Rogéria sem mágoas: “Meus tios me bolinavam sob meu consentimento”

A mais famosa transformista do País faz um balanço dos seus quase 50 anos de carreira. Sem lágrimas, sem plásticas

Valmir Moratelli iG Rio de Janeiro |

Rogéria. Foto: Selmy YassudaRogéria entre Chico Caruso e Miele. Foto: Selmy YassudaRogéria. Foto: Selmy YassudaRogéria. Foto: Selmy YassudaRogéria. Foto: Selmy YassudaRogéria. Foto: Selmy YassudaRogéria. Foto: Selmy YassudaRogéria. Foto: Selmy YassudaRogéria. Foto: Selmy YassudaRogéria. Foto: Selmy YassudaRogéria. Foto: Selmy YassudaRogéria entre Chico Caruso e Miele. Foto: Selmy YassudaRogéria. Foto: Selmy Yassuda

9h da manhã. Linha 472 Leme-Triagem. Ônibus relativamente cheio. Uma senhora de lenço no pescoço, óculos escuros e chapéu entra em uma das primeiras paradas. Ninguém a percebe entre tantos passageiros. Com os cabelos louros bem cuidados, mas tendo que ser ajeitados de vez em quando devido ao vento que vem da janela aberta, a senhora viaja por quarenta minutos sem receber qualquer olhar inquisidor. Ao descer do veículo, ela está satisfeita: cumpriu seu papel de mulher.

É graças aos meus santos protetores que hoje eu sou a Rogéria”

A passageira é Rogéria. Ou Astolfo Barroso Pinto. Ela explica o que fazia no tal ônibus. “Um certo dia pensei: ‘vamos deixar de ser sedentária? Vamos fazer um personagem’. Resolvi inventar que preciso ir ao dentista toda manhã. O ônibus Leme-Triagem virou meu palco. Me dei a Palma de Ouro, o Oscar de Melhor Atriz. Fiz isso durante um mês, entrando e saindo do ônibus sem chamar a atenção. Ninguém percebeu que não era mulher”, conta, realizada.

A situação mostra que Rogéria faz de palco qualquer lugar onde esteja. Para esta entrevista, ela recebeu a equipe do iG no camarim do Bar do Tom, onde está em cartaz com a peça “Homenagem a Trois”, ao lado de Chico Caruso e Miele. Ela gira na cadeira em frente a uma penteadeira, se levanta, faz alongamento e alguns passos de balé, muda a entonação de voz de acordo com suas lembranças como se dissesse um texto cênico.

Talvez porque sua vida se misture ao que aprontou sobre os palcos. Começou maquiadora, cuidando de estrelas como Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Fernando Torres, Sergio Britto, Elizeth Cardoso. Foi atração principal do teatro Carlos Gomes, do Rio, no auge do Teatro de Revista, no fim dos anos 60. Na Europa, circulou por Espanha, Inglaterra e França, onde atuou nos mais animados cabarés parisienses. Neste bate-papo, Rogéria conta por que não é, aos 69 anos, mais uma passageira comum.

Selmy Yassuda
Rogéria entre Chico Caruso e Miele: "Homenagem a Trois"



iG: Você está em cartaz com uma peça de humor bastante biográfica. Há algum pudor para falar da sua vida?

ROGÉRIA: Quando brinco, brinco em cima de mim. Não me incomoda piada sobre gays, por exemplo. O que me incomoda é piada sobre santos. Não gosto. Não reclamo, acho graça e me retiro. Porque se eu for acreditar que pastor diz que não temos Cristo interno, eu não estaria viva. É graças aos meus santos protetores que hoje eu sou a Rogéria.

iG: Foi fácil se transformar na Rogéria?

ROGÉRIA: Não. Meu maior sonho era estudar no Actor’s Studios de Nova York. Era fantasia maluca de geminiana sem dinheiro. Mas tive uma coisa melhor. Tive todo o elenco da Tele Rio, anterior à TV Globo, para maquiar. Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Fernando Torres, Sergio Britto, Elizeth Cardoso, Emilinha, Marlene, Chico Anysio, além de trabalhar com Walter Clark, Boni...

Selmy Yassuda
Rogéria, sempre irreverente

iG: Na peça, você fala e canta sobre momentos marcantes de quase 50 anos de carreira. Como decidiu viver 24h por dia esta personagem?

ROGÉRIA: Certa manhã, e isso já faz um bom tempo, acordei e pensei ‘Vamos deixar de ser sedentária?’. Resolvi inventar que preciso ir ao dentista. O ônibus Leme-Triagem virou meu palco. Fui de tênis, porque não queria parecer uma bichinha de sapatinho. Era para parecer uma senhora. E arrasei. Minha entrada de lenço, de óculos, chapéu, com essas unhas imensas... Me dei a Palma de Ouro, o Oscar de Melhor Atriz.

iG: Já aconteceu de algum rapaz desatento confundi-la para valer?

ROGÉRIA: Ah, mas eu desmistifico na hora! Tenho medo do homem descobrir que sou homem só na hora H. Falo logo ‘você sabe que sou um homem? Não sou operada’. Se a tábua estiver arriada, sento e faço xixi. Se estiver levantada, faço em pé. Nunca fiz análise, portanto. Eu lido assim com minhas verdades.

iG: Como Fernanda e Bibi Ferreira te deram um empurrão na carreira, nos anos 60?

ROGÉRIA: Eu não era apenas um gay maquiador, era um artista que cantava. Fernanda me dizia que era preciso talento e vocação. E eu preocupada: “Mas vestida de homem?”. E ela: “Pode ser como você quiser”. Bibi entra nessa história depois, quando a vi no palco fazendo “My Fair Lady” (1962). Foi ela quem me colocou no espetáculo “Roque Santeiro”, cantando com ela ao vivo. É muito atrevimento!

iG: Teve apoio familiar?

ROGÉRIA: Tive uma família maravilhosa, com uma mãe que nunca me fez uma afronta. Nenhum dos meus 14 tios questionou minha sexualidade. Eu não sofri bullying. Eu que batia em todos os garotos! Brincava de Cleópatra com eles, que me carregavam em cima de uma liteira.

Selmy Yassuda
Rogéria no camarim do Bar do Tom, no Leblon


iG: O aumento dos casos de bullying faz crer que a sociedade está mais preconceituosa?

ROGÉRIA: Concordo. As pessoas estão mais preconceituosas. A verdade é que não estão estudando, não abrem mais suas cabeças como nas décadas de 70 e 80, por exemplo. Sabe o que me enche de orgulho? Quando uma senhora me para na rua e me diz que adora quando falo que meu nome é Astolfo Barroso Pinto. Isso mostra que nada do que fiz foi em vão.

iG: Já sofreu abuso sexual?

ROGÉRIA: Vou revelar uma coisa que nunca contei. Meus tios passavam a mão em mim, com o claro intuito de se aproveitarem. Eles me bolinavam. Mas eu tinha a situação em minhas mãos. Eles só passavam a mão porque eu deixava.

O povo começou a gritar ‘Ro-gé-ria, Ro-gé-ria...’. Foi o povo quem me batizou”

iG: Da onde surgiu o nome Rogéria?

ROGÉRIA: Foi num concurso de fantasia, março de 1964. Fiquei em primeiro lugar. E todo mundo queria saber meu nome. O apresentador errou no microfone: “Ele é Rogério, maquiador da TV Rio”. E o povo começou a gritar ‘Ro-gé-ria, Ro-gé-ria...’. Foi o povo quem me batizou.

iG: Como foi parar no Moulin Rouge, o mais famoso cabaré de Paris?

ROGÉRIA: Isso foi depois de ser estrela do teatro Carlos Gomes, no Rio, com três grandes espetáculos. Meu teste para trabalhar em Paris foi engraçado. Devia mostrar que conseguia me passar por mulher entre os franceses. Peguei o metrô cheio, de Pigalle a Montparnasse. Coloquei um aplique no cabelo e me vesti como uma mulher normal, como quem vem do trabalho. O diretor ao meu lado deu a sentença: ‘Você está pronto para ser uma mulher”. Comecei no dia seguinte no Moulin Rouge.

iG: Qual foi a proposta mais absurda que já recebeu?

ROGÉRIA: Depois de Paris fui para a Espanha em turnê. Era a ditadura franquista. Fiz um sucesso atrás do outro. Até que o empresário do show fez uma proposta que não esperava: ‘Opera-te, Rogéria. Porque você será a grande estrela da TV espanhola’. Nunca pensei em ser mulher, eu adoro ser Rogéria. Falei pro homem que ia tirar férias para ver neve em Paris e voltaria operada. Claro que não voltei. Fui ver a neve (risos).

iG: Por que não quis operar?

ROGÉRIA: Eu tinha medo de parecer puta ou trava. Tenho que passar por atriz! Passei pelas mãos de Irene Ravache, Bibi Ferreira, Fernanda Montenegro... Ao invés de colocar em prática o fato de que eu sou mulher, coloquei na cabeça que sou ator. Não é minha cabeça, portanto, estar operada. O que me interessa é o prestígio artístico.

Tenho 69 anos, olha minhas mãos... Não são mãos de velha. Não tenho nada de botox”

iG: Isso não era um problema nos seus relacionamentos dentro dos cabarés franceses?

ROGÉRIA: Não, porque não fazia essas coisas... Quando trabalhei no Carrousel, um dos cabarés mais badalados de Paris, a madame do local me perguntou se eu não queria ter um namorado. Várias dançarinas desciam para atender aos clientes. Eu não. Até que aparece um sujeito querendo me levar para Londres. Nem guarda-roupa eu tinha para enfrentar o frio inglês. Ele me deu tudo. Resumindo: namorei ele por uma semana.

iG: Quantas plásticas já fez?

ROGÉRIA: Nenhuma (diz ela alisando o rosto). Cito Vanessa Redgrave (atriz inglesa de 75 anos). Ela é uma senhora que está pior que eu. Mas nunca precisou fazer uma plástica. É a atriz que é, sem precisar de nenhuma plástica. Tenho 69 anos, olha minhas mãos... Não são mãos de velha. Não tenho nada de botox.

iG: Como é sua rotina fora dos palcos?

ROGÉRIA: Sou péssima dona de casa. Sou cheirosa, asseada, limpa. Mas não controlo a bagunça. Ainda sou do telefone fixo, não tenho celular. Acesso a internet só para ver vídeos. Atividade física? (ela se levanta e alonga os joelhos para encostar os dedos na ponta dos pés. Em seguida faz uns giros de balé pelo camarim). Vejo televisão conversando comigo. Não sou saudosista, mas gosto de olhar para trás e ver que consegui fazer com que as pessoas me respeitassem sendo quem eu sou.

Serviço:

“Homenagem a trois”

Bar do Tom. Rua Adalberto Ferreira, 32, Leblon. Rio de Janeiro. RJ

Até 3 de novembro (toda sexta e sábado). Tel. 2274-4022

Selmy Yassuda
Rogéria entre Chico Caruso e Miele



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