Oito meses depois da morte do humorista, Malga Di Palma conta como viu sua casa, que era um entra e sai constante de gente, virar "um vazio, um silêncio"

Malga Di Paula fez uma promessa a Chico Anysio antes de sua morte, em março de 2012. Ela se comprometeu a criar um instituto com seu nome para combater o enfisema pulmonar – doença que o matou aos 80 anos. “O sonho dele no fim da vida era ajudar as 250 milhões de pessoas que sofrem no mundo por causa do cigarro. Ele dizia que, se pudesse começar tudo de novo, faria tudo igual. Menos fumar.”

Siga o iG Gente no twitter

Atual presidente do Instituto Chico Anysio, ela busca levantar R$ 800 mil para financiar uma pesquisa que comprovaria a cura da doença pelo tratamento com células-tronco. A primeira doação para o Instituto partiu de dentro de casa: foi feita por Bruno Mazzeo , um dos sete filhos de Chico, e um dos quatro com quem ela tem proximidade. Malga concilia essa missão com seu trabalho como empresária. Espécie de “embaixadora da Turquia” no Brasil, está atuando como uma das pesquisadoras da novelista Glória Perez em “Salve Jorge”.

VIDEO: VEJA CHICO ANYSIO SE TRANSFORMAR EM SEUS PERSONAGENS

Emocionada, ela contou ao iG o quanto mudou sua vida nesses oitos meses sem o marido. Sua casa no Rio, que vivia cheia de movimento, “um entra e sai de gente”, agora está em silêncio. “Tem manhãs em que acordo achando que foi um pesadelo, que ele ainda está aqui.”

iG: Chico já tinha deixado de fumar muitos anos antes de vocês se conhecerem. E mesmo assim o cigarro o matou...
Malga Di Paula: Já fazia 14 anos que ele tinha parado de fumar, mas depois de instalada, a doença só progride. É uma condenação lenta à morte. Como só ataca o sistema respiratório, ele tinha consciência de tudo e sabia que a qualidade de vida dele estava piorando. Tivemos que preparar a nossa casa, colocar portas largas para a cadeira de rodas, fazer um banheiro de hospital. Enfim, nos preparar para as coisas que certamente acontecem com um paciente terminal.

iG: Você acompanhou o Chico de perto. Como é morrer por causa do cigarro?
Malga Di Paula: Acontece a pior coisa possível, que é não conseguir respirar. Ele ficava aflito por não conseguir puxar o ar e eu explicava que era o contrário. O ar fica preso no pulmão, então é difícil trocar o ar. Falar isso o acalmava muito durante uma crise: ‘Chico, está sobrando ar, vamos colocá-lo para fora, não puxa mais’. Aí ele se acalmava.

iG: Como era a relação do Chico com os vícios? Ele conseguia se libertar do que o prejudicava ou sucumbia a eles?
Malga Di Paula: Ele tinha dificuldade de abrir mão, e profundo arrependimento por ter fumado. Dizia que, se pudesse voltar atrás, faria tudo de novo: perderia a cabeça, teria muitos casamentos, repetiria tudo. Só não fumaria.

Ele tinha profundo arrependimento por ter fumado. Dizia que, se pudesse voltar atrás, faria tudo de novo: perderia a cabeça, teria muitos casamentos, repetiria tudo. Menos o cigarro.

iG: E como ele lidava com esse sentimento de culpa?
Malga Di Paula: Ficava muito deprimido. Mas eu dizia que ele não tinha culpa, era de uma geração que não tinha informação, foi vítima do cigarro. Hoje quem fuma tem total consciência do mal que o cigarro faz, diferente de quem fumava no passado.

iG: Você já fumou?
Malga Di Paula: Eu nunca fumei, meu pai era fumante e a gente tinha aversão ao cigarro. Nós éramos cinco filhos e, de tanta insistência, conseguimos fazê-lo parar.

iG: Chico divertiu gerações com seus programas humorísticos. Como ele era na intimidade?
Malga Di Paula: O Chico nunca foi um palhaço que ficava tentando fazer graça toda hora. Ele dizia que não tem coisa mais sem graça do que tentar ser engraçado. Não ficava forçando, o humor era absolutamente inteligente, natural. Eu sempre o achei um ídolo, que admirei e amei muito, mas não tinha noção da inteligência dele. O Chico era um gênio. Ele tinha umas sacadas, sempre tinha uma coisa perfeita para dizer sobre qualquer coisa. Uma observação inteligente que me fazia morria de rir, mas sem forçar barra. Sinto muita falta, e não só eu, todos nós perdemos esse cérebro brilhante.

O Chico nunca foi um palhaço que tentava fazer graça toda hora. Ele dizia que não tem coisa mais sem graça do que tentar ser engraçado.

iG: Como lidou com a morte dele?
Malga Di Paula: Fico muito revoltada, porque tirando essa doença estúpida, ele tinha a saúde perfeita (chorando). A gente ia ao médico e eu ficava impressionada: ele nunca teve problema de pressão, problema cardíaco, não tinha colesterol alto, nem taxa de glicose alta. Se não tivesse fumado, teria uma vida muito longa, como seus pais tiveram (morreram com mais de 90 anos), e o irmão mais velho dele, que ainda está vivo. A gente ainda tinha muita coisa para aprender com ele. O cigarro levou o Chico, ele foi roubado de mim.

iG: Como está a vida sem Chico Anysio? Quando mais aperta a saudade?
Malga Di Paula: Ele trabalhava em casa, então a presença dele era constante. Ele fazia os ruídos, os barulhinhos dele por causa do pigarro, até disso sinto falta. Ele ficava bastante no computador, mas eu sabia que ele estava ali. Ficava ouvindo música, assistindo vídeos no YouTube, ele sempre achava nas pesquisas coisas muito interessantes. Vídeos de pessoas que eu não conheci, ou vídeos de Hollywood da época dele, que ele adorava.

Ele trabalhava em casa, então a presença dele era constante. Ele adorava muita gente ao redor, tinha muitos empregados e adorava uma obra. Sempre tinha alguém mexendo na TV, no telefone, na janela, na porta.

iG: A casa estava sempre cheia?
Malga Di Palma: Era um entra e sai de gente sem fim. Chico adorava muita gente ao redor, ele tinha vários empregados e adorava fazer uma obra. Sempre tinha alguém mexendo na TV, no telefone, na janela, na porta, o movimento era constante. Agora é um silêncio, um vazio. Tem vezes em que acordo achando que foi um pesadelo, achando que ele ainda está aqui.

iG: Ele teve muitas mulheres e filhos, e de repente, você tinha uma família gigante. E agora, ainda tem ligação?
Malga Di Paula: Não tenho ligação com todos eles, mas me dou muito bem com o Bruno (Mazzeo). Foi ele quem fez a primeira doação para o instituto, deu o primeiro dinheiro para me ajudar. Foi muito fofo, muito querido. Eu me dou bem com ele, sinto que ele me respeita muito. Também falo bastante com o Nizo (Neto), gosto da família dele. Também gosto muito dos filhos da Zélia (Cardoso de Mello), Rodrigo e Vitória. Então, dos sete filhos dele, tenho mais contato com quatro. Com os outros (Lug de Paula, Rico Rondelli, Cícero Chaves) não tenho problemas, só não tenho muito acesso.

iG: Como será o primeiro Natal sem ele?
Malga Di Paula: Bem difícil (ela se emociona). Mas não tive os últimos dois natais. Em 2010, ele estava em coma. Passei a meia-noite segurando a mão dele no CTI. Ano passado, foi a mesma coisa. Faz dois anos que não tenho Natal, Ano Novo, e nem comemoro meu aniversário, que é em janeiro. Antes, fazíamos uma grande ceia, a família toda vinha e depois íamos passar o Réveillon com a minha família no sul.

Vai ser bem difícil o primeiro Natal sem ele, mas não tive os últimos dois natais. Em 2010 ele estava em coma, passei a noite segurando a mão dele no CTI. Ano passado foi a mesma coisa.

iG: Sobre “Salve Jorge”, como está sentindo a repercussão da novela? Já é um sucesso?
Malga Di Paula: Por enquanto é uma sombra do sucesso que está por vir. A trama está se organizando, as pessoas vão começar a se conscientizar sobre o tráfico de pessoas daqui a pouco, vai ficar mais interessante. Mas estou muito feliz, os personagens vão estar mais na Turquia, país que sou encantada com aquele país e me identifico muito. Além disso, temos uma grande conquista. Desde “Roque Santeiro”, é a primeira novela em que o segundo capítulo é mais assistido do que o primeiro.


    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.