Em entrevista exclusiva para o iG, atriz falou de como a fama é uma barreira que dificulta aproximações e contou do maior arrependimento em 50 anos de carreira: “Não ter feito ‘Dona Flor’. Eu teria que ficar nua e era uma mulher muito recatada”

Regina Duarte está de volta ao palco. Como atriz e, pela primeira vez, como diretora. Logo que tomou contato com "Raimunda, Raimunda", texto do piauiense Francisco Pereira da Silva , ela se apaixonou pelo personagem. Raimunda tem, assim como ela teve um dia, o sonho de vencer na vida. A identificação foi tanta que cresceu dentro dela a vontade de também dirigir o espetáculo. O resultado está em cartaz no Teatro Raul Cortez, em São Paulo, onde Regina recebeu o iG em seu camarim, pouco antes de entrar em cena.

De roupão branco e calçando um par de chinelos, se entregou ao ensaio fotográfico com a experiência de uma profissional. E aproveitou a presença do fotógrafo para esclarecer questões técnicas sobre fotografia. Não, ela não está pensando em aumentar ainda mais sua área de atuação: o caso é que está viciada no Instagram (rede social de compartilhamento de fotos). Olha lá: reginabduarte. Mas antes leia a entrevista, vale a pena!

iG: É normal as pessoas ficarem nervosas perto de você?
Regina Duarte: É um pouco normal sim, às vezes sinto que deixo as pessoas nervosas. É complicado, eu fico tentando descontrair, passar normalidade. Mas é normal isso acontecer com qualquer um. Eu mesma, quando vi Caetano Veloso pela primeira vez, fiquei muito nervosa, toda atrapalhada, o mesmo quando conheci o Chico Buarque, fui ao camarim da Maria Bethânia... É comum as pessoas terem um pouco de tensão no início quando vêm conversar comigo, mas logo elas percebem que podem relaxar. Eu não mordo, sou normal, quase normal... (risos)

Sinto que deixo as pessoas nervosas. É complicado, fico tentando descontrair, passar uma normalidade. Eu não mordo, sou normal, quase normal...”

iG: De onde surgiu sua vontade de dirigir?
Regina Duarte: Foi uma vontade que veio de repente, com as primeiras leituras do texto de “Raimunda Raimunda”. Primeiro me apaixonei pelo personagem e depois fui descobrindo um universo que me remetia ao início da minha vida, à minha infância, à ingenuidade, a uma vida sem malícias. Os cirquinhos do interior, aqueles palhaços sem graça e puros, por exemplo. O sotaque nordestino também me remete a muita coisa, porque meu pai é cearense. Tudo isso foi fazendo me lembrar da minha infância e me encantando cada vez mais. E o fato de eu ter iniciado no teatro, fazendo um palhaço em “O Auto da Compadecida”, também me ajudou. Tudo isso foi somando e cada vez mais tinha certeza de que eu conhecia o espetáculo. Ele tem uma linguagem que me é muito familiar.

iG: Do que se trata a peça?
Regina Duarte: Uma mulher que sai de sua origem para se dar bem no mundo. Lutando para vencer, ganhar fama, poder, glória. Com isso eu me identifico também, apesar de não ser só isso que eu desejava. Com minha formação sólida no teatro, eu sempre sonhei em ser uma grande atriz, uma atriz bacana. Eu via Cacilda Becker, Silvana Mangano, que me impressionavam muito, e queria ser como elas. E tem a televisão, que me dá uma coisa mais mundana, de ficar exposta a uma mídia muito maior, a um público muito maior.

iG: Do que você precisou se armar para enfrentar esse desafio: de coragem, de experiência, de tempo, de vontade de arriscar?
Regina Duarte: Foi de paixão pelo texto. O amor pela proposta de Francisco Pereira da Silva. Eu vivi dois meses de êxtase fazendo essa criação junto com os outros atores.

iG: Como foi dirigir a si mesma e a seus colegas de profissão?
Regina Duarte: A questão do comando é muito complicada. Porque eu sou colega, sou atriz como os outros atores. Então a parte do comando, da organização, ficou mais com a Amanda Mendes, que é minha assistente de direção. Ela leva as coisas de uma forma mais organizada. Porque eu vivi o processo criativo, mergulhei nele, de igual para igual com os meninos. Foi uma troca. Eles passaram muitas coisas para mim, da espontaneidade, de algo mais contemporâneo, e eu tenho certeza de que passei muita coisa para eles, que aprendi com os anos de experiência.

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iG: A crítica avaliou que o texto da peça talvez fosse mais apropriado como literatura do que no palco. Como você lida com críticas?
Regina Duarte: Eu presto atenção. A função da crítica é contribuir com o espetáculo, fazer o meio de campo entre o artista e o público. Você lê uma crítica para chegar ao teatro mais preparado, para poder observar algumas coisas. No meu tempo... (risos) Nossa, no meu tempo! No meu tempo, a crítica era educativa, elucidativa. Eram três dias seguidos de crítica sobre aquele espetáculo, em que começavam descrevendo o momento histórico em que foi feito. Depois falava do autor. Aí, falavam da direção, e por último dos atores, do figurino, da iluminação, da montagem. Era muito rico. A crítica era como se fosse um elemento da peça. Ilustrava o que acontecia para o público. Então, às vezes fico impressionada com o que eu leio hoje, não entendo. Outras vezes fico muito feliz porque as ideias que quis passar, que imaginei, foram transmitidas. Mas o mais importante é a crítica diária, a reação da plateia. Como o público reage a cada espetáculo. Essa é a verdadeira crítica.

Eu presto atenção na crítica. A função da crítica é contribuir com o espetáculo, fazer o meio de campo entre o artista e o público.”

iG: Você marcou a história da TV e a discussão sobre a realidade feminina com ‘Malu Mulher’. Hoje, 33 anos depois, nós temos uma presidente mulher. Acha ainda válidas discussões como aquela, programas que tratem de temas da mulher contemporânea?
Regina Duarte - É válido ainda, mas não é mais a discussão daquela época. Agora é outra. Seria um pós-feminino, não sei que nome direito dar a isso, mas aconteceram coisas que precisam ser repensadas. Houve um desvirtuamento dessa caminhada da liberação, da independência, da autossuficiência feminina. Eu acho que houve um desbalanço na relação com o homem. Não se caminhou junto e há muito a ser pensado e discutido.

Houve um desvirtuamento dessa caminhada da liberação, da independência, da autossuficiência feminina. Eu acho que houve um desbalanço na relação com o homem. Não se caminhou junto e há muito a ser pensado e discutido.”.

iG - Você recentemente elogiou a atuação da presidente Dilma no poder. Acha que há um certo cavalheirismo quando as pessoas vão fazer críticas a ela? Há uma preocupação em não ofendê-la, por ela ser mulher?
Regina Duarte: Acho que há duas coisas. Há uma condescendência e ao mesmo tempo tem outra ala irritada, que sempre diz “Só podia ser mulher” ou “Vai lavar roupa, Dona Maria” (risos). Mas também tem o lado que é mais generoso, de admiração. A mulher é um ser bastante especial, capaz de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Ela tem uma série de atributos que a diferenciam do homem. Ela gerencia o lar, que é tão complicado de comandar, com tantas ideias e personalidades diferentes. Cada vez mais as crianças têm opiniões. Há uma abertura que é ótima, mas a democracia é um sistema muito complicado de ser vivido (risos). Governar não deve ser fácil: são tantos pensamentos, visões, ideias.

iG: Você é muito ligada ao meio rural. Nasceu no interior de São Paulo, em Franca, se casou com um pecuarista, tem fazendas. Como é a sua vida no campo?
Regina Duarte: No início do meu casamento (Regina é casada com o pecuarista Eduardo Lipincott desde 2000), eu estava trabalhando muito pouco. A televisão não me chamava, o cinema me chamava muito pouco e o teatro era complicado. Passei uma fase com muitos espaços sem trabalho. Neste período, me envolvi bastante com a criação de gado Brahman. Hoje eu sou muito turista, fui ficando muito turista. Faz anos que não participo realmente disso, porque estou trabalhando muito. Só foi eu dizer que ninguém me chamava para trabalhar, que começaram a aparecer os convites.

iG: Na TV, você fez recentemente a novela “O Astro”, interpretando Clô Hayalla. No teatro, está em cartaz com “Raimunda, Raimunda”. Como estão os projetos para o cinema?
Regina Duarte: Fiz um longa lindo esse ano, chamado “Gata Velha ainda Mia”. Não sei se a palavra certa é lindo (risos)...Posso dizer que é incrível. Contraceno com a Bárbara Paz. Eu e ela. Uma velha escritora, uma jovem jornalista e uma longa entrevista.

iG: Você tornou pública sua opinião sobre a disputa de terras entre pecuaristas e índios guarani-kaiowá, no Mato Grosso. Não teme que, a exemplo do que aconteceu no passado, a defesa das suas ideias rendam críticas pesadas?
Regina Duarte: Eu acho que tenho o direito de expor minhas ideias, assim como todo mundo tem de expor as suas. Vivemos numa democracia, um sistema plural. A palavra pecuarista se tornou um palavrão em nosso país, mas ele é responsável por uma riqueza enorme no Brasil. Dá muito orgulho aos brasileiros, ao sucesso da agricultura, da pecuária, da exportação. São negócios muito bem sucedidos, que rendem frutos ao país.

Eu tenho o direito de expor minhas ideias, assim como todo mundo tem de expor as suas. Vivemos numa democracia, um sistema plural. A palavra pecuarista se tornou um palavrão em nosso país, mas ele é responsável por uma riqueza enorme no Brasil.”

iG: Já que estamos em uma democracia e a senhora vai expor suas ideias, então vamos lá:
A favor da diminuição da maioridade penal para 16 anos?
Regina Duarte : Complicado... Eu realmente não me sinto preparada para responder esta pergunta.

iG: Legalização da maconha?
Regina Duarte:  Sou a favor. Proibir é alimentar a ilegalidade

iG: Casamento gay?
Regina Duarte: Sou a favor, lógico. Essa é fácil.

iG: A senhora tem algum apelido?
Regina Duarte : Tenho, mas você não está pensando que eu vou te contar (risos). Não posso falar... É melhor eu dizer então que não tenho apelido. As pessoas costumam me chamar de Rê, de Reca, há várias coisas assim. Mas este apelido em que eu pensei é muito íntimo. É da minha família toda. A babá dos meus filhos começou a me chamar deste jeito e a família toda me chama assim, mas não vou falar.

iG: A Ivete Sangalo andou surpreendendo ao declarar que adora fazer faxina e andar de ônibus. Me conta uma coisa que você gosta de fazer e as pessoas não sabem.
Regina Duarte: Eu adoro faxina também. Acho que é uma excelente terapia ocupacional. É bom para a cabeça. Quando eu perco o sono, eu vou para as minhas gavetas, para os meus armários, coloco ordem em toda a minha bagunça. Isso me acalma, me relaxa. Uma hora, uma hora e meia depois, já estou dormindo de novo.

Faxina é uma excelente terapia ocupacional. É bom para a cabeça. Quando perco o sono, vou para as minhas gavetas, para os meus armários, coloco ordem em toda a minha bagunça. Isso me acalma, me relaxa.”

iG: Há um blog na internet, feito por pessoas da produção da TV Globo, em que você é apontada como a atriz mais simpática da emissora. A que se deve isso? Humildade? Bom humor ao trabalhar? Ou é uma postura profissional, para manter a harmonia no ambiente de trabalho?
Regina Duarte: Na verdade eu gosto de estar ali. Amo fazer isso, não gostaria de estar em nenhum outro lugar do mundo. Sou apaixonada, e aí não há uma preocupação em ser simpática, sou super espontânea. Acho também que eu trato as pessoas como gostaria de ser tratada. Tento ser sempre alto astral, não ficar olhando para trás, não guardar rancor. Tento ver o melhor lado. Eu tenho uma criança dentro de mim.

iG: Quem são seus grandes amigos dentro do meio artístico?
Regina Duarte: Tenho alguns, mas é engraçado. Fico um pouco no Rio de Janeiro, um pouco em São Paulo, e aí minhas amizades são de temporadas, mas sei que são para sempre. O Antônio Fagundes, por exemplo, esteve aqui semana passada para ver o espetáculo. Eu não perco um espetáculo dele, estamos sempre juntos. Todas as vezes em que trabalhamos juntos foi ótimo, mas nunca fizemos um programa extra-estúdio juntos. Nunca fomos a uma festa, nunca fomos à casa um do outro. Já com o Francisco Cuoco é diferente. A gente ficou amigo de sair pra jantar no sábado à noite, fazer churrasco na casa um do outro no domingo, com a família, com os filhos dele. Alguns amigos sinto que vejo pouco, mas posso contar com eles sempre.

Não perco um espetáculo do Antônio Fagundes, que veio me ver semana passada. Sempre que trabalhamos juntos foi ótimo, mas nunca fizemos um programa extra-estúdio juntos. Com o Francisco Cuoco é diferente. A gente ficou amigo de sair pra jantar, fazer churrasco na casa um do outro no domingo.”

iG: Já teve vários pares românticos em cena. Consegue destacar um?
Regina Duarte : É muito difícil isso. Trabalhei muito com o Cláudio Marzo. Foi o ator com quem mais contracenei. É muito bom atuar com o Antônio Fagundes, ele é sempre incrível. Tem um carisma muito envolvente, é muito fácil parecer apaixonada por ele (risos). Um par marcante foi o Lima Duarte. Os papéis ajudavam, eram extraordinários. Tenho que dar esse mérito aos autores. Agarramos aquilo com muita paixão, com muito humor, com muita vontade de fazer. Foi muito marcante a relação de contracenar com ele. (em “Roque Santeiro”, de 1985)

iG: Tem alguma história de algum papel que a senhora recusou e depois se arrependeu?
Regina Duarte:  Tenho vários, mas o maior arrependimento é Dona Flor (personagem que ficou com Sonia Braga no filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos”). Eu fui convidada pelo Barretão (Luiz Carlos Barreto) e pelo Bruno Barreto para fazer o personagem e recusei porque teria que aparecer nua. Eu era uma mulher muito recatada.

iG: Entre tantos personagens marcantes, consegue destacar algum?
Regina Duarte: Esta é muito difícil. Não consigo responder esta pergunta. É como se você tivesse 60 filhos e pedissem para você escolher um.

iG: Você fez três Helenas em diferentes novelas do Manoel Carlos: “História de Amor” (1995), “Por Amor” (1997) e “Páginas da Vida” (2006). Faria uma quarta?
Regina Duarte: Faria sim, claro. Na verdade, faria qualquer papel do Maneco (Manoel Carlos). Eu adoro o texto dele, ele é muito bom. Mas ele dificilmente me chamaria para uma quarta Helena.

Uma bebida... Água

Um filme... “O Candelabro Italiano” (1962)

Uma lembrança... A minha infância

Raimunda Raimunda é... Tudo de bom. Hilária

Ser Regina Duarte é bom porque... Sou sortuda e tenho muita garra

E é ruim porque... Sou muito exigente comigo mesma e é ruim também porque as pessoas demoram a chegar em mim, a atravessar essa barreira da fama

Serviço:

"Raimunda Raimunda"
Sexta às 21h30, Sábado às 21 horas e Domingo às 18 horas.
Ingressos: sexta e domingo - R$ 50. Sábado - R$ 60.
Classificação etária: 14 anos
Duração do espetáculo: 80 minutos
Teatro Raul Cortez - R. Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista - São Paulo – SP. Telefone (11) 3254.1631.


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