Empresária lança livro de memórias e fala ao iG sobre os bastidores da música de Tom e Vinicius que a imortalizou na MPB

Menos de cinquenta passos separavam o calçadão de Ipanema das areias da praia. Percurso que uma certa jovem de corpo dourado fazia todo começo de tarde a caminho do mar. Heloísa Eneida de Menezes Paes Pinheiro, então com 17 anos, não sabia mas, do outro lado da calçada, era observada por Tom Jobim, sentado em um bar com seu parceiro Vinicius de Moraes.

O ano era 1962. Heloísa, conhecida pelos amigos como Helô, logo ganharia fama mundial como “ Garota de Ipanema ”, título da canção que Tom compunha pensando em seu “doce balanço”. O resto é história. E que história. Segunda música mais executada do mundo, atrás de “Yesterday”, dos Beatles, de acordo com a editora do grupo Universal, “Garota de Ipanema” é para Helô um cartão de visitas. “É uma música que mata a saudade de uma época. Tem lugares que eu entro e as pessoas já tocam. É a tal situação de homenagem. Fico envergonhada. Até porque não sou mais uma garota”, diz.

Helô tem quatro filhos de seu único casamento com o engenheiro Fernando Pinheiro: Kiki, Ticiane, Jô e Fernando. Entre os trabalhos fotográficos ao longo de sua carreira, destaca-se o ensaio que, em abril de 2003, aos 58 anos, fez ao lado da filha e que foi publicado pela Playboy. Pela primeira vez, mãe e filha se fotografaram juntas num ensaio de capa.

Em entrevista ao iG , ela conta por que trocou, há trinta anos, o calçadão de Ipanema pelo trânsito de São Paulo, fala sobre os choques comportamentais dos anos sessenta e revela que Isis Valverde poderia herdar seu título.

Helô hoje, aos 67 anos
Divulgação
Helô hoje, aos 67 anos

iG: Você prefere chamar o livro “A Eterna Garota de Ipanema” como de memórias pessoais ou de histórias da MPB?

HELÔ PINHEIRO: É uma tentativa de fazer com que a nova geração tome conhecimento dessa época que vivi. Dia desses o ministro das Relações Exteriores da Tailândia entrou em contato porque precisava saber um pouco da minha história, perguntou se eu podia mandar um release... Eu perdia muito tempo escrevendo. Para cada um escrevia alguma coisa. Aí pensei: ‘sabe de uma coisa? Chega!’. As pessoas precisam ter conhecimento e acesso a esta história. Daí veio o livro.

iG: Até hoje você deve ser bastante questionada sobre a relação com Tom...

HELÔ PINHEIRO: A curiosidade maior é se foi verdade que eu estava passando e ele me viu, ou se eu tinha um caso com ele. Já me perguntaram: ‘Você já deu pra ele?’. Vê se pode!

iG: E o que costuma responder?

HELÔ PINHEIRO: Dei sim! Dei muito carinho e atenção. Nada mais que isso. E um ‘muito obrigado’. Eu não sabia que era a coisa mais linda, mais cheia de graça e com doce balanço. São frases que dão brilho ao meu ego, uma homenagem que perdura por gerações.

Helô Pinheiro
Divulgação
Helô Pinheiro

iG: Como tomou conhecimento da “homenagem”?

HELÔ PINHEIRO: Através de um pedido de Tom para se casar comigo ( risos ). Ele chegou no banco da praia, eu já sabia da música, ele confirmou que foi inspirada em mim... e que a compôs porque estava apaixonado por mim e queria casar comigo. Achei que ele estava brincando, imagina!

iG: Por que você recusou?

HELÔ PINHEIRO: Ele era casado ( risos ). Tudo bem que o casamento dele já estava balançado, ele queria namorar. Ficou uma nuvem meio complicada. Falei que não tinha como, era de família tradicional, tudo era bem diferente. Quando fui me despedir, ele virou o rosto e nos demos um beijo na boca.

iG: Foi só isso?

HELÔ PINHEIRO: Sim. Ele foi meu padrinho de casamento. Ele e Tereza, a sua então mulher. Muitos não acreditavam que ele ia aparecer, ia vestir terno, entrar em igreja. Mas deu tudo certo.

Helô Pinheiro em 1963
Divulgação
Helô Pinheiro em 1963

iG: Você teve muitos namorados?

HELÔ PINHEIRO: Olha, vou te falar... casei virgem. Meu pai era militar, minha mãe trabalhadora, tradicional... me levavam nas rédeas. A coisa era complicada. Tinha medo que descobrissem qualquer coisa que fizesse errado. A “Garota de Ipanema” que todo mundo cantava e comentava, veja bem, era virgem.

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iG: Só você ou as amigas também?

HELÔ PINHEIRO: A maior parte era virgem. As minhas amigas eram todas virgens. Algumas eram doidas para perder ( risos ). A educação em casa era muito rígida. Minha avó dizia: “não entregue seu tesourinho, porque depois ninguém mais vai te querer se entregar antes pra pessoa errada”.

iG: A Ipanema de hoje ainda representa o que há de mais “cool”, mais moderno no Rio?

HELÔ PINHEIRO: Muita coisa mudou, principalmente a relação de amor. As pessoas hoje ficam, antes namoravam e noivavam para se casar. Era um método de vida que não cabia ansiedade. A impressão é que as coisas davam mais certo. As garotas de Ipanema não tem mais parâmetro para namoro, não têm apoio do próprio parceiro. É um sistema diferenciado do que a gente tinha.

Helo Pinheiro e a filha Ticiane
André Giorgi
Helo Pinheiro e a filha Ticiane

iG: Mesmo morando há trinta anos em São Paulo, você ainda frequenta Ipanema?

HELÔ PINHEIRO: Faço parte de Ipanema e ela de mim. Tenho uma loja de moda praia lá. Também tenho um apartamento no bairro, para onde vou aos finais de semana. É minha raiz. Fui para São Paulo, porque no Rio só tem a Globo... E a Globo não me deu chances.

iG: Que portas se abriram para você após “Garota de Ipanema”?

HELÔ PINHEIRO: O que mais fiz foi contar história para o mundo inteiro. Estou dando entrevistas para diversos países. Colômbia, Inglaterra, Japão... Os pedidos que chegam ao meu escritório são de diversas partes do mundo. Antes da música, já fazia comerciais, tinha uma veia de tendência artística, era apaixonada por decorar textos...

iG: Imagina como seria sua vida sem a música?

HELÔ PINHEIRO: Não... Depois que fui inspiração para a música, Tom só revelou à imprensa que era eu a tal ‘garota’ em 1965. Aí é que estourei. Meu noivo queria casar de imediato, ficou assustado com o assédio. E casei. Fica mais fácil de divulgar qualquer coisa quando se tem por trás o título de “Garota de Ipanema”. Fiz novelas na Globo como “Água Viva”, “Coração Alado”, depois fiz “Cara a Cara” na Band, alguns trabalho em teatro... E mais comerciais.

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iG: Existe uma substituta para você?

HELÔ PINHEIRO: Uma menina que vejo pela TV, tirando a parte do temperamento e personagem que interpreta na novela, é a Isis Valverde. Gosto do jeito que ela mexe nos cabelos, que anda, o tom de pele... Mas não tem nada a ver com o estilo periguete da novela, tá? As meninas periguetes da época, ainda que não usássemos este termo, não ficavam na mesma faixa de areia. Elas ficavam no final do Arpoador, junto às pedras.

iG: Tem algum momento que, de tanto ser executada, a música já te irritou?

HELÔ PINHEIRO: É uma música que mata a saudade de uma época. Tem lugares que eu entro e as pessoas já tocam. É a tal situação de homenagem. Fico envergonhada. Até porque não sou mais uma garota. Tem momentos que não estou a fim de escutá-la, que não quero pensar em passado, em nostalgia. Aí evito mesmo, desligo o rádio na hora.

Capa do livro
Reprodução
Capa do livro

Serviço :

Livro “A Eterna Garota de Ipanema”, de Helô Pinheiro

160 pags.

Preço: R$ 36,00

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