Fazendo Hamlet no teatro, o ator conta como é enfrentar o mais clássico dos papéis e fala de um desafio ainda maior: “Não tem personagem mais difícil do que permanecer casado”

Encarar William Shakespeare , e sobretudo subir no palco para enfrentar Hamlet, não é para qualquer um. Mas Thiago Lacerda não é qualquer um. O desafio de representar o mais clássico dos textos do mais clássico dos dramaturgos não aterrorizou o ator. Nem mesmo lembrar que, antes dele, o papel esteve na mão de (dá-lhe clássicos!) Paulo Autran , Sir Laurence Olivier , Gérard Depardieu . “É bom deixar claro que sou só mais um ator fazendo um personagem que já foi feito várias vezes. Não tenho nenhuma pretensão de revelar ao público o Hamlet, e sim, o meu Hamlet”, diz Thiago.

Até mesmo cortar o cabelo de forma radical, deixando buracos e falhas na cabeça, foi um caminho para encontrar o seu personagem na montagem dirigida por Ron Daniel , em cartaz no teatro Tuca, em São Paulo. O “corte Hamlet” foi como um ritual para evocar o conflito e o sofrimento do príncipe dinamarquês. "Hamlet se mutila, tem lapsos de desapego estético. Queria um corte esquisito, uma coisa meio leprosa", explica Thiago, que recebeu o iG numa tarde ensolarada da primavera paulistana no hotel onde está hospedado durante a temporada do espetáculo. “Adoro São Paulo. O único problema de São Paulo é que você anda, anda, anda, e nunca chega a Ipanema”, brinca o carioca.

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Não se iluda: nem o cabelo de “leproso” estraga Thiago. Ele é um pão. De perto parece até mais bonito do que na TV. E é com a metáfora do “pão quentinho” que ele explica sua disposição para entrar em cena. “Eu gosto dessa ideia de não saber o que vai acontecer e fazer o pão ali, na hora. Se o pão não estiver fresquinho, não tem graça. Quando abre o pano, é guerra.” Ele não refuta a fama de galã, mas também não a alimenta. "Não vou dizer que não sou galã. Só nunca me preocupei com isso." Para falar da vida pessoal, ele tira a máscara: “Não tem personagem que seja mais difícil do que permanecer casado.” A seguir, um compacto dos melhores momentos da entrevista.

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Thiago Lacerda
André Giorgi
Thiago Lacerda

iG: Hamlet é a obra máxima do teatro ocidental. Você se sente preparado?
Thiago Lacerda: Estar pronto é tudo, mas estar pronto não significa estar preparado, e a gente nunca está. No meio do processo, o Ronaldo (o diretor Ron Daniel) deu uma bronca na gente: ‘Você estão achando que isso aqui é arte? É arte porra nenhuma! A gente faz pão, porra!’ Eu gosto desta ideia de fazer pão. Se o pão não estiver fresquinho, feito ali na hora, não tem graça. Tenho muito orgulho da minha carreira. Nasci para isso, mas estar preparado é uma certeza que não tenho.

Tenho muito orgulho da minha carreira, acho que nasci para isso. Mas quanto a estar preparado, é uma certeza que eu não tenho

iG: Sem essa certeza, como lida com as suas inseguranças?
Thiago Lacerda: É comigo mesmo, tenho que matar um leão por dia. Quando abre o pano, é guerra. Mas eu nasci para lidar com essa situação de não saber o que vai acontecer. O que acontece no Hamlet é que ele é o personagem mais investigado de todos, o texto mais montado do teatro ocidental há quase 500 anos. As possibilidades e caminhos para contar a história são tantos que é preciso fazer escolhas. Não pode ter arrogância, o Hamlet é um jogo fresco, é um jogo muito vivo de cena. É tanta energia que não dá para tensionar o cabresto senão ele arrebenta, tem que manter certa imprevisibilidade. Assim que é para mim.

Thiago Lacerda
André Giorgi
Thiago Lacerda

iG: Você se abala com crítica negativa?
Thiago Lacerda: Não. Crítica é a opinião de uma pessoa, só mais uma opinião. O que me interessa mesmo é contar a história. Claro que é muito gostoso quando as pessoas gostam, e muito ruim quando não gostam. Quando não gostam, a primeira coisa que faço é ponderar: ‘Será que esse cara tem razão? Será que não é implicância? Ele está sendo tendencioso porque não gosta de mim?’. Por outro lado, quando o cara elogia, não acho que eu deva acreditar. Às vezes eu concordo, às vezes não. A manifestação artística é para provocar o público e não fazer o público gostar ou não gostar. Eu tenho que abrir o pano e fazer o meu pãozinho.

iG: Você se enxerga como parte do grupo de atores da sua geração?
Thiago Lacerda: Eu faço parte de um grupo, sim, eu sou um ator. Tenho uma carreira longa e volumosa na televisão, e uma carreira no teatro que me dá muito orgulho. Talvez a televisão seja o meu veículo, com o qual construí tudo o que tenho, e que me deu inclusive chance de fazer teatro. Mas eu me encaixo no grupo dos que estão na chuva para se molhar. Tem uma galera que não está na chuva, estão deitadinhos na sombra. Eu faço questão de estar na chuva, dar a minha cara para bater. Tenho curiosidade e tesão pela ideia de me expor, pela ideia da investigação, por aprender. Acho que a gente tem que se mexer.

Eu faço questão de estar na chuva, dar a minha cara para bater. Tenho curiosidade e tesão pela ideia de me expor

iG: Quem seriam os seus companheiros nesse grupo?
Thiago Lacerda: Tenho muita restrição a citar nomes, mas admiro profundamente Eduardo Moscovis , Fabio Assunção , Rodrigo Santoro . São pessoas que não se conformam e que estão sempre buscando. O próprio Gianecchini não tem medo de se expor, admiro muito o esforço dele para construir uma coisa sólida e eclética. O Selton Mello também. Todos eles são um pouco mais velhos do que eu, mas me sinto parte dessa turma e os admiro muito. (Thiago está com 34 anos)

iG: Hamlet foi uma tentativa de desconstruir a imagem de “bonitão da Globo”?
Thiago Lacerda: Esse rótulo me foi posto de forma quase involuntária e irreversível. Nunca fiz o meu trabalho com essa ideia, ou não teria feito Calígula (na peça “Calígula”, em 2010) ou Jesus (“A Paixão de Cristo”, em 2011). O que interessa são grandes personagens e os grandes personagens nem sempre são cheirosinhos, vão na contramão do que as pessoas imaginam. Então a desconstrução é inevitável.

O que interessa são grandes personagens e os grandes personagens nem sempre são cheirosinhos, vão na contramão do que as pessoas imaginam. Então a desconstrução da imagem do galã é inevitável

iG: Olhando para trás: todas as presenças que você fez em festas por cachê nos anos 1990 foram um mico ou uma maneira de conquistar sonhos?
Thiago Lacerda: Eram frilas para juntar uma grana, era super honesto. Não só não me arrependo como acho que não mudaria nada. Eu faço até hoje, com a diferença que tenho outras prioridades e responsabilidades, por isso faço menos e cobro mais caro. Lembro que teve época em que fiquei três anos sem almoçar aos domingos com a minha mãe. Eu batalhava por uma grana extra num momento da minha carreira em que eu podia: estava solteiro, tinha 20 anos, não protagonizava novela, gravava menos. Nos outros dias, eu ia batalhar.

iG: Quais sonhos de consumo conseguiu realizar com esse dinheiro?
Thiago Lacerda: O meu primeiro apartamento, meu primeiro carrinho, eu fiz um bom pé de meia. Quando contei para o meu pai que sairia de casa, ele ficou bravo. Perguntou se estava faltando alguma coisa. Disse para ele: ‘Tenho 21 anos, essa é uma notícia maravilhosa, temos que tomar uma cerveja para comemorar!’

Aos 21 anos, quando contei para o meu pai que estava saindo de casa, ele ficou bravo. Perguntou se estava faltando alguma coisa para mim

iG: Tem alguma coisa que ainda não conseguiu comprar?
Thiago Lacerda: A única coisa em que ainda penso em botar a grana que ganho é no meu sítio, que é um raaalo! Não fico fazendo conta, não quero nem saber! Gasto um monte de dinheiro. Mas é para isso mesmo que ele está lá: para os meus filhos, meus amigos, quero aquilo lá pleno, para ficar em silêncio, deixar as crianças correndo, os bichos todos soltos. E também gosto de viajar, viajar, viajar! Ter o prazer de virar para a minha mulher e perguntar: ‘Para onde vamos agora?’ Entrar num avião e foda-se! É um luxo maravilhoso.

iG: Falando sobre a sua mulher (a atriz Vanessa Loés), é mais fácil ou mais difícil ser casado com uma atriz?
Thiago Lacerda: Ser casado é difícil pra caralho! Com atriz, não atriz, o casamento é a grande parada. Não tem personagem que seja mais difícil do que permanecer casado! (risos) O casamento é uma grande arte, um desafio gigante, é um prazer enorme, uma maravilha, mas também um esforço de foco, de entrega e doação. Tem que se enxergar, e se encaixar: quando não está legal você cede, quando está bacana você cobra. E essa ginástica é muito, muito, muito difícil. Com atriz ou não atriz.

O casamento é uma grande arte, um desafio gigante, é um prazer enorme, uma maravilha, mas também um esforço de foco, de entrega e doação

iG: Mas o seu casamento é muito estável, mesmo envolvendo dois atores, nunca se ouve nada sobre a sua família, que é bem reservada. Você é o responsável por isso?
Thiago Lacerda: Sim, sempre tive a certeza de que deveria preservar a minha família, a minha vida pessoal, da minha carreira. Desde o início. Foi uma intuição que tive aos 18 anos, quando pisei no meu primeiro trabalho. Tinha que me inspirar nas pessoas que realmente admiro, então elegi algumas figuras naquele ofício que me aparecia. Tony Ramos , Antônio Fagundes , Fernandona ( Fernanda Montenegro ), a Glória Pires , figuras que têm a carreira deles e você não vê a vida deles oferecida ao público. Eles se colocam com muita atividade na linha de frente, emitindo opinião, se posicionando politicamente, provocando, etc. Mas onde é que foram jantar, na festa de quem, isso não deve interessar às pessoas.Preservo minha vida pessoal porque é o meu refúgio. É quem eu sou de verdade e não quem as pessoas acham que eu sou. O Thiago Lacerda é uma figura projetada pelo imaginário coletivo. Algumas pessoas acham que sou legal, outras acham que sou um babaca arrogante. Alguns acham que sou bom ator, outras me acham um canastrão. Quem lida comigo, minha mulher e meus amigos, sabem quem eu sou e os defeitos que eu tenho.

O Thiago Lacerda é uma figura projetada pelo imaginário coletivo. Algumas pessoas acham que sou legal, outras acham que sou um babaca arrogante. Alguns acham que sou bom ator, outras me acham um canastrão

iG: E depois de Hamlet, o que quer fazer?
Thiago Lacerda: É uma pergunta que eu me faço, pois vim de um personagem tão significativo como Hamlet. Fiz o Capitão Rodrigo (no filme “O Tempo e o Vento”, de 2012), que talvez seja o Hamlet da literatura brasileira. O Capitão tem essa autoridade épica e trágica do Hamlet. Mas não tenho a menor ideia, só é certo que depois do Hamlet é necessário ficar em silêncio. Isso é certo, haverá silêncio. E só então, quero fazer um Nelson Rodrigues .

Thiago Lacerda
André Giorgi
Thiago Lacerda

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