Ex-integrante da formação mais famosa do grupo lembra os tempos de sucesso e a relação com Roy, Ray, Rob e Ricky

Ao lado de Roy , Ray , Rob e Ricky (Martin), Charlie  fez parte da formação mais conhecida do Menudo, aquela que provocava os gritos mais altos das garotas quando cantava “Não se reprima, não se reprima. Canta, dança, sem parar.” O auge do grupo porto-riquenho durou de 1983 a 1987. A imagem de meninos bonitinhos, com cortes de cabelo mullet (curto na frente e comprido atrás) e camisetas coloridas nas capas dos LPs contrasta com a lembrança que Charlie guarda da época: “Fazer parte do Menudo era como estar no exército.”

Charlie ainda com seus cabelos encaracolados nas capas dos LPs dos Menudo de 1985 e 1986
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Charlie ainda com seus cabelos encaracolados nas capas dos LPs dos Menudo de 1985 e 1986


Assim que deixou o Menudo, em 1987, após cinco anos de atuação, o porto-riquenho Charlie Massó seguiu carreira solo e decidiu se lançar como ator. Fez peças de teatro, novelas no México e na Colômbia, alguma coisa no cinema, mas algo ainda lhe faltava. Diante de tantas frentes de atuação, queria também um diploma universitário – e foi cursar publicidade. “Durante cinco anos tive que conciliar o trabalho com o curso”, conta ele ao iG , no quarto de um hotel em São Paulo, onde passa temporada – está se apresentando em shows e programas de TV com a cantora-mirim Fabiana Moneró , de 7 anos, que no Brasil ficou conhecida ao ser semifinalista do programa “Astros”, no SBT.

Por esse motivo, e por ser pai de dois filhos, o ex-Menudo recuou diante da proposta de fazer fotos mais ousadas e negou que irá posar nu. “Preciso de uma imagem de ‘papá’”, disse ele, acompanhado da mulher, a apresentadora de televisão Marisa Baiges , também sua conterrânea. “Eu já posei pelada, ele é quem decide”, brinca ela, que conheceu Charlie em uma montagem do musical “Grease” – ele fazia o papel de Tony Manero , que foi de John Travolta no cinema.

Éramos crianças, estávamos ligados em vídeo game”

Tantos anos depois de sua passagem pelo Menudo (1982 a 1987), que existe ainda hoje, sempre em nova formação – a rotatividade é grande -, Charlie sabe que terá para sempre seu nome vinculado ao grupo. Nos últimos dez anos, participou de apresentações pela América Latina com o show “El Rencuentro”, com integrantes de diversas gerações da boyband. Só não faz parte desses reencontros o mais famoso dos ex-Menudos, o popstar Ricky Martin, que em março de 2010 veio a público se declarar gay.

Seria o hit “Não se Reprima”, entoado por legiões de fãs, um prenúncio de que Ricky sairia do armário anos depois? Charlie garante que não. “A música tem a ver com liberdade. Mas éramos garotos, estávamos ligados em Nintendo, em videogame. A gente brincava, cantava, fazia turnê. Ninguém estava com esse tipo de pensamento”, conta, explicando que não passava pela cabeça de ninguém que algum deles pudesse ser homossexual.

Aos 43 anos, Charlie aproveita para elucidar também a questão do assédio moral e sexual que os meninos teriam sofrido do então empresário do grupo, Edgardo Diaz , o que chegou a ser cogitado na época, baseado em declarações de certos integrantes. Nada disso é verdade, ele garante. Mas que o empresário era linha dura, disso não há dúvida. “Ele era muito rigoroso”, recorda-se. Sobre planos futuros, pretende gravar um novo repertório de músicas românticas, assim como não descarta um trabalho de dramaturgia no Brasil. Confira:

iG: O que há de bom e de ruim na fama?
Charlie Massó: A fama tem seus prós e contras. Quando se trabalha para fazer sucesso, a ideia é ser famoso. E quando se é famoso, você quer ter o tempo que tinha quando não era tão conhecido. É uma condição natural do ser humano querer tudo, mas o mais importante é o equilíbrio. É bom ser famoso, ter muito trabalho, assim como é bom ter tempo para si. É possível trabalhar 16 horas por dia, mas tem que ter um tempo nesse dia que é seu. Se sua equipe de trabalho entende isso, é possível conciliar as duas questões muito bem.

iG: Tem arrependimentos ou rancores da época do Menudo?
Charlie Massó: Não. Sempre quis estudar mais e nunca pude porque tinha muito trabalho. Quando estava mais velho fiz a faculdade e segui com a minha carreira. Tem muita gente que faz o contrário, a faculdade primeiro para depois seguir carreira, mas a minha história foi assim. O que quero dizer com isso é que nunca é tarde para fazer o realmente se deseja. É importante viver cada fase e experiência, porque só acontecem uma vez. Não se pode querer viver uma etapa quando se está em outra, é preciso desfrutar o presente ao máximo. Acho que é a melhor maneira de viver.

Acho que estamos em 2012, século 21, é a coisa mais natural do mundo que o Ricky tenha o direito de viver o que ele escolheu”

iG: Saudade do assédio descontrolado das fãs? Daquela gritaria das “menudetes”?
Charlie Massó: Tenho boa lembrança, foi uma etapa bonita, mas saudade não é a palavra correta. Sempre lembro com muito carinho e respeito dessa experiência. Tudo o que aconteceu depois disso partiu daí. Às vezes tenho muita saudade da camaradagem que rolava entre os garotos. Quando a gente cresceu, construímos uma relação igualmente bonita, mas mais madura. Posso dizer que a nossa relação é mais forte do que tivemos com a nossa própria família, pois passamos muito tempo juntos.

iG: E do que não tem saudade?
Charlie Massó: Não tenho saudade das muitas horas de trabalho, de ensaios e ensaios. Se bem que, quando comecei carreira solo, também tive que fazer as mesmas longas horas de ensaio. Então, se quero seguir este caminho, sei que terá que ser assim.

iG: Houve brigas entre vocês no passado?
Charlie Massó: Brigas normais, do tipo: um quer ver um canal de televisão, outro queria jogar Nintendo. Eram brigas de garotos, nada sério. No grupo, cada um tinha sua função, assim é o trabalho em equipe.

iG: Ganhou muito dinheiro?
Charlie Massó: O que é muito dinheiro para mim pode não ser para você. É uma questão subjetiva: sucesso é o equilíbrio perfeito de todos os elementos que funcionam ao redor de sua vida pessoal, familiar e profissional. E às vezes sucesso não traz dinheiro e vice-versa. No grupo tive chances de ganhar um bom dinheiro e construir um caminho na minha vida. Mas tenho que continuar trabalhando. Não é como quando se ganha na loteria e não é preciso trabalhar nunca mais. Eu tenho que fazer escolhas inteligentes e continuar trabalhando para crescer. É como tudo na vida, o dinheiro uma hora também vai embora.

iG: Guardou dinheiro da época do “Menudo”?
Charlie Massó: Sim, está aqui (brinca, tirando um maço de dólares do bolso)! Brincadeira! Sou bom administrador e acho que soube cuidar do meu dinheiro. Mas tenho que trabalhar, como todo mundo. E mesmo que não tivesse mais necessidade de trabalhar para viver, eu continuaria porque gosto de me sentir produtivo e ativo.

iG: O que você acha de o Ricky Martin ter assumido sua homossexualidade?
Charlie Massó: Acho que estamos em 2012, século 21, é tempo de todos terem liberdade para viver como quiserem. No caso do Ricky, ele é uma figura pública e sempre notícia. É uma tendência da humanidade, as pessoas estão vencendo batalhas no mundo todo. Alguns lutam pela liberdade de expressão, outros pela liberdade de passar de um território para outro. Então é a coisa mais natural do mundo que ele tenha o direito de viver o que ele escolheu.

No grupo tive chances de ganhar um bom dinheiro, mas tenho que continuar trabalhando”

iG: Não é mais ou menos o que estava por trás de “Não se reprima”?
Charlie Massó: A mensagem é que muitas vezes a sociedade nos obriga a ter um tipo de comportamento ou jeito de ser. E as pessoas acabam sendo o que outras queiram que ela seja. ‘Não se reprima’ fala sobre liberdade, sobre sentir-se livre. Se precisar gritar, grite. Se quiser brincar, brinque!

iG: Você acha que os integrantes da sua geração do ‘Menudo’ sentem inveja de Ricky por ele ter se tornado um popstar?
Charlie Massó: Eu acho que cada um tem que seguir seu próprio destino. Eu tenho o meu, e ninguém pode passar por esta vida tentando viver a vida de outro. Tem que ter a capacidade de manter o foco e a concentração no que quiser fazer. Ricky teve que fazer sacrifícios para estar onde ele está. Não sei se outros têm inveja, mas, no meu caso, tenho a minha própria história para contar e ele a dele. Eu o admiro muito e respeito muito seu trabalho como artista. É uma grande pessoa! Sempre fomos muito amigos, mas não nos vemos com frequência porque cada um tem sua vida.

iG: Você é amigo do Gugu?
Charlie Massó: Sim, gosto muito do Gugu . É uma pessoa muito amável e agradável.

iG: Alguns ex-Menudos declararam que sofreram abusos moral e sexual do empresário Edgardo Diaz. O que aconteceu?
Charlie Massó: A minha experiência como Menudo foi muito boa, muito positiva. Nunca tive problemas ou ressentimentos. Nunca fui molestado! A minha relação com o empresário do grupo sempre foi profissional. Ele sempre pagou meu dinheiro, nunca atrasou. O que acontece é que nosso itinerário de shows era muito corrido, porque para fazer sucesso tem que trabalhar. E eu agradeço a essa escola, me preparou para trabalhar solo. Se tiver que trabalhar 20 horas por dia, eu o farei. Se alguns disseram que foram abusados, essa não foi a minha experiência. Não posso falar pelos outros e também acho que o momento para falar era quando aconteceu.

iG: Mas era um assunto que rolava entre vocês?
Charlie Massó: Não, eu não escutei nem vi nada, e acho que é algo muito grave para eu não ter percebido. Mas entendo aonde quer chegar, então vou explicar uma coisa: quando se tem que trabalhar 14 horas por dia, tem que ter alguém atrás dizendo ‘Vamos, vamos, e rápido!’ Não vou dizer que o tratamento era na base do ‘ por favor, podemos ir agora?’, era como um exército! E isso te dá disciplina, porque se você tem que chegar às 6h, tem que levantar às 4h30. Era muito rigoroso.

iG: Pelo que você passou e não deixará seus filhos passarem caso queiram seguir sua profissão?
Charlie Massó: Eu tive uma grande sorte de fazer o que eu queria fazer. Se eles quiserem fazer o que fiz e isso lhes fizer feliz, que assim seja, contanto que tenham estudo. A educação é uma forma de ampliar sua visão do mundo. Eles precisam se preparar, precisam ter duas ou três opções de vida. Podem ser advogados e contadores e então, cantores. Já são três carreiras.

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