Cantora conta que foram os remédios para emagrecer que a levaram à reabilitação, fala sobre a volta ao palco e que aprendeu a rir de si mesma após o episódio do hino nacional

Debaixo da franja lisa e loira, Vanusa tem muita história pra contar - de um mundo nem tão distante assim. Ídolo nos tempos da Jovem Guarda, ela foi uma das cantoras mais populares do Brasil na época em que as paradas de sucesso eram habitadas pelo rei Roberto Carlos, o Tremendão Erasmo Carlos e a Ternurinha Wanderléa . Gravou 23 discos e vendeu sozinha 1 milhão de cópias.

Quem pegou o bonde andando tem a impressão de que Vanusa ficou famosa em 8 de março de 2009, dia em que ela errou a letra do Hino Nacional na Assembleia Legislativa de São Paulo, e que em 30 de novembro de 2011 teve outro “branco”, dessa vez cantando uma música de seu próprio repertório desde os anos 70, aquela que diz “Era um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones”.

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Os dois episódios, conta ela, foram motivados pela mistura de pílulas para emagrecer com doses (pequenas) de uísque. O remédio potencializa o efeito da bebida, e ela teve de se internar numa clínica de reabilitação para desintoxicar e controlar a depressão. “Passei um ano tomando remédio para emagrecer, que era a pílula da felicidade. Só depois descobri que viciava”, diz ela, entre uma tragada e outra do cigarro que ainda não abandonou. Vanusa não bebe mais. Ela tomou um suco de abacaxi para acompanhar o salmão – seu prato favorito – que pediu durante a conversa com o iG Gente em um restaurante de São Paulo.

Passei um ano tomando remédio para emagrecer, que era a pílula da felicidade. Só depois descobri que viciava”

iG: Se eu pedir para você cantar um trecho do Hino agora, você canta?
Vanusa: O pessoal do ‘Pânico’ quis tirar uma com a minha cara um dia desses e pediu para eu cantar o hino, então falei para eles cantarem antes. O Carioca começou e logo eu tive que pará-lo para corrigir. Ele não sabia nada. O hino nacional foi a gota d´água para eu decidir me internar. Desde 2003 eu entrava e saía da depressão, cada vez mais forte. Quando aconteceu o episódio do hino eu estava em crise existencial total, na situação de ou eu me interno ou eu me mato. Hoje, olho para minha vida e vejo quanta contradição havia. Não queria mais cantar, mas o que eu mais gostava de fazer era cantar. Eu não tinha ideia de que tinha que parar e revisar a minha vida. Com a internação, aprendi a viver o aqui e o agora. Posso viver o presente bem para o futuro ser bom.

Vanusa
André Giorgi
Vanusa

iG: Como foi o tempo que você passou internada na clínica?
Vanusa: Eu que pedi para ser internada, isso é um fator importante. Quando a pessoa quer o tratamento, ela tem mais chance de se recuperar. Foi a melhor coisa que fiz da minha vida. Foram 5 meses, e foi como se tivesse ficado 5 meses sentada o tempo todo na frente do psiquiatra. Não tinha nenhum acesso ao mundo exterior, não tinha internet, não recebia visita no começo. Era eu comigo mesma. Eu nunca tive vontade de sair, sempre quis fazer até o final. Meu psiquiatra falava para eu ficar até quando ele me desse alta, mas eu falava que ficaria até quando eu me desse alta.

iG: Você teve tempo suficiente para repensar a sua vida?
Vanusa: Foi uma reciclagem. Há muitos anos eu era workaholic. Tudo era trabalho. Não tinha tempo para mim, para minha família, para os meus amigos. Lá dentro, cheguei à conclusão de que não fazia nada para mim. Apesar de gostar muito de cantar, quem só trabalha e não tem tempo para si fica vazio, se esvazia. Foi o que aconteceu comigo. Quando cheguei à clínica não queria mais cantar, não queria mais sair com ninguém. Lá foi um despertar. Estou com 64 anos e acho que agora é o momento da colheita. Hora de aproveitar, ter tempo para meus cachorrinhos, para meus livros, para minha família e para mim mesma. Dar risada de mim mesma. Quando você ri de si mesma é porque está gostando de ser você.

O hino nacional foi a gota d´água para eu decidir me internar. Desde 2003 eu entrava e saía da depressão, cada vez mais forte”

iG: Você sabe rir de você mesma?
Vanusa: Aprendi a rir de mim, senão não teria feito o comercial da Visa (em que ela faz piada do episódio do Hino Nacional). Quem negociou esse comercial foi meu filho, Rafael. Quando ele me contou, eu disse que não ia fazer. Mas ele me disse: ‘Ou você faz esse comercial e tira essa p* dessa história de hino da cabeça, ou vai ficar com isso para o resto da vida.’ Eu concordei com ele e decidi então fazer. E teve uma repercussão maravilhosa.

Vanusa
André Giorgi
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iG: Você voltou ao palco após esse período mais conturbado. Como é cantar de novo?
Vanusa: Minha volta foi maravilhosa. Fiz uma pré-estreia superlotada do show “Novo Tempo” no Cine Olido, em São Paulo. Antes de entrar no palco, eu senti que queria estar ali. Fazia tempo que não sentia aquilo. Na estréia do show no Café Paon, (casa de shows de São Paulo), estavam meus amigos e muitos fãs, que vieram de Manaus e até de mais longe para me ver. Fãs que eu conhecia pelas redes sociais há muito tempo e que pude conhecer pessoalmente. Voltei com vontade de cantar.

iG: E como anda a sua memória?
Vanusa: Minha memória está ótima (risos). Não tive o menor medo de cantar em público. Me preparei muito, ensaiei muito, coisa que não gostava de fazer antes. Entrei tranquila. Adoro estar no palco.

iG: Você disse que uma das motivações para voltar ao trabalho era financeira. Já se equilibrou?
Vanusa: Deus é maravilhoso comigo. Estava com problemas, fiquei sem pagar o condomínio por meses, fui para a clínica e acumulei dívidas. Raphael tentou negociar... Aí, fiz o comercial da Visa (em que ela brinca com o episódio do hino nacional) e pronto, acabaram meus problemas financeiros. Simples assim.

Minha memória está ótima (risos). Não tive o menor medo de cantar em público. Me preparei muito, ensaiei muito, coisa que não gostava de fazer antes”

iG: Já passou por situação financeira pior, de não ter dinheiro para o básico?
Vanusa: Não. Sempre cai o dinheiro dos meus direitos autorais, que ajuda. Nunca tive dificuldade. Já teve momentos de querer comprar algumas coisas e não poder, mas nada demais. Sou muito desapegada.

iG: Você se considera uma pessoa corajosa, que dá a cara a tapa?
Vanusa: Eu sou muito (risos). Sou muito guerreira. Expresso minha opinião. Hoje estou mais calma, aprendi a lidar melhor com algumas coisas. Sou muito forte. Sobrevivi a muitas coisas.

iG: Você já consumiu drogas ilícitas, como maconha, cocaína?
Vanusa: Não, nunca, graças a Deus.

iG: Você concorda com a legalização da maconha?
Vanusa: Eu não concordo. Deus fez o nosso cérebro como o melhor computador do universo, então não mexam com ele. Droga afeta a pessoa. Sou totalmente contra. Não sei dizer qual a solução, mas acho que uma droga leva à outra e vai te destruindo.

iG: Você é a favor do casamento gay?
Vanusa: Sim, claro. Amor é amor.

Vanusa
André Giorgi
Vanusa

iG: Como você reagiria se um de seus filhos (Vanusa é mãe de Raphael, Aretha e Amanda) se revelasse homossexual?
Vanusa: Maravilha. Acho que as pessoas têm que ser felizes. Tenho certeza de que qualquer um dos meus filhos, se fosse gay, falaria para mim e eu saberia logo cedo.

iG: Como está sua relação com seus filhos?
Vanusa: Ótima. Eles estão praticamente criados. O Rafael está em Goiânia, trabalhando com Cristiano Araujo, que faz show para 60 mil pessoas. Está muito bem. A Amanda mora em Itanhaem, a Aretha em São Paulo, e está fazendo um trabalho muito bonito, chamado “20 anos de Antônio Marcos”, em que vários artistas vão cantar as músicas do pai dela. Então está tudo muito bem.

iG: Você já foi sogra da Thammy Miranda, que hoje é homossexual assumida e que namorou seu filho, Raphael. Como foi isso?
Vanusa: Eu achava graça, mas não me me metia, nunca me meto no namoro dos outros, cada um faz o que quer. Eu não esperava pela revelação de que ela era homossexual, ninguém esperava, ela era uma menina bem feminina. Mas ela se descobriu. E se é assim que está feliz, é assim que tem que ser. Ela está ótima na novela ‘Salve Jorge’. Quando você assume o que é, o universo conspira a seu favor.

iG: Como é sua relação com os fãs?
Vanusa: O que eu mais prezo na vida é o meu público, são meus fãs. Fiz muita música, muita coisa de que não me lembro mais, meus fãs é que me recordam. Quero fazer um bom trabalho agora para mostrar: a Vanusa está aqui. O resto que venha.

Fiz muita música, muita coisa de que não me lembro mais, meus fãs é que me recordam. Quero fazer um bom trabalho agora para mostrar: a Vanusa está aqui”

iG: Pretende lançar um novo disco?
Vanusa: O Zeca Baleiro está produzindo um novo CD para mim. Durante a minha internação, ele me ligou várias vezes para marcar algo quando eu saísse. Na primeira reunião ficamos quatro horas conversando, mostrei algumas músicas que já tinha. Tinha uma inédita do Zé Ramalho , uma inédita do Mário Marcos (irmão de Antônio Marcos, ex-marido de Vanusa), uma inédita do Zé Geraldo, três inéditas minhas, uma do Zeca Baleiro, talvez uma do Lenine , estamos conversando. A minha expectativa é fazer um CD maravilhoso para mostrar para as pessoas como estou. Não faço CD com intuito de arrebentar no mercado. Quero fazer um CD para mim.

iG: Você disse que ficou ausente da família por conta do trabalho. Tem essa culpa?
Vanusa: Já tive muito. Na terapia entendi que não dá para ser boa em todas as coisas. Não fui muito presente, mas primei pela qualidade. Minha mãe ajudou sempre, eu tinha as coisas organizadas. Tentei ser uma mãe presente até o momento em que achei que eles deveriam seguir o próprio caminho. Aí, não interferi mais. Eu tenho um amor muito grande por eles e sei que numa fase eles se ressentiram pela minha ausência na infância deles. Mas o resultado é muito bom. Hoje, eu olho de forma positiva. Eu fui pai e mãe deles.

iG: Como foi sua relação com Antônio Marcos?
Vanusa: Ele era um poeta, uma pessoa fantástica, e me ensinou muita coisa. Fiquei com ele muito nova e abrimos um precedente numa época em que artista não podia se casar, todos os casados escondiam suas esposas. Eu tinha vergonha de falar e aprendi a dar entrevista, ele era muito profissional. Podia chegar em casa às 5 da manhã, bêbado, mas se tivesse um compromisso às 7 horas, ele acordava e ia. Eu tento sempre guardar as coisas positivas.

Vanusa
André Giorgi
Vanusa

iG: E quanto ao Augusto César Vanucci (diretor da Globo nos anos 70), seu segundo marido?
Vanusa: Ele me ensinou a gostar de música brasileira. Eu só queria ouvir música americana. Ele saía de casa e me dava alguns discos para ouvir, como uma lição de casa. Quando voltava, cobrava minha opinião. Assim, pude conhecer as grandes cantoras, os grandes cantores. Ele também me ensinou a me portar em um palco, a me entender com as câmeras de TV. Ganhei o know how de trabalhar com as câmeras, sabia olhar para a câmera certa na hora certa, mexer as mãos e tudo mais. Marquei muito a minha imagem por isso também.

iG: Você não tem lembranças negativas deles?
Vanusa: Não. O Antônio Marcos é o grande amor da minha vida. Com o Vanucci o amor foi intenso, mas diferente. Ele queria que eu parasse de cantar, então decidi me separar. Não quis abrir mão da minha carreira. Deveria ter parado nos dois maridos, porque depois a produção só decaiu de qualidade.

iG: Há algo que você goste de fazer e que as pessoas não sabem?
Vanusa: Eu odeio faxina. Adoro pintura. Faz tempo que não pinto meus quadros, mas é algo que adoro fazer, que me faz bem

iG: O que aconteceu quando você estava na clínica e a produção do programa "Muito +", da Band, tentou invadir?
Vanusa: Aquilo foi muito, muito triste. Uma pessoa foi me visitar, pegou o endereço e passou para a produção do programa. Fazia um mês e meio que estava lá, não conseguia nem olhar para o portão de medo, aí fico sabendo que tem uma equipe de televisão tentando entrar. O pessoal da clínica foi bárbaro, me protegeu. A partir daí, comecei a ficar com medo de ir até para a piscina. Quando passava um helicóptero, eu saía correndo. Foi muito, muito ruim, mas não pretendo processar ninguém.

Agradecimento: Forneria San Paolo

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