na área. Eu vou a pé ao Studio SP, no Beco, na Lôca, gosto de sentir essa coisa da rua: o cheiro do xixi, o mendigo, a puta, o travesti, o jovem sem grana, o louco de cerveja, gosto desse burburinho. Mas eu tenho janelas anti-ruído (risos).

iG: Qual o momento mais marcante da sua carreira?
Evandro Santo: Quando fui descoberto no ‘Pânico’, em 2007, foi muito marcante. Quando fiz o casamento da Wanessa , minha primeira matéria, foi emocionante. Quando descobri que a Rita Lee sabia que eu existia também: ela parou para me dar uma entrevista em um festival de música no Rio e disse: ‘Christian Pior, eu gosto de você, tem um raciocínio rápido’. Quando eu consegui entrevistar o Pelé , a Alcione , a Fernanda Montenegro , a Marieta Severo , o Rodrigo Santoro , algumas pessoas que fazem parte da história da TV. Quando consegui falar com Renato Aragão , com a Claudia Leitte . Várias vezes eu pensei: ‘Caramba, falei com essa pessoa!’. Me emocionei ao falar com o Sérgio Reis , a Baby do Brasil , eu adoro “Brasileirinho”. É uma sensação de: ‘Meu Deus, eu admirei essas pessoas a minha vida inteira e agora eu as entrevistei!’

iG: E os momentos difíceis?
Evandro Santo: O ano passado foi conturbado emocionalmente. Levei facadas, mas saí andando. Tive problemas de contador, com amigos. Fui sacando o quanto a questão do dinheiro ou da suposta fama pode mudar a cabeça de pessoas. O quanto se pode conhecer pessoas interesseiras, tanto interessantes quanto desinteressantes. Se forem interessantes, ok, eu tiro proveito. As desinteressantes são gananciosas, gente para quem você dá muita coisa, seja emocional ou mentalmente, e a pessoa quer mais e mais. Gente que te suga: você diz que não pode dar aquilo que ela quer, e você sai como vilão. Foi um ano em que eu cortei um monte de cabeças. Fiz uma faxina. Foi difícil, é preciso ter coragem. Mas não quero um bando de puxa-sacos do meu lado.

O ano passado foi um ano em que cortei um monte de cabeças. Fiz uma faxina. Foi difícil, é preciso coragem. Mas não quero um bando de puxas-sacos do meu lado..

iG: Como lidou com a história de o “Pânico” ter ido atrás do seu pai, que você nunca conheceu? Você era contra, certo?
Evandro Santo: Fiz aquilo por amor ao programa, mas nunca assisti a um capítulo. Eu fazia e me entregava, mas sofria. Foi bem ‘dark’, é um período que eu chamo de blackout. Eu saía todas as noites, frequentava todos os afters da cidade, ia dançar, emendava uma balada na outra. Foi um período psicologicamente complicado, mas muito legal. Eu criei coisas legais nessa época, mas não tão leves. Fui fundo em algumas coisas, mas nunca consegui assistir um capítulo do ‘Em nome do Pai’. Não tenho vontade, seria emocionante demais para eu ver. Via como era editado, chorava, mas só.

Evandro Santo
André Giorgi
Evandro Santo


iG: E no final aquele homem que encontraram não era seu pai. Pretende continuar atrás da sua história?
Evandro Santo: No programa, não. Iria expor demais a minha mãe, e ela não tem preparo para isso. Eu tenho. Aguento uma pedrada, xingamentos, sou uma pessoa pública. Então talvez, por esse recém-descoberto amor e proteção por ela, achei melhor não.

Tenho o hábito de sair pela rua Augusta, entro nos botecos, falo com o povo, converso com um, com outro. Gosto de sentir essa coisa da rua: o cheiro do xixi, o mendigo, a puta, o travesti, o jovem sem grana, o louco de cerveja, gosto desse burburinho. Mas eu tenho janelas anti-ruído (risos)

iG: Quem mais te ajudou a superar esse momento?
Evandro Santo: A Sabrina ( Sato ) tem o dom de deixar as coisas suaves, ela é uma dama, uma aquariana perfeita. É muito humanista. Se não fosse ela e a Raffinha ( Sorretino , produtora), acho que não teria ido tão fundo.

iG: Sempre teve esse jeito expansivo? Como você era quando criança?
Evandro Santo: Era muito magrelo, pretensioso, curioso, metido, achava que tudo ia dar certo. Fazia amizade fácil, me dava bem com todo mundo. E isso é muito importante. As pessoas falam que São Paulo é uma cidade filha da puta, mas as melhores pessoas que conheci foram aqui. Eu consegui pessoas muito pontuais que me ajudaram: Andrea Barreto , Fernanda Chamma (‘Dança dos Famosos’), Emílio Surita, Sabrina (Sato), meu amigo Álvaro , que morreu. Ele dizia: ‘Você tem três minutos. Quero que você misture cavalo, ouro e maçã. Se vire, psicografa aí!’ Tive pessoas que foram me encaminhando, sempre tive anjos, muita gente legal. E claro que muitos filhos da puta também. Não acredito que você faça nada sozinho. Nunca acho que sou eu, é a equipe, são os produtores. Grandes piadas minhas foram os produtores que me deram. Às vezes, não acreditava na pauta e eles me incentivavam: vai render, vai ser bom!’. Não dá para ignorar ajuda alheia. Na rua, com a equipe, somos todos iguais.

iG: Você é grato ao Christian Pior ou ele eclipsou o Evandro Santo?
Evandro Santo: Devo tudo a ele. Não tenho nenhum problema com as pessoas que me chamam de Christian, ou da bicha do "Pânico". Quando perguntam se o personagem já não desgastou, digo que um personagem pode ter muitas vidas. Assim como o ser humano, o personagem tem uma infinidade de histórias. Foi o que eu sempre quis e não posso reclamar do jeito que a coisa veio. A coisa veio, e é a isso que tenho que agradecer.

Evandro Santo
André Giorgi
Evandro Santo


    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.