Em cartaz com uma peça que discute a fama, a atriz fala sobre a relação com seu namorado, os valores de liberdade que quer passar para o filho - e sobre o que realmente importa na vida

“Na vida real a gente não fica nu? Não trepa?”, se indigna a estrela Mariah, atriz famosa que Priscila Fantin interpreta na peça “A Entrevista”, em que contracena com Herson Capri e está em cartaz no Teatro Vivo, em São Paulo. De cara, atriz e personagem têm em comum o fato de serem estrelas, famosas, reconhecidas. E o discurso indignado de Mariah em cena também reflete um pouco da indignação de Priscila com a falsidade reinante. “Para o inferno com a hipocrisia!”, grita Mariah em outro momento do espetáculo, se referindo à dificuldade da dramaturgia para representar com verdade a realidade.

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Com dez anos de carreira, Priscila defende que Mariah e ela vivem no mesmo universo, mas suas condutas são totalmente opostas. “Tenho que dar o exemplo”, observa ela, que agora se encontra em um novo papel: o de mãe de Romeo , 1 ano. E usa luvas de pelica para se referir à questão mais espinhosa de sua personagem: a exposição da intimidade. “Mariah extrapola o limite do pessoal: abre a vida dela toda, fala sobre tudo, com quem sai, o que faz. Nada é pessoal, é de todo mundo. Eu sou reservada.”

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A vida extravagante, o uso de drogas e a vocação notívaga de Mariah não têm vez na vida íntima quase prosaica da baiana criada em Belo Horizonte e radicada no Rio, onde mora com o namorado, Renan Abreu , e o filho do casal. “Não somos casados”, esclarece ela. “Tenho vontade de fazer uma celebração para oficializar a nossa união.” Quando não está atuando, gosta de colocar os pés na terra e de abraçar árvores. No tempo livre, relaxa, vê filmes com o namorado e vai ao parquinho com o filho. Confira a conversa de Priscila com o iG, no camarim do espetáculo em São Paulo.

Herson Capri e Priscila Fantin, protagonistas da peça “A Entrevista”
André Giorgi
Herson Capri e Priscila Fantin, protagonistas da peça “A Entrevista”

iG: Depois que seu filho nasceu, você ficou um tempo afastada. Foi vontade ou circunstância?
Priscila Fantin: Não rolou nenhum convite, mas fiz a renovação do meu contrato com a TV Globo até 2015. Sabem que estou disposta, mas disseram para eu relaxar e curtir o meu filho. É um privilégio.

iG: A maternidade deve mudar tudo. Conte um pouco da sua experiência.
Priscila Fantin: Muda a perspectiva, a forma como você enxerga tudo, tem uma lente diferente. Eu era muito destemida, radical e hoje em dia eu prezo muito mais a minha saúde e integridade. Presto atenção só no que realmente é importante na vida.

iG: Você teve uma formação conservadora, foi criada em Belo Horizonte. Que tipo de educação você e o Renan querem dar para o Romeo?
Priscila Fantin: Acho que alguns valores que recebi em casa vão permanecer. Mudaria talvez a rigidez de comportamento. Eu tenho uma liberdade que é minha e não tem a ver com a minha criação. E o Renan tem uma alma totalmente livre e leve. Então nosso filho tem isso: a gente deixa que ele descubra e seja quem ele é de verdade. A gente não o limita, não poda, não castra. Claro que há um cuidado para que a integridade, o psicológico e o físico dele estejam sempre protegidos. Penso muito em quando dizer não. Porque a criança já escuta tanto não e antes de dizer “não pode”, penso: “Não pode por que?”. Se é só porque o adulto não quer se dar ao trabalho de limpar o chão, ou se não pode porque não vai fazer bem para ele.

iG: Como é a sua rotina no Rio?
Priscila Fantin: Como estamos sem babá há dois meses, nossa rotina é em função do Romeo, pois ele demanda muita energia. A gente acorda às 6h da manhã, come, e faz uma atividade. Bicicleta, parquinho, joga bola, alguma coisa em que ele gaste energia. Volta, almoça, toma banho, dorme duas horas e à tarde fazemos um novo passeio. Umas sete ele dorme e a gente está destruído! Ele é muito agitado, tem uma energia que transborda.

Priscila Fantin: 'Eu tenho uma liberdade que é minha e não tem a ver com a minha criação'
André Giorgi
Priscila Fantin: 'Eu tenho uma liberdade que é minha e não tem a ver com a minha criação'



iG: E a vida de casal?
Priscila Fantin: A gente é mais caseiro e quando queremos fazer alguma coisa, contamos com a ajuda da minha sogra e da minha mãe. O que a gente faz de casal é ver filmes, relaxar e curtir. Somos muito família.Tenho vontade de ter mais filhos, mas não agora, quero trabalhar mais. Só não quero que fique muito distante do Romeo, para ele também poder curtir a companhia.

iG: O que você tem de semelhante e diferente da sua personagem em “A Entrevista”?
Priscila Fantin: Somos totalmente diferentes. Ela preza muito a estética, eu não. Ela é aberta, eu sou reservada. Ela usa drogas, eu não. Essas são as principais diferenças. De parecido, vivemos no mesmo universo, talvez a gente se depare com as mesmas questões e mesmas dificuldades emocionais de sermos quem somos. A gente tem uma persona pública e uma vida pública. No caso dela, ao mesmo tempo em que ela é superbajulada pelas pessoas, é muito sozinha, carente, tem o emocional destroçado. Quanto a mim, percebi depois de 10 anos de carreira que é preciso olhar para dentro e cuidar de mim, do meu emocional.

Tenho uma persona pública, uma vida pública. E, depois de 10 anos de carreira, percebi que é preciso olhar para dentro e cuidar de mim, do meu emocional

iG: Como foi o início da profissão?
Priscila Fantin: Caí de paraquedas na profissão e fui indo. Teve horas em que não queria trabalhar por causa da exposição, me sentia muito invadida. Desde nova quis a minha independência financeira, minha liberdade. Como as coisas foram acontecendo na minha vida sem metas ou estratégias - os papéis, personagens, novelas, capas, tudo veio vindo -, fui cumprindo porque adoro a profissão. De repente, eu parei e perguntei: onde é que eu estou? Que lugar é esse? E cuidei desse lado. A Mariah ainda não fez isso.

Priscila Fantin: 'Desde nova quis a minha independência financeira'
André Giorgi
Priscila Fantin: 'Desde nova quis a minha independência financeira'

iG: Qual foi seu primeiro contato com a fama?
Priscila Fantin: Desde que fiz “Malhação”, aos 16 anos, tudo mudou. Eu ia ao shopping e todas as pessoas me olhavam como se fosse um ET. Aquilo me agredia: falarem de mim, cochicharem, me apontarem. Hoje já sei lidar com isso. Tem quem me admira, tem quem nem sabe meu nome, mas sabe que sou famosa, então me puxa pelo braço, já até me agrediram fisicamente. Isso não é admiração. Admiração é lindo, eu respeito e dou a mão. Mas quando passa disso, não.

iG: Essa peça é uma crítica pessoal?
Priscila Fantin: Já era a fim de falar sobre essas questões, de colocar as pessoas para pensar no que vale ou não vale a pena. O que é a fama? Hoje há uma busca desenfreada pela fama a qualquer custo. Acho que a humanidade está batendo a cabeça, se esvaziando cada vez mais. Então é uma realização parar para pensar nessas questões. Nas entrelinhas, surgem esses questionamentos: vocês estão vendo tudo isso? Essa atriz é famosa, maravilhosa, tem os peitos mais desejados do Brasil, ela é isso e aquilo, mas e daí? Como ela fica sozinha em casa? É disso que eu gosto, de discutir sobre o que realmente importa nisso tudo.

Cada vez mais as pessoas estão acreditando menos umas nas outras, se apoiando menos. Estão preocupadas com a fama e beleza, todas querem aparecer. Ninguém mais estende a mão: cada um briga por um lugar e não ajuda os outros

iG: E você chegou a que conclusão?
Priscila Fantin: Que cada vez mais as pessoas estão acreditando menos umas nas outras, se apoiando menos. Estão preocupadas com a fama e a beleza, todos querem aparecer. Ninguém mais estende a mão: cada um briga por um lugar e não ajuda os outros.

iG: Como lidou com a fase de polêmicas? Por exemplo, quando Renan foi pego fumando maconha ou quando foi noticiado que você o agrediu?
Priscila Fantin: Foram situações muito injustas comigo, pois eu não tinha voz ativa, fiquei muito à mercê do que quisessem falar, sem assessoria também... Hoje, se alguém fala uma coisa que não é verdadeira, é imediatamente desmascarado. Eu demorei muito para ter o meu Twitter, só no final do ano passado fui entender essa ferramenta e o quanto poderia ser usada a meu favor. O Twitter é uma maneira de não deixarem me desmoralizar. Foram várias situações em que fui injustiçada, mas processar não valia a pena. (As notícias a que a atriz se refere são a de que ela teria brigado fisicamente com o namorado, de que teria agredido uma ex dele numa balada, e de que ele é consumidor de maconha).

iG: Por quê?
Priscila Fantin: Já tive que frequentar o juizado por questões judiciais e é uma energia tão densa, pesada, difícil de atravessar, que não compensa. Perder um tempo com o meu filho para brigar por alguma coisa? Falem o que quiserem, Deus está vendo e meus familiares sabem quem eu sou. É isso que vale. Apesar de falarem barbaridades a meu respeito, resolvi ficar na minha e deixar as coisas passarem. Fiquei feliz com a minha postura, pois as pessoas que se importam comigo sabem a verdade. Era bonito de ver que por mais que tentassem sujar, pichar, a essência ainda aparece de alguma forma.

Priscila Fantin: 'Quando estou tranquila, feliz, a beleza fala, sai pra fora'
André Giorgi
Priscila Fantin: 'Quando estou tranquila, feliz, a beleza fala, sai pra fora'





iG: Como você lida com a sua beleza?
Priscila Fantin: Tenho uma teoria: acho que a gente está bonito quando está feliz. Tive algumas fases mais difíceis, quando não estava bem, em que não ficava bonita. Não tem como, a gente não brilha. O cabelo fica ruim, tudo fica ruim. Quando estou tranquila, feliz, a vida está indo - apesar de todos os problemas que todo mundo tem -, a beleza fala, sai pra fora.

iG: Você se cuida muito?
Priscila Fantin: Eu tenho uma genética muito boa. É só eu ficar magrinha que fica tudo bem. Não posso nem malhar muito senão fico muito fortinha. Não ter babá também é um grande fator. Apesar de estar louca para voltar a fazer esporte e não poder por causa do Romeo, está balanceado, rola uma compensação. Tenho a yoga como filosofia de vida, me alongo todos os dias. De esporte, o que estou gostando de fazer atualmente é futevôlei e muay thai. Não é a luta nem o jogo em si, é a preparação física, o exercício funcional que está por trás.

iG: O que vê quando se olha no espelho?
Priscila Fantin: (Ela para pra pensar). Vejo alguém que está lutando o tempo todo para que tudo esteja bem.

Minha vida sempre foi atribulada, aos seis anos de idade eu já tinha passado por quatro cidades. A vida é tão surpreendente para mim que tenho dificuldade nas escolhas de longo prazo

iG: Você é calma?
Priscila Fantin: Renan não acha muito não (risos). Minha paciência não tem limite. Vai, vaaai, pinta e borda. Mas quando chega o momento, sai de perto! Sou ótima de conviver no trabalho, mas em casa, com conta para pagar, a empregada que falou mal da outra, minha cabeça fica muito ativa: ‘zumzumzum’. Quem está do lado, no caso o Renan, é atropelado (risos). A vida tem tanta coisa para cuidar, ver, resolver, escolher. Tenho dificuldade de escolher quando as coisas são de longo prazo.

iG: Em que situação, por exemplo?
Priscila Fantin: Estou fazendo uma obra, que é um dos meus sonhos, e tudo o que escolher é para o resto da vida, vai durar para sempre, tenho dificuldade nisso. Minha vida foi sempre atribulada, nasci em Salvador, fui para São Paulo, do Rio para Belo Horizonte, aos seis anos já tinha passado por quatro cidades. Voltei para o Rio, onde fiz faculdade, namorado, trabalho, novela. A vida é tão surpreendente para mim que tenho dificuldade nas escolhas de longo prazo.

iG: Onde quer chegar na sua carreira?
Priscila Fantin: Num equilíbrio, que é o que a gente busca o tempo todo.

Priscila Fantin sobre si mesma: 'Vejo alguém que está lutando o tempo todo para que tudo esteja bem'
André Giorgi
Priscila Fantin sobre si mesma: 'Vejo alguém que está lutando o tempo todo para que tudo esteja bem'


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