A atriz, no ar como a grande vilã de “Salve Jorge” e em cartaz com “Cabaret”, fala de sua obsessão por exercícios, diz que gosta muito de comer e se descreve como uma pessoa entusiasmada, interessante e muito, muito feliz

Claudia Raia em um dia feliz é assim: de repente solta uma gargalhada deliciosamente sonora, do tamanho de suas pernas longas. À primeira vista, Claudia é um espelho de sua rotina espartana; seu corpo forte um reflexo do exercício diário, que ela não abandona jamais.

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Mas dentro daqueles contornos musculosos bate um coração mole de supermãe, e nas suas veias corre muito humor. Claudia conversou com o iG no camarim do teatro Procópio Ferreira, em São Paulo, antes de entrar em cena para encantar a plateia na pele de Sally Bowles, no musical ‘Cabaret’ . Falou da separação, da primeira conversa com o namorado, dos filhos, Enzo , de 15 anos, e Sofia , de 9, e de como se enxerga. "Se eu me visse na rua, pensaria: ‘Que mulher interessante! Grandona, alta e tal’. Tenho um estilo, uma coisa exótica.'" Confira o bate-papo.

iG: Por muito tempo, Bibi Ferreira, Marília Pêra e você eram “as atrizes brasileiras de musical”, as únicas que seguravam a onda de cantar, dançar e atuar no palco. De repente houve um boom de musicais e se viu que o Brasil está cheio de atores completos, cheios de talento. É uma felicidade ver o gênero disseminado ou você gostava de ser a grande estrela?
Claudia Raia: É praticamente a realização dos meus sonhos. Quando eu comecei a fazer musical, eu quase que catava elenco na rua. Perguntava se sabia cantar “parabéns a você” e a pessoa entrava no elenco. Era uma coisa meio mãe, de pessoas que começaram comigo aos 18 anos, eu era madrinha, moldava do meu jeito. Disciplinava eles e dizia: ‘Não me saia da linha porque você é um high act’ (artista superior). Depois os via em outros musicais, crescendo, com papéis melhores, dava vontade de chorar. É uma coisa meio mãe de Miss, ver minhas crianças crescendo e florescendo. Fico toda boba. No formato antigo nós produzíamos e atuávamos, a maioria dos espetáculos fui eu que produzi. Era muito complicado, mas hoje em dia há elenco para 7, 8, 10 musicais ao mesmo tempo em cartaz, com técnicos e músicos de musical, que são outro tipo de músicos.

iG: Então você tem participação nessa nova “cena musical”?
Cláudia Raia: A gente fica feliz por ter conseguido formar essas equipes. E não só eu e Marília, não, tem muita gente responsável. Claudio Botelho, Charles ( Mülller ), Miguel ( Falabella ), Wolf Maia , Jorge Fernando , Jorge Takla , todos foram responsáveis pela formação dessas equipes.

Claudia Raia
André Giorgi
Claudia Raia

iG: É melhor fazer musical do que uma peça convencional?
Claudia Raia: No musical tudo muda. A coisa de cantar e representar me fascina porque eu adoro. E o próprio musical me dá muito prazer, fazer as três coisas (cantar, dançar e representar) ao mesmo tempo. Mas eu sou apaixonada por grandes personagens e quero fazer grandes espetáculos. Vou atrás de grandes personagens onde eles estiverem, mesmo que tiver de fazer só teatro falado, ou só comédia, ou só drama. Agora, é claro que tenho vontade de fazer outros musicais.

iG: Qual seu nível de rigidez com relação a exercícios e ginástica?
Claudia Raia: É uma coisa da vida inteira dedicada a isso. Não à beleza e ao belo corpo, mas à saúde, à profissão, à disciplina de bailarina. Malho todos os dias, a qualquer hora, mesmo se forem 11 e meia da noite. Chego em casa do Projac, janto com meus filhos, decoro o texto e vou para a esteira. Essa disciplina vem da minha educação, não é uma coisa que aprendi agora para ficar linda e com o bumbum duro e a pernona grossa. Minha mãe era dona de uma academia de dança, eu danço desde os 3 anos de idade. Minha vida inteira fui dedicada à profissão e claro que hoje, prestes a fazer 46 anos, isso dá resultado. Tenho uma vida extremamente regrada, mas não chata.

iG: Como é sua vida?
Claudia Raia: Sou uma pessoa extremamente feliz, alegre, gosto de sair, adoro comer, a-do-ro comer, é um dos grandes prazeres da minha vida, só que eu como direito. E quando tenho que sair e dar uma escorregada, também escorrego. Viver com poucos prazeres é inconcebível para mim, mas tenho uma alimentação extremamente regrada ( Alessandra Nuglio é sua nutricionista há dois anos). Para esse espetáculo, precisava de um shape bem longilíneo, até por conta da época. Como à beça, de três em três horas, e como, como, como mesmo. Não tenho fome e malho muito, e também faço aulas de sapateado e balé.

Sou uma pessoa extremamente feliz, alegre, gosto de sair, adoro comer, a-do-ro comer, é um dos grandes prazeres da minha vida. E quando tenho que sair e dar uma escorregada, também escorrego. Viver com poucos prazeres é inconcebível para mim

iG: Tipo a Madonna, que leva nutricionista e personal durante a turnê?
Claudia Raia : Não tem outro jeito, essa obsessão é em função de um bom resultado artístico. É um compromisso comigo mesma de poder exercer a minha melhor forma dentro da minha profissão. E tem que ter essa infra: tenho meu personal há 15 anos, que é o Tonhão , ele é daqui (SP) e é maravilhoso. Mas a gente faz loucuras, ou eu estou aqui, ou ele vai pro Rio ou me passa a série de exercícios pelo telefone.

iG: Quando está viajando a trabalho, você se hospeda em hotel que não tem academia?
Claudia Raia: Não existe a possibilidade de não malhar, sempre tem academia na cidade em que estou, mesmo que não seja no hotel. O Jarbas ( Homem de Mello ), por exemplo, fez (a peça) “De Pernas pro Ar” comigo - na época em que ele não era meu namorado - e ele é igualzinho a mim, então me acompanhava sempre. Quando não era ele, outros bailarinos faziam comigo, tudo monitorado pelo Tonhão. E sempre tem essa aula de balé que a gente faz antes do espetáculo.

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André Giorgi
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iG: O que você vê quando se olha no espelho?
Claudia Raia: Uma mulher interessante, não exatamente bonita. Eu acho que tenho várias porções que unidas combinam. Se eu me visse na rua, pensaria: ‘Que mulher interessante! Grandona, alta e tal’. Tenho um estilo, uma coisa exótica. Mas principalmente eu veria a minha alegria, acho que é o que eu tenho de melhor. Tenho um chip da alegria, uma disponibilidade para ser feliz. Depois eu descobri que “entusiasmus” em latim significa repleta de Deus. Aí eu entendi porque sou tão entusiasmada. Eu acordo mega entusiasmada, parece que estou indo para a Disney, sabe? Esses dias eu dei uma entrevista e me perguntaram: você dorme? Eu disse não, eu só acordo. Nesse momento que estou fazendo ‘Cabaret’, novela, sendo mãe, eu só acordo.

Sou uma mulher interessante, não exatamente bonita. Eu acho que tenho várias porções que unidas combinam. Se eu me visse na rua, pensaria: ‘Que mulher interessante! Grandona, alta e tal’. Tenho um estilo, uma coisa exótica

iG: O que você diz para você mesma antes de entrar no palco?
Claudia Raia: ‘Vambora’ porque a vida não está ganha! (risos) É verdade, não está mesmo. Costumo dizer muito essa frase. O nível de frustração na TV é enorme, pois se faz tudo correndo. Às vezes não estou concentrada e não surte o efeito que deveria. Ou estou esperando tudo de uma cena e ela não resulta, assim como não estou esperando nada e ela resulta. E quando alguém diz ‘parabéns, que cena legal’, eu digo: ‘Vambora que a vida não está ganha e ainda tem 28 cenas pela frente’.

iG: Como você recebe elogios?
Claudia Raia: Aprendi com a maturidade a celebrar as minhas vitórias, coisa que eu não sabia. Minha mãe é taurina, bailarina, maestrina, uma mulher extremamente disciplinada. Ela nos criou de maneira muito rígida, então tinha pouco tempo para celebrar as minhas vitórias, eu não percebia, não sacava muito os resultados. A maturidade traz essas coisas bacanas.

Tenho um chip da alegria, disponibilidade para ser feliz. Acordo mega entusiasmada, parece que estou indo para a Disney, sabe?

iG: É sexy estar em cena com o namorado?
Claudia Raia: Temos apenas um número juntos e ele não faz par romântico comigo. Mas trabalhar junto é bacana, ainda mais nesse momento em que estou tendo que otimizar o meu tempo. Ter um namorado embutido é tão bom! Além disso, o Jarbas é um encontro profissional muito bacana na minha vida. Fazia muito tempo que queria trabalhar com ele, sempre me falavam dele. Na época de “Pernas pro Ar”, meu diretor musical disse: ‘Você vai amar o Jarbas, ele canta à beça, dança à beça, ele é um monstro. Você tem que conhecê-lo, ele é o profissional com que você vai querer trabalhar a vida inteira’.

Claudia Raia
André Giorgi
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iG: Como se conheceram?
Claudia Raia: Ele foi fazer a audição e eu fiquei de boca aberta. Como eu fazia a produção do espetáculo, ele veio falar comigo sobre o contrato e eu disse: ‘Já estou namorando você há um tempão’. Aí ele respondeu: ‘Bom, então vamos casar!’. Falou brincando, isso há 4 anos, eu estava casada. Mas é engraçado lembrar essa história. Primeiro a gente ficou amigo e ele me ajudou muito no processo de separação. Foi meu esteio nesse momento. A nossa relação começou quatro meses depois da estreia de ‘Cabaret’. A gente se dava muito bem antes, mas não tinha nada a ver. Só depois foi colorindo a amizade.

Vi o Jarbas dançando e fiquei de boca aberta. Ele veio falar comigo e eu disse: ‘Já estou namorando você há um tempão’. Ele respondeu: ‘Bom, então vamos casar!’

iG: Do que você tem orgulho quando olha para sua vida? Sua carreira, ter uma casa linda, ser magra?
Claudia Raia: Muita coisa, mas principalmente ter sobrevivido 30 anos nesse meu trabalho. No Brasil, é muito difícil, então isso me dá um orgulho danado. Mas o maior orgulho de uma mulher, com certeza, são os filhos. É imbatível, acho que o maior aplauso de uma mulher é o de mãe. Ver meus filhos tranquilos, educados, no ponto certo, nem a mais nem a menos, equilibrados, não tem nada igual.

iG: O que você acha de a Globo estar de olho no seu filho Enzo?
Claudia Raia: Não sei de onde isso saiu, sinceramente. Com o Pedro , 15 anos, filho da Letícia Spiller , é verdade mesmo, ela me disse. Mas com o Enzo não existe isso, até porque acho bem difícil ele aceitar. Ele quer ser músico, fazer uma faculdade fora do país. É um cara que está em outra, toca cinco instrumentos, muito talentoso, canta superbem. Teve até uma música dele na novela ‘Ti-ti-ti’, ‘Patricinha’, que é uma baladinha pop. Aí começaram a chamá-lo toda hora.

iG: O que você vê na sua filha Sofia que te lembra de você mesma?
Claudia Raia: Tanta coisa! O mais legal na Sofia é que ela tem uma mistura minha e do Edson, mas ao mesmo tempo ela é tão ela! Brinco que ela é uma Claudia Raia 4G. Mas aí a Carolina Dieckmann disse: ‘Não, ela é 10G, um G que ninguém inventou’. Quem conhece ela sabe. É uma menina forte, com muita personalidade e opinião. Sabe o que quer, do que gosta. O melhor da Sofia é ser ela mesma. Tem um pouco de mim, um pouco do pai, do irmão, de todas as referências dela, mas principalmente sabe se colocar com o jeito dela. Esse jeito é muito parecido com o meu quando criança. É tudo máster.

Claudia Raia
André Giorgi
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 iG: O que você gostaria que eles herdassem de você?
Claudia Raia:
Os dois puxaram de mim essa coisa muito séria e disciplinada. O Edson (Celulari) também é um cara trabalhador, muito sério, então os modelos deles são esses. Eles reclamam porque a gente está trabalhando muito, mas também dão muito valor ao nosso trabalho. Quando fui decidir se faria ou não “Salve Jorge”, me reuni com os dois e falei que seria uma loucura, a peça aqui, a novela lá, e perguntei se nós três teríamos maturidade para aguentar essa rotina. Aí eles perguntaram sobre o papel e disseram: ‘Mãe, é maravilhoso, você tem que fazer’.

Eles (os filhos) ficam muito à vontade com a separação, porque sabem que não perderam nem o pai nem a mãe. Apenas o pai e a mãe não são mais namorados. Quando sacaram que não perderam nenhum de nós, eles acalmaram. Não foi nada demais

iG: São bem amadurecidos...
Claudia Raia:
Eles são muito humanistas e não se aproveitam de ser filhos de artistas, não dizem que são. O Enzo usa Mota, que é meu primeiro nome, não usa Raia nem Celulari. Mas não é para não ter, é porque ele quer ter identidade, individualidade. Já a Sofia ainda não decidiu se vai usar Raia ou Celulari, ela é engraçada. Ela diz que eu travo a carreira dela, que eu não a deixo trabalhar. Ela tem 9 anos, não deixo mesmo. O que ela tiver que ser, ela vai ser no momento certo. Se ela estiver de férias e quiser fazer um filme ou uma participação, tudo bem, mas por enquanto ela tem a escola e as atividades dela, que são prioridade.

iG: E como eles lidaram com a separação?
Claudia Raia: Eles moram comigo, mas vão para a casa do Edson quando estou aqui. A minha relação com o Edson é muito aberta, e eu não estou procurando um pai para os meus filhos, o deles é maravilhoso. A gente se dá muito bem. Não tem dia para pegar, pega a hora que quiser. Quer almoçar, vai. Eles ficam muito à vontade com isso, porque sabem que não perderam nem o pai nem a mãe. Apenas o pai e a mãe não são mais namorados. Quando eles sacaram que não perderam nenhum de nós, eles acalmaram. Não foi nada demais, houve o processo de luto, depois de entendimento e então de aceitação. Eles lidam muito bem com a namorada do pai, com o Jarbas. Claro que nunca é o ideal, mas é importante não ficar mal porque isso reflete neles. A separação é uma coisa chata, mas já faz dois anos e meio e esse assunto já ficou antigo.

Claudia Raia
André Giorgi
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iG: Você tem sido um dos grandes destaques de “Salve Jorge”. Seu núcleo tem sido apontado como responsável por segurar a trama. O que você acha disso?
Claudia Raia: Não tem isso, é muito cedo para fazer qualquer análise, a novela está se instalando e estreou no horário de verão. O núcleo das traficadas é central, e que bom que está dando certo. Quanto a eu segurar a novela, acho que não tem nada a ver. A personagem é uma vilã, a dona da ação. Que mulher é essa que trafica bebês? Mas eu estou adorando fazer a Lívia. É muito diferente de tudo que eu já fiz, é quase que apertar a tecla SAP de mim mesmo. É tudo menos, menos, menos. Para mim é megacustoso, porque sou uma atriz muito física e vigorosa, e ela tem poucos gestos, é pouco de tudo. Não pode aparecer nada, é tudo velado, é uma interpretação quase com a íris do olho só, mais nada!

Para mim é megacustoso fazer a Lívia de ‘Salve Jorge’, porque sou uma atriz muito física e vigorosa. Já ela tem poucos gestos, é pouco de tudo. É tudo menos, menos, menos

iG: O que você ouve nas ruas?
Claudia Raia: Escuto muito: ‘Nossa, estou com ódio de você desde a primeira semana!’ Ou: ‘Que linda, que chique, mas que demônia!’ Já ouvi também: ‘Sua bruxa nude!’ (risos)

iG: Você está escolada para lidar com a imprensa, mas talvez não tenha sido sempre assim. Qual foi o maior absurdo que já falaram sobre você?
Claudia Raia: Que eu tinha AIDS. Foi uma coisa bem chata que aconteceu, na época em que Fernando Collor era presidente. Um Secretário da Saúde foi visitar o Jânio ( Quadros ), que estava internado. Perguntaram o que ele achava da saúde do presidente Collor, que andava muito magro, e ele disse: ‘Eu acho que Claudia Raia é HIV positivo’. Ele quis dizer que eu era amante do Collor e que ele tinha passado AIDS para mim. Fui capa da ‘IstoÉ’ com um exame na mão, foi uma humilhação. Foi muito duro, pois era uma época em que as pessoas não sabiam como se pegava o vírus. Achavam que era transmitido por um beijo no rosto. Então minha família ficou em pânico, eu em pânico. Pensei: ‘Bom, devo ter feito algum exame de sangue em um posto médico da Globo e descobriram que estou doente’. Mas foi uma piada que ele fez. Entrei na Justiça três vezes contra ele e ele ganhou. Enfim, sempre tive uma relação muito saudável com a mídia, que abordou a minha separação de forma bastante respeitosa. Sou uma pessoa querida pela mídia, mas até aqui. Não é minha cara abrir minha casa, nunca fiz isso, não exponho meus filhos. Abro a minha carreira e a minha vida até onde eu posso.

"Cabaret":  Em cartaz no Teatro Procópio Ferreira até dia 16 de dezembro 
Horários:  Sexta, 21h30; sábado, 17h e 21h; domingo, 18h
Endereço:  Rua Augusta, 2823 - Jardim América - São Paulo
Tel: (11) 3083-4475 

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