Trabalhando como ator, produtor e diretor de “Como Nossos Pais”, o filho de Lucélia Santos e do maestro Pedro Neschling conta suas aventuras pelo mundo das artes desde pequeno

O fruto caiu perto do pé. Filho único do relacionamento da atriz Lucélia Santos e do maestro John Neschling , Pedro Neschling se diz um cara de sorte por ter nascido no meio das artes. As lembranças das coxias e orquestras - seu playground quando criança -, tomaram corpo e hoje delineiam seus projetos na televisão, no teatro e no cinema.

“As viagens com meu pai para vê-lo reger, assim como acompanhar a minha mãe nos lançamentos de novelas pelo mundo todo me ajudaram a ter uma formação cultural diferenciada”, conta em entrevista ao iG , antes da apresentação de “Como Nossos Pais”, espetáculo que inaugura o palco do SESI Vila Leopoldina, em São Paulo. “Conheci Fidel Castro garotinho”, continua.

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Em cartaz até dia 16 de dezembro na capital paulistana, o carioca de 30 anos assina roteiro, direção e trilha, além de estrelar a peça. “Acumular todas as funções não é o cenário ideal, mas aconteceu.” Ao lado da namorada, a atriz Vitória Frate , Pedro conta a história de Ivan, filho único que sempre se julgou muito abandonado pelo pai. Mas qualquer semelhança é mera coincidência. “O texto não é autobiográfico”, ele garante. Confira o bate-papo:

iG: Como é trabalhar junto com sua namorada, Vitória Frate?
Pedro Neschling: É o terceiro espetáculo que a gente faz em parceria. Vitória sempre teve a ver com os espetáculos que eu dirigi e, esse especificamente, eu achava que era a cara dela. Pra falar a verdade, nem penso muito nisso. Eu considero a minha equipe toda como uma grande família e geralmente eu a repito em todos os meus trabalhos. Com a Vitória, a mesma coisa.

iG: Você assina roteiro, direção, trilha e estrela a peça: se expõe ao máximo. Se sente preparado para lidar com a crítica?
Pedro Neschling: Cheguei a pensar em desistir de atuar, mas meu envolvimento no projeto já era muito grande e acabei acumulando as funções. Não é o cenário ideal. É difícil estar em cena e ter um olhar de diretor para seu colega, foi a parte mais delicada de tudo. É assustador! (risos) Eu chegava em casa, deitava na cama e pensava: ‘Se eu sobreviver, eu nunca mais faço isso!’ Acabou que deu certo e eu estou feliz, orgulhoso.

iG: Por que resolveu abordar este tema pais e filhos?
Pedro Neschling: ‘Como Nossos Pais’ surgiu de uma vontade de falar dessarelação e de abordar a desigualdade entre as pessoas muito ricas e as muito pobres no Brasil. Aí surgiu esse argumento: um pai, um empresário muito rico que criou o filho muito distante, muito largado. Quando o filho de uma empregada da casa reaparece pedindo ajuda, e o pai começa a ajudar esse menino, gera uma raiva, uma frustração muito grande nesse filho, que se julgou sempre muito abandonado pelo pai.

Pedro Neschling e Vitória Frate
André Giorgi
Pedro Neschling e Vitória Frate


 iG: Tem a ver com a sua história?
Pedro Neschling:
Não é um texto autobiográfico. Meus pais são pessoas que sempre me apoiaram muito. Meu pai sempre foi muito presente e minha mãe é, inclusive, produtora do espetáculo junto comigo. Foi ela que, quando leu o texto, disse: ‘meu Deus, de onde você tirou isso? Precisamos montar!’ (risos).

iG: Você é filho único. Se sentia muito só?
Pedro Neschling: Sou bem resolvido. Quando criança, a gente não psicologiza tanto como agora. Já nasci com a minha mãe muito famosa, viajando e trabalhando muito. Foi a criação que eu tive e isso nunca foi problema. Meu pai morou na Europa a vida inteira e eu o via duas vezes por ano no máximo. Eu achava normal. Passei por situações divertidíssimasviajando o mundo com minha mãe: conheci Fidel Castro garotinho em Cuba, comendo bala ao lado dele. Obviamente, tem a coisa de ter ficado muito tempo sozinho, mas também tive uma infância muito rica por conta disso.

iG: Conte algumas lembranças desse tempo..
Pedro Neschling: Viajava com o meu pai o mundo todo para vê-lo reger, escutei algumas das melhores orquestras do mundo. Com a minha mãe, quando ela estava fazendo uma peça, eu estava na coxia ou vendendo balinha no bar do teatro, recebendo ingresso na porta, ajudando arrumar o figurino. Então esse meio sempre foi a minha casa, o meu parque de diversões. Também ia com ela lançar novela na Hungria e aí a gente ficava hospedado em um super hotel, e à noite eu ia jantar com ela e botava um terno. Aí eu ficava conversando com ela como se fosse adulto, mas nunca foi nada planejado, as coisas foram acontecendo e hoje eu considero uma grande sorte.

Pedro Neschling e Vitória Frate
André Giorgi
Pedro Neschling e Vitória Frate

iG: Gostava de música clássica?
Pedro Neschling:
Sempre escutei muita música clássica quando era criança e criei um gosto por isso e é tão natural. As pessoas costumam ter uma impressão de que a música erudita é tão distante, é uma coisa muito pomposa, e não é. É só uma questão de criar o hábito.

iG: Já sabia então que seria artista quando criança?
Pedro Neschling: Eu não pensava sobre isso quando criança. Olhava para a dificuldade da minha mãe, os perrengues que ela passava e pensava: ‘Não sei se quero isso para a minha vida.’ Todo mundo acha que ser artista é ter uma vida mansa. Não, é uma dureza sem fim: a gente está sempre ralando.

iG: Que curso queria prestar no vestibular?
Pedro Neschling: Resolvi que iria estudar economia, meu pai ficou felicíssimo. Achou que alguém na família teria salvação, mas não durou mais do que dois vestibulares. Decidi o que eu queria fazer quando assisti ao filme “Pânico” (1996). Adolescente, fui ao cinema com os meus amigos e tomei um susto com aquela primeira sequência (a menina falando ao telefone com o Scarface). Eu dizia: ‘Dá para fazer isso da vida, quero fazer isso’. Entrei para faculdade de cinema e fiz um curta de terror trash logo no primeiro período. Teve um momento em que pensei em tentar fugir (do caminho da arte), mas não tinha a menor condição.

iG: Sua mãe já disse ao iG que você tem uma relação dominante com ela...
Pedro Neschling: Não sou nem um pouco dominador, pelo contrário, a gente se dá super bem. É claro que tem uma tensão maior quando se trabalha em família. A mãe geralmente tem um poder sobre o filho natural, e no momento em que ela passou a ser atriz e eu ser o diretor, é um trabalho psicologicamente interessante, de se permitir essa inversão de papéis. E em algum momento pode ter sido assustador. Gosto muito de trabalhar em cima do que o ator me propõe, e no espetáculo que a gente fez não foi diferente.

Pedro Neschling e Vitória Frate
André Giorgi
Pedro Neschling e Vitória Frate


iG: Você já disse em entrevista que você não precisa da Globo, e sim o contrário. O que quis dizer com isso?
Pedro Neschling:
Nunca falei isso. Foi uma mentira que saiu e inclusive teve um processo que eu ganhei. Eu adoro trabalhar para Globo, sempre gostei.Tenho contrato com a emissora há 10 anos, trabalho sempre que me chamam. Provavelmente devo fazer uma novela no ano que vem.

iG: O que se diz antes de se apresentar?
Pedro Neschling: Sou muito grato ao público de teatro, que sai de casa, pega o carro ou a condução, e se permitir estar ali para escutar uma história nessa linguagem tão antiga e ao mesmo tempo tão moderna. Porque essa coisa de ter uma pessoa sentada próxima a você é tão forte. Sempre que eu vou entrar em cena eu penso nisso e agradeço.

iG: Você assiste à reprise de “Da Cor do Pecado”, seu début na televisão?
Pedro Neschling: Esses dias eu assisti e me diverti tanto. Não tinha muito noção e foi um grande sucesso na época. A gente trabalhava à beça. Em suma, é engraçado poder rever com certo distanciamento.

iG: Como lida com o assédio dos fãs?
Pedro Neschling: O fã que conhece seu trabalho é muito legal. Sou muito reservado na minha vida, não gosto muito de frequentar eventos e estar em burburinho. É difícil me ver fora de casa se não for para trabalhar. Não sou o tipo de famoso que está sempre envolvido em questões e tal.

iG: Depois da Gambiarra, você criou a festa Fanfarra há dois anos. Tocar como DJ em festas é um hobby?
Pedro Neschling: Tocar é quase que fazer um roteiro. As pessoas que saíram de casa querem se divertir e eu estou no comando daquela possibilidade de diversão. Faço um roteirinho na hora, vou deixando fluir e é uma delícia. Comecei um hobby despretensiosamente e hoje já faço festaspara 1.500 pessoas em várias cidades do Brasil.

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