Em entrevista ao iG, eterno surfista de “Armação Ilimitada” faz balanço da carreira e conta por que não quer que o longa do qual foi protagonista seja refilmado por Luiz Carlos Barreto

Relembrar o passado, muitas vezes, pode soar saudosista. Pode até ser doloroso. Mas André de Biase não se permite tais feridas. Encara com honestidade as linhas que escreveu de sua vida – inclusive as tortas. Ao aceitar recordar com o iG os momentos marcantes de seus 34 anos de carreira, o ator se emociona, ri, faz pausas prolongadas para achar as palavras mais adequadas que expressem o que de fato sente.

Ouvi falar que querem fazer ‘Menino do Rio’ em musical. O filme é meu, eu é que sou o autor. Não vai estrear nada. Vou criar um problema”

Em sua ampla casa na Barra da Tijuca, no Rio, cercado por orquídeas raras e micos que se equilibram nos galhos de uma jaqueira, André conta que ainda não perdeu a esperança de ver “ Armação Ilimitada ”, programa de 1985, no cinema. Faz questão de protagonizar, mais uma vez, o surfista Lula. Mesmo aos 55 anos. Mesmo estando distante do arquétipo de “Menino do Rio” que lhe conferiu fama com as mulheres e inveja dos marmanjos.

Todo jovem queria ser como Juba e Lula. Toda menina queria estar com Juba e Lula. E aí já se vão 27 anos. Os protagonistas, cada um ao seu modo, seguiram seus rumos. Enquanto Kadu Moliterno permanece na Globo ( está na “Dança dos Famosos”, do Faustão ), André pediu as contas da emissora para, há cinco anos, fazer parte do casting principal da Rede Record. Entre altos e baixos, experimentou a fama repentina, o sucesso, as drogas. E até a política.

Nesta entrevista ao iG , o jeitão calmo de André de Biase só foi quebrado uma vez. O ator conta que não gostou de saber que os produtores Luiz Calainho e Luiz Carlos Barreto vão refilmar “Menino do Rio”, filme de 1981 que o projetou para o País. Além de protagonista, André foi o idealizador. “Ouvi falar que querem fazer ‘Menino do Rio’ em musical. O Calainho já teria falado com o Barretão. Mas o filme é meu, eu é que sou o autor. Não vai estrear nada. Vou criar um problema. É muito injusto comigo. Por que ninguém vem falar comigo?”, se indigna. Segundo o site da Produtora LC Barreto, no entanto, o longa deve ser lançado já no verão de 2013.

Kadu Moliterno e André de Biase: Juba e Lula em
Reprodução
Kadu Moliterno e André de Biase: Juba e Lula em "Armação Ilimitada"

iG: Volta e meia alguém diz que “Armação Ilimitada” (1985-88) vai virar filme. O que há de concreto neste projeto?
André de Biase: Tem certas coisas que não se explica neste País. É inacreditável que Xuxa tenha virado produto para filmes de crianças, por exemplo. Renato Aragão , eu até entendo. Ele é craque. Mas um filme como “Armação Ilimitada”, pelo sucesso que fez com toda uma geração nos anos 80, já deveria ter sido feito. Os atores estão ficando velhos. Kadu chegando ao 60, eu com 55 anos.

iG: Teria ciúme de ver outros atores interpretando Juba e Lula hoje?
André de Biase: Prefiro não contar como seriam Juba e Lula hoje em dia. Certeza absoluta que Juba e Lula na nossa idade atual seriam muito engraçados. Fizemos cinco roteiros. Kadu e eu já gastamos muito dinheiro do nosso bolso. Mas nunca aconteceu.

iG: Você não respondeu a pergunta. Tem ciúme dos personagens?
André de Biase: Não. Mas veja bem. Ouvi falar que querem fazer “Menino do Rio” em musical. O ( Luiz ) Calainho já teria falado com o Barretão. Vi no jornal que a LC Barreto ( produtora de Luiz Carlos Barreto ) se associou à empresa do Calainho para fazer o “Menino do Rio”. Mas o filme é meu, eu é que sou o autor. Não vai estrear nada. Vou criar um problema. É muito injusto comigo. É o filme que mais passou na história do Canal Brasil, não tem outro igual. Por que ninguém vem falar comigo?

O surfe me alienou. O píer do Arpoador (em Ipanema) era uma fuga da realidade. O surfista, por natureza, gosta de pôr do sol, de vento, de namorar”

iG: Considera-se um cara difícil?
André de Biase: Tenho minha opinião. A Xuxa fazia tudo em quantidade. Eu caí naquela de fazer tudo com qualidade, por isso saía caro. Vou te contar uma. Juba e Lula se apresentaram uma vez no programa da Xuxa. Depois de uma gravação, a Marlene ( Matos ) entrou no camarim para nos criticar com alguma coisa. Falei na cara dela: “Nós temos mais conteúdo do que a Xuxa, que coloca meninas de 4, 5 anos vestindo roupinhas de couro para dançar na TV”.

iG: Qual foi a reação dela?
André de Biase: Ficou muito irritada. Depois surgiu a ideia de Juba e Lula fazerem turnê com a Xuxa. Imagina se ia dar certo isso. Nossa onda era outra ( risos ).

Selmy Yassuda
"Certeza absoluta que Juba e Lula na nossa idade atual seriam muito engraçados"

iG: Ao contrário da maioria dos atores, que procura a Record quando fica sem contrato, você pediu para sair enquanto estava no ar. Por quê?
André de Biase: Comecei a fazer “Malhação” em 2001. O início era ótimo, dava 47 pontos de audiência. Daí inventaram uma república de jovens, me colocaram como chefe do local. Procurei o ( diretor ) Ricardo Waddington , pedi para sair. Não aguentava mais o mesmo trabalho, o mesmo personagem. Mas a Globo não tinha novela para mim. Aí o ( Alexandre ) Avancini me chamou para fazer uma novela sobre mutantes na Record. E estou lá desde abril de 2007.

iG: Te incomodou ficar tanto tempo em “Malhação”, que serve de laboratório para novos talentos?
André de Biase
: Incomodou. Mas não tinha a ver com os atores novatos. Adoro trabalhar com jovens. Se bem que... ( pausa ) Muitos deles viravam a noite, iam para festa pegar gatas e no dia seguinte chegavam sem o texto decorado. Muitos estão ali só para falar que estão na Globo.

iG: Você também teve esta fase de curtição no começo da carreira?
André de Biase:
Nunca tive esta fase. Vim do cinema, minha técnica e disciplina são diferentes. Cinema exige muito mais. TV é tudo rápido, cinema é de detalhes. Entrei nessa por acaso. Me convidaram para fazer um filme, o “Embalos de Ipanema” (1978), agarrei e descobri o que seria quando crescesse. Antes disso, ficava na praia pegando onda. Era de família de boa situação. Nem cheguei a fazer faculdade.

Capa do LP de 1988
Reprodução
Capa do LP de 1988

iG: Como você identifica a sua geração, que foi sucessora da turma engajada que viveu intensamente a ditadura militar?
André de Biase: O surfe me alienou. O píer do Arpoador ( em Ipanema ) era uma fuga da realidade. O surfista, por natureza, gosta de pôr do sol, de vento, de namorar. É como se vivêssemos numa redoma de vidro, ignorando o que acontecia do lado de fora. O que me transformou foi a galera que conheci ali. Caetano, Gal, a turma de baianos que tinha chegado ao Rio...

iG: Foi pacífica esta convivência com os “forasteiros” baianos?
André de Biase:
De forma alguma. A patrulhinha vinha prender todo mundo que fumava bagulho. E quem fazia bagunça na praia era a turma de baianos, o povo de sunga estranhíssima, de cordinhas, tudo cabeludo embaixo do braço, que tocava violão na areia... A gente ficava na surdina. Aí a gente jogava copinho cheio de areia neles, disfarçadamente, para espantá-los da nossa área ( risos ).

iG: E como, mais tarde, convenceria Caetano a te ceder o título da música “Menino do Rio” para o filme?
André de Biase:
 Fui com meu amigo Petit ( José Artur Machado , surfista carioca que inspirou o compositor a compor a música “Menino do Rio ”) na casa do Caetano pedir autorização para usar o nome da música. Fiquei com medo de ele lembrar de mim. E sabe qual foi a primeira coisa que ele disse? “Pare de jogar copinho de areia em mim na praia, hein”. Morri de vergonha ( risos ). Mas Caetano é ótima figura. Ele nem quis ler o roteiro do filme, disse que estava tudo certo.

A patrulhinha vinha prender todo mundo que fumava bagulho. E quem fazia bagunça na praia era a turma de baianos, o povo de sunga estranhíssima, tudo cabeludo embaixo do braço”

iG: Você nunca escondeu que já teve problemas com drogas no passado. Como pensa hoje a questão da legalização?
André de Biase:  O cara que fuma muita maconha deixa de ser produtivo, não tem jeito. Ele fica bobo. É mentira quem fala que fuma há trinta anos e não fica viciado. Condeno o uso diário e excessivo que te torna pouco produtivo. Se você fumar num dia de sol, depois de um bom mergulho, tudo bem. Quem tem que controlar são os pais, não o Estado.

iG: Como é este controle na sua casa, tendo quatro filhos?
André de Biase: Nunca falei para os meus filhos: ‘não fume’. E, mesmo assim, eles não fumam. Não gostam. Está na educação... O f* é a cocaína, o crack. Estas drogas precisariam sumir do planeta. Já experimentei muita coisa nessa vida... Em 1974, tomei o peyote, um cacto de sete lados que você cozinha por sete horas até ficar uma gosma preta. É droga natural, começa a ver espíritos, entra em transe.

iG: Como foi esta experiência?
André de Biase:
Tomei no Peru. O efeito demora umas doze horas a passar. É uma coisa perigosa, porque corre o risco de não voltar. Teve um amigo meu que nunca mais voltou a ser a mesma pessoa. Todo mundo deveria experimentar ácido uma vez na vida. Quer dizer, nem todo mundo. Tem pessoas com estruturas mentais frágeis. Pessoas com cabeça normal deveriam passar por experiências como estas, nas quais se fala com os espíritos. É algo que vale muito a pena.

iG: Por quê?
André de Biase: Porque te põe menos materialista, te faz enxergar um mundo não material. Estamos caminhando para um mundo cada vez mais consumista. O sujeito se endivida em cartão de crédito, querendo comprar roupas, sapatos, carros. A vida é simples. Você precisa de vento na cara e água para ser feliz, não mais que isso.

André de Biase é contratado da Rede Record desde 2007
Selmy Yassuda
André de Biase é contratado da Rede Record desde 2007

iG: E o que a cocaína te trouxe?
André de Biase: Todas minhas experiências com cocaína foram horríveis. Comecei a ficar viciado, paranoico... A primeira vez é ótima, a segunda é mais ou menos, a terceira é ruim, a quarta é horrível... Aí você vira um animal. Não tem nada de bom. Quase acabou com a minha vida. Não era de usar grandes quantidades, mas as vezes que usei foram muito fortes, foi muito difícil largar. Mas não uso drogas há mais de vinte anos.

iG: Como conseguiu se livrar?
André de Biase: Tive que me afastar das festas e pessoas que usavam. Foi complicado, principalmente porque estava no auge, no sucesso, todo mundo queria ficar perto de mim e me dar a porr* da droga. A primeira coisa que me entregavam quando eu chegava num lugar era a cocaína. Ela era o mimo dos falsos amigos.

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"Menino do Rio": três milhões de espectadores nos cinemas

iG: Fale um pouco da sua passagem pela política no Espírito Santo, em 1992.
André de Biase: Minha família toda é de lá, meus avós foram senadores. Mas minha experiência foi horrível. A função era colocar Espírito Santo na mídia nacional. Fiquei só cinco meses no cargo, tipo secretário de turismo, cultura... Era o ano que ( Nelson ) Mandela viria ao Brasil. Lembrei que o governador ( Albuíno Cunha, PDT ) era o único governador negro do País. Existia chance de ter atenção do Mandela.

iG: E?
André de Biase: Antes de ele chegar, quatro caras fluentes em francês chegaram pedindo 180 mil dólares para a fundação do Mandela, se dizendo representantes do presidente africano. Não tinha este poder de mexer com o financeiro, então fiz a ponte com o governador. Bem depois é que soube que eram quatro trambiqueiros in-ter-na-cio-nais! What ? Quase que me envolveram no rolo. Deu capa de jornal e tudo. Um escândalo!

iG: Descobriram quem eram estes sujeitos?
André de Biase: Nunca descobri. Devia ter uma quadrinha no Espírito Santo conjuminada com eles. Sumiram. Depois disso, cai fora da política. Mas Mandela apareceu. Foi lindo.

Todas minhas experiências com cocaína foram horríveis. Comecei a ficar viciado, paranoico... Aí você vira um animal”

iG: No auge do sucesso, você era desejado pelas mulheres e invejado pelos homens. Teve as mulheres que quis?
André de Biase: Sempre fui um cara de sorte neste assunto. Sempre foi muito fácil ser escolhido por elas ( risos ). Meu primeiro casamento durou 12 anos, com a mãe dos meus filhos. Um ano depois de me separar, conheci minha segunda mulher, com quem estou há 20. Meus relacionamentos são duradouros. Tenho olho clínico para mulher.

iG: Conte uma dessas aventuras sexuais da época de Juba e Lula.
André de Biase: Cara, já cheguei num hotel e tinham duas mulheres lindíssimas trancadas no armário do meu quarto. Olha que louco!

iG: E o que fez em seguida?
André de Biase: Claro que eu não as expulsei do quarto ( risos ).

André de Biase
Selmy Yassuda
André de Biase


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