O jurado do "Ídolos Kids" relembra os tempos de histeria do grupo, fala do seu lado produtor e elogia Roberto Justus: "Não existe faculdade em que eu pudesse aprender mais do que ao lado dele"

Afonso Nigro se diverte ao lembrar de seus 14 anos, quando só perdia para o rei Roberto Carlos em venda de discos e encontrava mulheres escondidas debaixo de sua cama nos quartos de hotel. “Era aquela coisa Beatles mesmo”, conta ele, sem exagero. Afonso fazia parte do grupo Dominó – uma versão brasileira do Menudo – e ao lado de Nill , Marcelo e Marcos vivenciaram a histeria e o sucesso em meados dos anos 1980, quando despontavam com os hits “P. da Vida” e “Manequim”. Chegaram a vender 1,5 milhão de cópias de um único álbum, de 1987, apareciam em todos os programas de TV e as mulheres faziam fila para os garotões. “A gente pegava de atriz de novela das oito da Globo a camareira”, diz, mas com a elegância de não querer citar nomes.

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O que vou fazer com um disco? Mostrar para minha família? Para estourar na televisão e na rádio hoje, só com muito dinheiro”

Afonso saiu do grupo em 1992 – o Dominó acabou dois anos depois –, seguiu carreira solo, cantou com astros latinos, participou de musicais e hoje é mais feliz como produtor, mas sem abandonar carreira de músico. Ele garante que não tem a vaidade de lançar um novo disco, seu último álbum saiu em 2003, e não entrou em depressão com o arrefecimento da fama.

Aos 41 anos, o pai de Bernardo , de dois anos, de seu casamento com a jornalista Mônica Salgado , não para. Afonso é jurado do “Ídolos Kids”, da Record, virou produtor das palestras e dos discos do apresentador e publicitário Roberto Justus e ganha dinheiro com o projeto Rock 80, em que reúne ídolos da geração como Leo Jaime , Nasi , Paulo Miklos , entre outros, para tocar em festas fechadas. O lado produtor atualmente fala mais alto do que o artista: Afonso sonha em lançar um grupo infantil nos moldes do Trem da Alegria dos anos 1980.Confira o bate-papo:

iG: Você ainda faz shows. Não tem vontade de lançar um novo disco?
Afonso Nigro: Quando você trabalha como produtor, é desafiado todos os dias, e esse desafio é muito mais difícil que fazer música. Shows sempre vou continuar fazendo porque o barato é cantar para as pessoas e não ficar em estúdio, que é a parte chata. Apesar de eu ter dois estúdios e poder gravar de graça, o que vou fazer com aquele disco? Mostrar para minha família? Porque para estourar na televisão e na rádio hoje, só com muito dinheiro. O show é tesão forever, enquanto eu tiver voz, vou cantar.

iG: Quem você acha que tem essa estrutura hoje?
Afonso Nigro: São os sertanejos quem têm o maior poder de fogo. Esse pessoal já vive sem precisar de gravadora, só fazendo shows e gastando o dinheiro para comprar o seu espaço. Na minha época de Dominó, o auge era cantar no Chacrinha. Se você cantasse no domingo, na segunda seu telefone já não parava de tocar. Hoje você precisa estar entre as mais executadas nas rádios para ser chamado para a televisão, e isso custa muito dinheiro. Se o artista não está com uma carreira enraizada, é quase impossível conquistar o seu espaço de graça.

iG: Como surgiu a ideia do projeto Rock 80?
Afonso Nigro: Em 1999, gravei um CD que chamava “O Som da Sua Festa”, que tinha Lobão , Kid Abelha, Lulu Santos , Rita Lee ... Mas não aconteceu nada com o disco, não chegou nem a tocar na rádio taxi (risos)... Dois anos depois, o Leo Jaime começou a cantar e reviver os anos 1980 e chamei para fazer um show comigo. Depois encontrei com o Roger , do Ultraje a Rigor, que também topou. Virou uma loucura e comecei a oferecer essa diversão como negócio. O primeiro show foi no casamento do Roberto (Justus) com a Ticiane (Pinheiro). Ele tinha contratado um grupo famoso, mas a 48 horas da festa a banda se recusou a tocar porque não aceitou o pedido de tirar do repertório três músicas que tinham palavrões. Daí ele me pediu para reunir um grupo e fazer um dos meus shows, faltava 24 horas do casamento. Foi uma correria, mas consegui montar uma banda com Leo Jaime, Kiko Zambianchi , Paulo Ricardo , Kid Vinil na discotecagem e eu.

Não existe no planeta uma faculdade em que eu pudesse aprender mais do que esses anos em que estou do lado do Roberto Justus”

iG: Esses shows foram só em 2005, o que você fez quando saiu do Dominó?
Afonso Nigro : O último trabalho que lancei foi em 2003. Depois fiquei dois anos no teatro, onde fiz o musicais como "Grease". A disciplina militar que tem para fazer musical é assustadora, foi a maior escola da minha vida. Eu acabei saindo em 2006 porque você se dedica igual a um camelo e ganha mal pra caramba.

iG: Como começou sua parceria com o Roberto Justus?
Afonso Nigro: A gente começou a planejar as palestras e viajar com elas. Ele sempre me falou que só iria fazer palestras se eu criasse um verdadeiro “Cirque du Soleil” e não um circo de bairro. E é por isso que a gente tem uma tela que parece a da Madonna atrás dele.

iG: Você foi o responsável por levá-lo para a música?
Afonso Nigro: Que nada. Um dia conversando sobre música, o Roberto me falou que a mãe dele tinha um sonho de vê-lo cantando. Combinei com ele que faria dois playbacks no meu estúdio "Tonight’s The Night”, do Rod Stewart , e "Your Song", do Elton John , duas balas. Um dia ele me ligou e disse que estava vindo e que só tinha meia hora, mas ficou até tarde da noite, ele foi picado pelo bichinho da música. Gravamos mais dez faixas e fechamos um CD com 12 músicas. A ideia foi fazer mil cópias e distribuir de presente para os amigos dele, mas a Sony ouviu e quis lançar. Montei uma banda com 11 músicos e ele começou a viajar pelo Brasil para fazer shows. Estamos lançando um CD agora, sete anos depois do primeiro, em prol da Instituição do Câncer de Mama. Neste CD, inclusive, as duas últimas músicas ele canta com a Hebe (Camargo) , são os dois últimos registros musicais dela.

iG: Ele foi criticado musicalmente. Como enfrentaram isso?
Afonso Nigro: Ele já sabia que seria apedrejado. Acho cruel comparar um empresário bem-sucedido que está cantando com um cara que só vive de música. Ele brinca que o único vício dele é cantar. Tem muitos cantores que só vivem de música e cantam bem menos do que ele. Acho que ele vai surpreender muito no novo CD porque durante esses sete anos ele fez aulas de canto e piano. Ele é daqueles que não sabe brincar, que leva a sério e quando pega para fazer, é para fazer direito.

iG: Ele é um cara durão, workaholic, que muitos consideram difícil. Como é sua relação com ele?
Afonso Nigro: Com o Roberto, o nível de exigência é sempre o máximo, nunca menos que 100%. Viajamos com 22 pessoas para fazer show e oito para fazer a palestra, levamos tudo sempre para não usar nada dos outros e não correr o risco do nível cair. Se cair, vamos ter problemas. A exigência é grande, mas acho que não existe no planeta uma faculdade em que eu pudesse aprender mais do que esses anos em que estou do lado dele. Foi por isso que esse meu lado executivo acabou aflorando, eu nunca pensei que existisse.

Dominó era uma disciplina militar. Eu e o Marcelo armávamos planos para pular da sacada, fazer aquelas cordas com lençóis e, quando estava tudo armado com as tops da novela das oito, colocavam dois seguranças na nossa porta”

iG: Qual é a sua melhor lembrança da época do Dominó?
Afonso Nigro: Os contatos que fiz.

iG: E a pior?
Afonso Nigro: Era uma disciplina militar, que me incomodava muito. Sempre fui meio contra as regras. Confio no que eu estou fazendo, conheço os meus limites e tenho responsabilidade. Nunca perdi um voo, nunca cheguei atrasado. Então, quando começavam com aqueles cortes, aquelas chatices, isso me irritava. A maior preocupação da gravadora era com a mulherada, porque se um de nós engravidasse uma menina, o grupo acabava em dois minutos. Eram quatro moleques com testosterona saindo pelas orelhas. Eu e o Marcelo armávamos planos para escapar, pular da sacada, fazer aquelas cordas com lençóis e, quando estava tudo armado com as tops da novela das oito, colocavam dois seguranças na nossa porta e tudo ia por água abaixo.

iG: Quais foram as maiores loucuras das fãs?
Afonso Nigro : Era aquela coisas de Beatles, de se esconder embaixo da cama, dentro do armário... Mães que levavam as filhas menores de idade e falavam: ‘Trouxe ela aqui para vocês’, era esse o nível. A gente não pegava porque eram menor de idade, mas a gente pegava de atriz de novela das oito da Globo a camareiras, era uma loucura em todos os lugares. Lembro que as famílias que tinham mais grana fechavam o andar debaixo do nosso hotel para a filha e as amigas.

iG: Vocês ainda é amigo dos outros integrantes?
Afonso Nigro: Amigo meu hoje é o Marcos (Quintela) porque trabalhamos no mesmo ramo. Não tenho mais contato com o Nill. Todo mundo fala que eu e ele tínhamos uma rivalidade, mas quero deixar claro que era só dentro no grupo. Ele gravou a primeira música e da segunda em diante, quem gravou fui eu, era mais afinado. Foi aí que criou uma competição grande. Depois que ele saiu e virou pastor, a gente foi se afastando mais. Já o Marcelo é uma figura, é o cara mais paz e amor que eu conheci. A gente continua amigo, mas se vê menos.

Acabei saindo dos musicais em 2006 porque você se dedica igual a um camelo e ganha mal pra caramba”

iG: Deu para ganhar muito dinheiro com o Dominó?
Afonso Nigro: Deu sim, mas percentualmente era muito pouco. Era para ter ficado muito rico, ter comprado 20 imóveis e não ter trabalhado mais, o que não deu . Mas não posso dizer que não deu para comprar alguma coisa.

iG: Você morou um ano e meio no México, o que você foi fazer lá?
Afonso Nigro: Fui lançar um CD, cheguei a cantar com a Shakira. Mas fui convidado para fazer uma novela no SBT, a “Colégio Brasil”, e deixei a música um pouco de lado. Voltei depois com outro disco e fui convidado novamente para fazer outra novela, só que desta vez na Record, “Estrela de Fogo”. Depois embarquei no teatro.

iG: Você ainda canta sucessos do Dominó nos seus shows?
Afonso Nigro : Nem sempre está no set list, mas canto porque alguém sempre quer.

iG Teve depressão por não ter mais a mesma fama da época do Dominó?
Afonso Nigro: Nunca. Quanto tudo acabou, o normal é ficar sem um caminho, perdido, mas não aconteceu com a gente. Os quatro tinham uma educação muito parecida. Em nenhum momento um de nós deslumbrou, a gente nunca humilhou ninguém e, durante oito anos, não vi ninguém envolvido com drogas. Nossa estrutura familiar foi vital nessa hora, nem sempre é fácil aguentar a falta do sucesso. O fato de sermos muito meninos não deixou que a gente sentisse a real do que era aquilo ali. Acho que se a gente tivesse 17, 18 anos, daria problema, a casa cairia porque a gente começaria a jogar com o poder que tínhamos.

iG: Quais são seus planos para o futuro ?
Afonso Nigro: Tenho uma vontade de ter uma banda infantil, mas não nos moldes de Dominó, e sim no perfil do Balão Mágico, Trem da Alegria. A audiência do 'Ídolos Kids' e o sucesso de 'Carrossel' (novela do SBT) mostram que há uma carência do público infantil. Vi muitos talentos na primeira temporada do 'Ídolos Kids'.


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